Universidade Federal de Rio Grande (FURG) recebe evento internacional sobre diversidade sexual e de gênero

20/05/2014 09:47

Marlon Silveira[1]

Nos dias 7, 8 e 9 desse mês, a Universidade Federal do Rio Grande (FURG) através do Laboratório Nós do Sul de Estudos e Pesquisas Sobre Currículo do Programa de Pós-Graduação em Educação realizou o VII Congresso Internacional de Estudos sobre a Diversidade Sexual e de Gênero da ABEH (Associação Brasileira de Estudos da Homocultura). O evento contou com a presença de pesquisadores/as de diferentes áreas do conhecimento de distintos países e estados brasileiros, além de ativistas sociais, estudantes e parlamentares, a exemplo do Dep. Federal Jean Wyllys do PSOL do Rio de Janeiro.

Com o tema “Práticas, Pedagogias e Políticas Públicas”, o VII Congresso Internacional de Estudos sobre a Diversidade Sexual e de Gênero da ABEH, através de suas 8 mesas redondas, 36 simpósios temáticos e as apresentações de mais de 500 comunicações orais, relatos de experiências e pôsteres foi possível um intenso debate sobre diversidade sexual e de gênero em seus atravessamentos com a educação. A discussão subsidiou a Carta Aberta de Rio Grande que teve como questão central a posição conservadora assumida pela Câmara dos Deputados com relação ao Plano Nacional de Educação, destacou o Prof. Dr. Marcio Caetano, coordenador do congresso.

Vista do auditório durante a mesa de abertura do Congresso (Foto:Jimena da Garay Hernández)

O Dia Iinternacional de combate à homofobia. O que comemorar?

Na semana em que se comemora a retirada do termo “Homossexualismo” da lista internacional de doenças (17/05/1990) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), acredito que alguns apontamentos em relação à homofobia se fazem necessário diante do cenário político nacional.

O breve texto que se segue, mais do que trazer dados e/ou apontar afirmações, tem como objetivo lançar alguns questionamentos que acredito serem fundamentais na compreensão do fenômeno da homofobia e no enfrentamento de sua prática.  Ao sermos questionados, estamos de certa forma sendo provocados a sair de uma zona de conforto, desestabilizando algumas verdades estabelecidas historicamente e que são cotidianamente reforçadas e naturalizadas através do mais “inocente” gesto e por instituições conservadoras patriarcais.

A derrubada pela Câmara dos Deputados de itens como “gênero” e “livre orientação sexual” do novo Plano Nacional de Educação (PNE) do Ministério da Educação (MEC), que possibilitaria uma maior abertura para a abordagem de temas como “sexualidade” e “gênero” em sala de aula, só vem a demonstrar o quão longe estamos de uma educação brasileira democrática e libertadora, que respeite as identidades individuais e coletivas.

O show de abertura ficou por conta da cantora Valéria Houston (Foto:Jimena da Garay Hernández)

A naturalização de algumas categorias que são/foram construídas historicamente como sexo, raça, gênero, encontram muitas vezes no discurso religioso fundamentalista um local fecundo para a disseminação de práticas heterossexistas, racistas e homofóbicas, uma vez que desconsideram o caráter de transformação pelos quais passaram (e continuam a passar) tais categorias.

Questionar os regimes de verdade que nos impõem comportamentos e práticas que devem ser seguidos conforme a biologia dos corpos baseado numa limitada lógica binária “masculino/feminino”, “homem/mulher”, que encontra na naturalização das práticas sexuais uma afirmação estritamente religiosa, divina, passa pela discussão e relativização desses regimes de verdades, que deveriam encontrar na escola pública uma importante porta para que fossem trabalhadas e discutidas questões centrais para a compreensão da homossexualidade e, consequentemente, combate à homofobia.

O apelo midiático movido pelos setores conservadores como algumas instituições religiosas, só fazem aumentar a intolerância sofrida pela população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais - LGBTT. O movimento conservador, liderado pelos fundamentalistas religiosos, busca diferentes maneiras de operar e estabelecer suas verdades através da elaboração de projetos como o da “Cura Gay” e opondo-se ao Projeto de Lei da Câmara nº 122 (PLC 122)que visava a criminalização dos atos de homofobia.

Equipe de trabalho (Foto:Jimena da Garay Hernández)

Não quero aqui colocar toda a culpa da violência sofrida pela população LGBTT nas religiões. Não! Até porque a homofobia também é reforçada a cada sorriso malicioso que damos ao ouvir uma piada “sem maldade” sobre os/as LGBTT’s, a cada vez que recorremos ao termo “viado” ou “machorra” para insultarmos alguém. Porém, seria ingênuo pensar que todos os anos de dominação religiosa em que o Estado brasileiro esteve a serviço da religião não interfeririam no cenário político atual, mesmo tendo clareza da utópica laicidade do Estado.

Uma sociedade que ainda prega o ódio às pessoas através de práticas homofóbicas, que cada vez mais sujeita e vulnerabiliza jovens de diferentes idades, a violência motivada pelo ódio ou aversão à sua orientação sexual considerada desviante por eles não corresponderem ao padrão heterossexual que torno a repetir, é uma construção histórica e cultural, logo, passível de transformação, só nos faz perceber a urgente e necessária atenção com que os casos de homofobia e as estratégias de prevenção desta merecem ser tratados. Rebelar-se contra essa lógica normativa da heterossexualidade obrigatória e conservadora torna-se um ato político, dada a importância e compromisso de cada um, independente da orientação sexual, no processo de transformação da sociedade e de construção da democracia.

Nesse sentido, o dia 17 de maio, mais do que um dia de celebração é um dia de luta por todas as conquistas que ainda precisamos alcançar. Conquistas essas que tornam-se verdadeiros desafios diante de um poder público negligente que fecha os olhos para a violação da cidadania de uma parcela significativa da população brasileira, ou seja, o direito a uma vida livre de violência da população LGBTT.

Nota

[1] Prof. Msn. Marlon Silveira do Laboratório Nós do Sul de Estudos e Pesquisas Sobre Currículo, Programa de Pós-graduação em Educação – Universidade Federal do Rio Grande e Licenciado em História pela Faculdade Porto-Alegrense- FAPA

 

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