Vitória contra o aumento das passagens: Uma “primavera” para Porto Alegre?

08/04/2013 08:58

Davenir Viganon

Os manifestantes que protestaram contra o aumento da passagem, que de R$ 2,85 haviam subido para R$ 3,05, em Porto Alegre, no último dia 4, puderam comemorar uma vitória. O pedido de liminar feito pelos vereadores do PSOL Pedro Ruas e Fernanda Melchionna que suspende o aumento foi aceito pela justiça. Muitos souberam da decisão quando o protesto já estava acontecendo, o que foi muito comemorado pelos manifestantes. Mas essa conquista mudará o rumo dos protestos? Eles chegaram ao seu apogeu ou mobilizarão ainda mais a população?

Manifestação sob o terminal Parobé no centro histórico de Porto Alegre[1]

Os manifestantes se são compostos por muitas organizações anticapitalistas presentes, desde partidos políticos manjados em protestos pela capital como o PSTU e PSOL, passando por grupos anarquistas e independentes. Em conjunto e no decorrer dos protestos conseguiram agregar as manifestações muitas pessoas que não saiam de casa para protestar. A grande quantidade de jovens presentes encheram de esperança a quem olhasse a manifestação como um todo. Todos estavam entorno de uma causa em comum, mas seria a contrariedade ao aumento abusivo, feita a canetaço mesmo, que juntou todos durante várias vezes, tantas pessoas nas ruas de Porto Alegre? Sim, mas não apenas isso.

A indignação com o rumo da administração do prefeito Fortunati vem sendo alimentada por suas medidas de “estrangulamento” dos espaços públicos. A própria motivação de Fortunati em sua candidatura o prenunciava. Fortunati queria ser “o prefeito de Porto Alegre na Copa”. Em tempos de especulação imobiliária sabemos o que isso significa. Os moradores medonhamente enxotados do pinheirinho em São Paulo sabem, os índios da aldeia maracanã e os moradores das favelas pacificadas no Rio sabem, e na própria Porto Alegre, o toque de recolher no bairro Cidade Baixa[2], os desabrigados dos incêndios nos arredores da Arena do Grêmio em Porto Alegre sabem.

O aumento da passagem foi à gota d’água de um serviço público que está em franco declínio de qualidade, em uma disparidade violenta com o valor cobrado. Mas mais do que isso o sucesso dos protestos, com a adesão da população, deveu-se a troca entre os manifestantes e a própria população. O aumento atinge diretamente o bolso dos Porto alegrenses e a reinvidicação do manifesto foi de fácil assimilação, “estão roubando você”. Quem esteve presente no protesto do dia 1º pode ver que além do apoio com acenos, algumas pessoas que estavam nas calçadas passaram acompanhar a caminhada. Foi uma verdadeira demonstração do poder popular nas ruas. Essa interação a mídia não conseguiu sabotar naquele dia, chegando a mostrar o aspecto positivo do protesto, mas obviamente sem perder a chance de sutilmente lembrar os aspectos negativos, a tática usual da noticia adversativa, aquele “mas” colocado no ponto estratégico do texto ou da fala.

Mas qual o futuro do bloco que se formou e fomentou momentos maravilhosos nessa primeira semana de abril? Isso vai depender se como serão levadas adiante as diferenças irreconciliáveis entre os grupos organizados que participaram até então das manifestações.

A relação com os partidos políticos costuma ser tensa. Esses que de uma maneira geral estão desacreditados pela população e por boa parte das organizações presentes no protesto, fizeram sua contribuição tanto nas passeatas quanto pela via judicial, e isso não pode ser negado. A liminar judicial que revogou o aumento foi encaminhada por dois vereadores do PSOL. Ambos já há tempos estavam procurando pelas vias legais combater o aumento, mas faltava o apoio popular que foi obtido com as manifestações. A via legal se fez valer apenas pelo apoio popular.

Outro ponto tenso é a profundidade das reivindicações daqui pra frente, ao exigir que se baixe o valor da passagem é uma medida reformista, que não promove uma ruptura no status quo, o conteúdo latente das manifestações. Esse é um ponto que nos diferencia dos movimentos anticapitalistas que ocuparam as praças pelo mundo em 2011. Apesar de importante, o fato do preço da passagem ter baixado, o mais importante é que o movimento conseguiu estabelecer uma relação de apoio com a população, conseguiu passar a mensagem mais importante de todas: “PROTESTAR DÁ CERTO” e isso só foi obtido porque os grupos tão diferentes se agregaram, mostraram para a população que ela é o que importa nisso tudo.

Reunir, sentar e discutir programas fixos voltando-se para si, para seus projetos estruturais na sociedade será com certeza a ruína do movimento. Reunir 10 mil pessoas foi realmente maravilhoso de se e participar, mas existem muitas mais para se juntar, os desabrigados das vilas entorno da Arena do Grêmio, por exemplo, e tantos outros que são explorados em empregos medíocres, sofrendo com a violência do estado e cerceado do bem comum.

Há cerca de 10 anos atrás eu trabalhava em um supermercado que fica bem no caminho de onde a manifestação passou, sem fazer idéia do mundo a minha volta e com a certeza de que protestar era perda de tempo, mas neste primeiro de abril, parece até mentira, eu estava protestando e com a certeza de que não deveria estar em qualquer outro lugar do mundo senão ali. Despertar essa consciência é um processo lento que exige um trabalho duro e paciente que não perdoa erros, picuinhas nem outra coisa que não continuar e sintonia com a população. Que a primavera chegue a Porto Alegre.

P.S. - Neste sábado o bloco que organiza e marca as datas dos protestos decidiu, através de uma assembléia, que seguirá protestando e lutando para que a passagem baixe para R$ 2,60.

Leia mais:

Novo protesto reúne de quatro mil (de acordo com a Brigada) a dez mil (de acordo com manifestantes). Em: http://www.sul21.com.br/jornal/2013/04/milhares-de-pessoas-lotam-as-ruas-do-centro-de-porto-alegre-contra-aumento-da-passagem/

A cronologia de uma violência midiática – a cobertura dos protestos de Porto Alegre em Zero Hora. Em: http://jornalismob.com/2013/04/02/a-cronologia-de-uma-violencia-midiatica-a-cobertura-dos-protestos-de-porto-alegre-em-zero-hora/

Juiz acata pedido de liminar do PSOL e suspende último aumento da passagem. Em: http://www.sul21.com.br/jornal/2013/04/juiz-acata-pedido-de-liminar-do-psol-e-suspende-ultimo-aumento-da-passagem/

Protestos em Porto Alegre são resposta à restrição do espaço público, afirmam sociólogos. Em: http://www.sul21.com.br/jornal/2013/04/protestos-em-porto-alegre-sao-resposta-a-restricao-do-espaco-publico-afirmam-sociologos-1/



[1] http://www.sul21.com.br/jornal/2013/04/os-baderneiros-venceram/por-ramiro-furquimsul21-8235/

[2] Leia n’O Fato e a História, Aqui jaz a noite Porto-alegrense. Em: http://ofatoeahistoria.webnode.com/news/aqui-jaz-a-noite-porto-alegrense/

 

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