Vampiros ricos e zumbis pobres: O terror do crack nas periferias brasileiras

31/01/2013 08:12

Rodrigo Hermano

"Um espectro assombra as comunidades negras da América. Como vampiro, suga a alma das vidas negras, não deixando nada senão esqueletos que se movem fisicamente mas que estão afetiva e espiritualmente mortos.

É o resultado direto da rapinagem planetária, das manipulações dos governos e da eterna aspiração dos pobres a fugir, aliviar-se, ainda que brevemente, dos paralisantes grilhões da miséria extrema.

A sua procura de alívio se soletra C-R-A-C-K. Crack. Pedra. Chame como quiser, pouco importa; ele é na verdade, uma outra palavra para "morte"[1].

(ABU-JAMAL, 2001)


“Ultimamente, andam os doidos pela rua.

Loucos na fissura, te estranham na loucura.

Pedir dinheiro é mais fácil que roubar, mano!

Roubar é mais fácil que trampar, mano!

É complicado.

O vício tem dois lados.

Depende disso ou daquilo. Ou não, tá tudo errado.

Eu não vou ficar do lado de ninguém, por quê?

Quem vende droga pra quem? Hã!

Vem pra cá de avião ou pelo porto ou cais.

Não conheço pobre dono de aeroporto e mais:

Fico triste por saber e ver

Que quem morre no dia a dia é igual a eu e a você.”[2]

(ROCK, 1997)
 

“Só o povo pode e deve decidir quais métodos utilizar para realizar uma “mudança radical”, e isso necessita de organização de massas e politização.”[3]

(PINKNEY, 2010)

 

O crack é capaz de criar sentimentos. Mesmo naqueles que não o usam existe uma sensação de medo que acaba levando o sujeito a implorar por vigilância e repressão. O temor é geral, pois se criou uma idéia de que todo usuário anda com uma arma na mão esperando você passar desavisado para lhe roubar.É necessário que coloquemos a questão nos seus devidos lugares e que analisemos com cuidado certas particularidades do crack na atualidade, certas “coincidências”, que nos remetem a outros momentos onde as drogas trataram de ajudar o capitalismo a controlar a população e dizimar movimentos sociais. Quem usa o crack é chamado dependente e acredito ser este um conceito bastante propício a essa droga. A dependência é a condição primeira e perpétua do explorado dentro do capitalismo. Seja de trabalho, remédios ou drogas ilícitas, o grande objetivo é nos tornar dependentes de algo. E nós somos. Nós todos, sem exceção. Mas, no caso da pedra, mesmo aqueles que não são dependentes estão sendo afetados de alguma forma. Isso nos parece bastante curioso e decidimos, então, analisar as consequências sociais dessa dependência.

Motta, apresentador do “Balanço Geral”, um dos jornais que transmitem o discurso anti-periferia.

Muita gente aqui na região onde vivo passou a fumar crack desde que ele chegou por volta do final dos anos 90 do século passado. Todos conhecemos dependentes dessa droga. Conheço um sujeito inteligente e de boa conversa que, infelizmente, gosta de fumar pedra. Faz questão de ir fumar longe dizendo que não quer nos influenciar. Outro entrou para o tráfico para manter o vício e acabou assassinado. Antes de fumar jogava xadrez conosco na praça. Outro, que foi um grande amigo meu e atualmente é evangélico, ficou tão dependente que assaltava as pessoas usando um tijolo para intimidá-las. Certa vez levou um sujeito mais sanguinário para assaltar com ele e o mesmo acabou dando uma tijolada em um homem que voltava do trabalho. Deixou o trabalhador em coma e foi preso.

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Enquanto fazemos o trabalho de nos destruir por aqui, os jornais policiais ganham manchetes e repetem o discurso: “o crack está dominando a nossa sociedade, transformando os pobres em zumbis, todos prontos para matar qualquer um por cinco reais”. E através de nossa crença em seus discursos alarmistas estes jornais nos enterram em nossas casas. Estes jornais nos tornam defensores da pena de morte.Destroem nossa força coletiva e fazem com que ponhamos a culpa de mais essa tragédia em nós mesmos. Quem são os verdadeiros responsáveis pela nossa miséria, pelos nossos vizinhos dominados pelas drogas e por toda essa desgraça que se abate sobre a periferia? Quem são os verdadeiros traficantes?

Bem conhecido nos bairros pobres e afastado das grandes cidades brasileiras e, mais recentemente, nas cidades do interior, o crack parece ser o carro chefe de uma campanha de medo, degradação e assassinato que está sendo levada à frente pelo capital internacional, com o auxílio dos bancos e da imprensa. Os objetivos parecem bem definidos: arrumar um motivo para legitimar a entrada de policiais na periferia buscando facilitar a entrada das grandes empresas nas comunidades:

“O Rio de Janeiro virou uma espécie de projeto-piloto das instituições financeiras. É lá que a maioria delas está abrindo suas primeiras agências dentro das favelas. Complexo do Alemão, Cidade de Deus e Rocinha já possuem unidades da Caixa Econômica Federal (CEF), Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Itaú. Movimento semelhante começa em São Paulo e na Região Metropolitana de Porto Alegre, onde a Caixa e o Banrisul focam ações na periferia.”[4]

Em um jornaleco da cidade de Porto Alegre que, lamentavelmente, terei de citar como referência neste texto, saiu uma breve reportagem sobre drogas e presídio.Nessa matéria, que foi publicada em janeiro de 2013, está escrito o seguinte:

“Segundo o entrevistado (...) os agentes penitenciários que tentariam retirar celulares e drogas dos detentos seriam repreendidos pela administração do presídio e pelo órgão disciplinar que funciona dentro da cadeia (...)”

E depois, nas palavras do entrevistado anônimo:

“Enquanto houver drogas, a cadeia estará tranquila. Tira a droga deles (presos) para ver: vão incomodar. E incomodar não é interessante politicamente.”[5]

Essa reportagem nos é interessante porque torna evidente o uso das drogas para controlar os presos no estado do Rio Grande do Sul. Outro fato interessante é que este estado vive, no momento, uma terrível crise em seu sistema prisional, possuindo aquela que é considerada a pior penitenciária do país: o Presídio Central de Porto Alegre.

Polícia invadindo uma cracolândia no Rio de Janeiro: mais uma ação para mascarar o verdadeiro culpado.

O tráfico de drogas é uma ferramenta poderosa e, de certa forma, discreta, através da qual os ricos mantém o controle sobre as populações marginalizadas pelo sistema capitalista. Quem é o traficante? Geralmente alguém da própria comunidade que nasceu na mesma situação de miséria que o resto das pessoas que ali vivem. Este, distante das “oportunidades”, acabou no tráfico, dispondo-se a sacrificar a liberdade pela sobrevivência e pela ascensão dentro do regime capitalista. Condenaremos alguém por agir dentro dessa lógica? Nós que somos anticapitalistas certamente condenaremos, afinal o tráfico de drogas é uma empresa capitalista e a serviço do capitalismo. Mas devemos buscar os verdadeiros responsáveis entre os cidadãos “respeitosos”, “bem relacionados” e “finos”. Quem consegue transportar cocaína em um avião da Força Aérea Brasileira? O traficante da comunidade onde vivemos tem influência e capacidade para fazê-lo? Talvez alguns líderes de grandes facções que atuam no Rio de Janeiro e São Paulo. Mas quem são aqueles que facilitam o trabalho destes traficantes? Vejamos:

“Superior Tribunal Militar (STM) acolheu, por unanimidade, a representação do Ministério Público Militar (MPM) para declarar o coronel da reserva da Aeronáutica W.V.S indigno para o oficialato, com a perda de seu posto e de sua patente. O coronel já tinha sido condenado pela Justiça Federal a 17 anos de reclusão por tráfico internacional de drogas. Segundo os autos, o coronel integrava uma quadrilha especializada em tráfico internacional de substância entorpecente para a Europa, mediante a utilização de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB).  O militar foi preso, em flagrante, no dia 19 de abril de 1999, com 32 kg de cocaína, escondidos em malas de viagem.”[6]

Aqueles que são presos por tráfico (salvo meia dúzia de burgueses que acabaram “caindo” por incompetência) geralmente são pobres, muitas vezes pretos, nascidos e criados na favela, portanto, perfeitos culpados por mais essa mazela social. É a indústria do preto culpado. Saindo um preto culpado: entreguem-no à mídia. Ensinem os telespectadores a execrá-lo. Mais uma vez, a corda arrebenta do lado mais fraco. Nas eleições o mecanismo da auto-culpabilidade funciona da seguinte forma: eles dizem que a sociedade está podre porque não sabemos votar no candidato certo. Como se a política não estivesse juridicamente amarrada para nos prejudicar e privilegiar os ricos. Na questão das drogas eles dizem que existe violência porque nós fumamos. Não entendemos ainda as palavras de ordem? É a favela o problema. É o pobre o problema. E à maioria: o problema. Este problema não está só nas ruas. Está nas conversas. Está nos medos. Cria receios. Mães entram para a igreja e, ao temerem pela vida de seus filhos, acabam levando-os para a religião em uma tentativa desesperada de livrá-los do crack. Fecha-se o círculo. Os mesmos pastores, donos de televisão, que transformam o usuário em discurso legitimador da pena de morte, os recebem de braços abertos em suas igrejas. E a opinião da maioria é a de que a igreja foi uma bênção na vida dessas pessoas. Individualmente, talvez. Mas o crack vai encontrar novos usuários e certamente amanhã é a família do lado que vai sofrer. Enquanto o indivíduo sorri, drogado pela igreja, a coletividade sofre pela falta de união, organização e iniciativa contra os verdadeiros criminosos: os ricos. E é justamente das massas que deve nascer o movimento que vai derrotar todos estes mecanismos criminosos engendrados pelos ricos. É da periferia que deve partir a iniciativa de luta contra aqueles que exploram. E a periferia sangra, enfraquecida por mais uma tragédia, entre tantas outras.

Observamos e citamos, frequentemente, em nossas conversas na padaria, nas praças, nos salões de cabeleireiros e bares, aqueles que se viciarame anda a pedir centavos na rua:“Ontem estava no ponto de ônibus, magro feito a fome. Mentiu que era para a passagem. Não dei dinheiro, Sabia que era pra fumar pedra”.Nas praças, andam envergonhados de si mesmos, explicando que sua vida está uma merda, que querem largar a “pedra”. Aí pedem um cigarro, fazem cinza e dão outra cachimbada: “Preciso largar isso. Eu vou largar, cara. Vou largar.”

Panteras Negras em protesto pela liberdade de seus presos políticos.

Fomos agraciados com mais policiais nas ruas. Mais policiais são mais armas apontadas para nossas cabeças. Desfilam tal qual perdigueiros com o nariz empinado, olhando para tudo e para todos como se fôssemos nós os culpados. Acham-se grandes defensores da ordem e da justiça ostentando suas armas, cassetetes e seus uniformes com a cor das fezes que seus superiores lhes colocam na cabeça.São iguais a nós, muitas vezes nossos vizinhos, mas acham-se superiores a nós. Sua didática é a das armas de fogo e porretes. As escolas? Continuam caindo aos pedaços, muitas vezes sobre a cabeça das crianças. Claro que poderiam reformá-las, melhorá-las, mas é resultado a longo prazo. A copa do mundo e os gringos estão batendo à porta. Tragam mais crack para os pobres e os pretos. Quanto mais crack, mais policiais colocaremos na periferia. É por isso que nos dizem: “crack: nem pensar”. Se pensarmos no crack e tentarmos entender sua origem e sua verdadeira tarefa na sociedade capitalista veremos um jogo sujo e manipulador controlado pela imprensa, pelos bancos, pelos empresários, além de seus representantes no Estado. Afinal, um pequeno e cuidadoso estudo é capaz de revelar que executivos de grandes empresas, carros luxuosos, mansões, jantares com autoridades e tráfico de drogas andam de mãos dadas. Quem é capaz de explicar o fato de que uso do crack é virtualmente liberado nas ruas centrais das grandes cidades enquanto um protesto a favor da maconha, por exemplo, causa um imenso estardalhaço jurídico. A explicação é simples:esqueça o traficante pé-de-chinelo do seu bairro. Esqueça os testas-de-ferro das facções criminosas do Rio de Janeiro e São Paulo. Pense no HSBC e no escândalo de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas:

“O chefe do departamento de controle do banco britânico HSBC, David Bagley, anunciou nesta terça-feira sua renúncia perante a Subcomissão do Senado americano. O HSBC foi acusado em um relatório da Subcomitê de Investigação Permanente do Senado dos Estados Unidos de contribuir em operações de lavagem de dinheiro procedente do tráfico de drogas e o financiamento do terrorismo.”[7]

A ligação do sistema financeiro internacional com os traficantes de drogas é evidente. Além dos exemplos históricos da Guerra do Ópio e do uso da heroína pela CIA buscando desmobilizar o Partido dos Panteras Negras nos EUA, podemos observar o mesmo mecanismo atuando aqui no Brasil:

“Segundo a CPI, o colombiano Joaquim Hernando Castilla Jimenez, acusado de participar de quadrilha de tráfico de drogas, contou que lavou nos últimos cinco meses US$ 5 milhões por meio de agências do Real, em Goiás, Bradesco, de Belém, HSBC, do Pará, Unibanco, de Belo Horizonte e São Paulo, e Bozano, Simonsen, em São Paulo. Segundo parlamentares, ele revelou lavar recursos provenientes do crime organizado no valor de US$ 600 a US$ 720 milhões ao ano.”[8]

 

O crack, como droga ilícita, deveria ser tão proibido quanto a maconha, por exemplo. O que motiva o impedimento do uso da palavra “maconha” em um protesto de usuários em São Paulo enquanto a pedra é fumada por centenas de pessoas em uma região central da mesma cidade?

A flagelação pública de um escravo no Rio de Janeiro, por Debret. (Voyage pittoresque et Historique au Brésil - 1834-1839).

Parece óbvia a existência de alguém colhendo benefícios dessa enorme tragédia que o crack tem causado, direta e indiretamente, na periferia. O que nos falta para perceber? Que os ricos criem cracolândias com luzes em neon e casquinhas do McDonald’s? Enquanto isso os pobres sentem-se culpados e desgraçados. Encolhidos atrás de um banco de praça com uma lata na boca. Atribuindo à droga todos os problemas e soluções de suas vidas. Sustentam dois grilhões: o crack, que dominou sua mente, e o aumento da repressão por parte dos ricos contra o pobre. Usando crack estão a ajudar o governo e a burguesia em sua tarefa de subjugar toda a comunidade, pois é o uso dessa droga que gera o discurso que legitima toda uma cadeia de repressão fomentada pela mídia. Dão assunto aos jornais burgueses. Entregam argumentos aos maus jornalistas que clamam por pena de morte na televisão enquanto a câmera foca no preto algemado. Nada mudou. Desde quando não éramos um país, o preto permanece algemado.

Existem pessoas dispostas a solucionar tudo rapidamente: os ricos. Mais uma vez eles a salvar o preto. Como fizeram através da lei áurea. Da mesma forma que os ricos salvaram os escravos no Massacre de Porongos. E agora nos salvam invadindo as favelas.

Estou, definitivamente, cansado de seus métodos.

(Atualizado às 09:55)

Notas:

 

[1] ABU-JAMAL, Mumia. Ao vivo do corredor da morte. São Paulo: Conrad. 2001. In: Drogas, imperialismo e luta de classes , Ney Jansen (sociólogo), artigo, revista Urutagua, no.12, 2007, Universidade Estadual de Maringá (PR)

[2]ROCK, Edi; JAY, Kl. Periferia é Periferia (em qualquer lugar). In: Racionais MC’s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, 1997. 1 CD.Faixa 8.

[3] Larry Pinkney - http://comunidadenegrapel.blogspot.com.br/2011/06/internacional-eua-realizaram-guerra.html

[4]http://www2.sindbancarios.org.br/site2011/component/content/article/45-comunicacao-noticias/971-com-a-mira-na-populacao-de-baixa-renda-bancos-invadem-periferias

[5]Novas Suspeitas em Presídio. Zero Hora, Porto Alegre, 27 jan. 2013. p. 29.

[6]http://www.stm.jus.br/publicacoes/noticias/noticias-2011/coronel-que-traficava-cocaina-em-avioes-da-fab-perde-o-posto-e-a-patente

[7]http://veja.abril.com.br/noticia/economia/executivo-do-hsbc-renuncia-por-escandalo-de-lavagem-de-dinheiro-nos-eua.

[8]http://www1.an.com.br/1999/nov/25/0pai.htm

 

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