Uma potência frustrada: os freios imperialistas no "abacaxi sírio"

24/09/2013 08:21

 

Putin permaneceu calmo e em silêncio, o que irritou Obama ainda mais. Ele se levantou, irado, e saiu, deixando péssima impressão. Na prática, conseguiu unir o mundo contra os Estados Unidos. Mais do que isso, conseguiu reunir a sociedade civil e grande parte dos governos do planeta em torno da solidariedade total ao povo sírio. Um tiro no pé, enfim. - Baby Siqueira Abrão

O “Abacaxi Sírio” e o jogo de interesses

Assim como os “dragões egípcios” levantaram voo num embalo populacional gigantesco no Egito, instaurando uma ditadura militar, iniciado na chamada “Primavera Árabe” [1]; outra nação do Oriente Médio vem sofrendo, nos últimos anos, as consequências do mesmo fenômeno político-econômico e social de 2011: a Síria. Mergulhada numa sangrenta guerra civil entre oposicionistas do Governo Assad (sunitas, membros da Al Queda, mercenários ocidentais e demais guerrilheiros) e partidários do governo, a Síria vem deixando um gigantesco lastro de mortos e refugiados no mundo. [2] Conflito esse em torno da deposição de Assad e de seu governo.

O Ocidente (Europa e, principalmente, Estados Unidos), há muito, vem se aproveitando desse ambiente instável para tentar derrubar Assad, por interesses energéticos, políticos e geoestratégicos. Isto é, motivos nunca divulgados na grande imprensa, como o enfraquecimento do governo iraniano – aliado de Damasco[3] –, diminuição da influência comercial russa de fontes energéticas (petróleo, gás natural, etc.), eliminação de grupos extremistas islâmicos (como o Hezbollah), fortalecimento regional de Israel e muito mais.

Entretanto, o “abacaxi sírio” obteve contornos diferentes e dimensões internacionais visíveis nos últimos meses decorrentes às várias vitórias militares obtidas por Assad em seu país –  revertendo o plano orquestrado pelo “Velho Tio Sam” e seus “vassalos europeus” –; e um “suposto” ataque químico do governo à população numa conjuntura em que o governo já estava retomando quase todos os territórios rebeldes. Somando-se a isso, tem-se, paralelo a essa “dança intervencionista” do Ocidente no conflito, o explícito auxílio da Rússia, em preservar o governo, com o fornecimento de armas, garantindo um parceiro estratégico da antiga URSS[4] no Oriente Médio. Desse modo, descascar essa fruta não está sendo fácil para ninguém pelo já conhecido emaranhado conflito social no Oriente Médio, somando-se aos interesses imperialistas externos da região.

“America no more”[6]

Se vivêssemos há décadas atrás, em um mundo não tão multipolar como o atual, provavelmente veríamos o desfecho desse conflito numa ação exclusiva do jovem Tio Sam, bombardeando e depondo o regime conforme os seus interesses, porém, “el mundo ha cambiado”[7]. Os Estados Unidos encontram-se ainda mergulhados numa crise econômica e endividados, perderam espaço internacional para outras potências regionais e seu poder global (ou hegemonia política) é cada vez mais questionado e deslegitimado por outras nações.

O Conselho de Segurança da ONU[8], incluindo países muitas vezes contrários à Washington, como China e Rússia, é um exemplo disso; servindo de mediação de conflitos regionais, sem a intervenção militar de uma única nação. E é por meio desse conselho, que o caso sírio tem se sustentado até agora, longe de uma investida nociva ocidental, por meio do peso político e militar da Rússia, e da China, em menor proporção. O presidente russo Vladmir Putin, admirável estrategista, vem conseguindo utilizar todos os seus instrumentos diplomáticos contrários ao presidente norte-americano Barack Obama, em sua “empreitada” de invasão militar, estando, mais uma vez, a hegemonia dos Estados Unidos em xeque nessa infrutífera conjuntura.[9]

[10]

Isolado, Barack Obama tentou, durante a reunião do G20, conquistar aliados para a intervenção militar na Síria. O máximo que conseguiu foi a condenação ao uso do gás sarin e a promessa de ação contra os responsáveis – desde que se saiba quem são eles. A verdade é que ninguém acreditou na versão estadunidense dos fatos. Os Estados Unidos perderam credibilidade diante da comunidade internacional depois da farsa do ataque ao World Trade Center e da denúncia falsa de armas de destruição em massa no Iraque. (ABRÃO, 2013, p. 3).

Compactuando com a perspectiva de Hobsbawm (2010, p. 157), o império norte-americano e seus objetivos já não são mais genuinamente aceitos, pois a coalizão consensual já não existe mais. A política atual dos EUA é, provavelmente, mais impopular e errática do que qualquer outra grande potência de todos os tempos. E em relação à Rússia, a maior potência opositora aos EUA, cabe salientar que “continua sendo o único país cujo arsenal nuclear representa um obstáculo ao poderio militar absolutos dos Estados Unidos”. (TODD, 2003, p. 76).

Estados Unidos: uma saída pela porta dos fundos

Assim, não é inteligente para os Estados Unidos – apesar da poderosa pressão do lobby sionista e das indústrias militares – entrar em um novo conflito armado, devido ao: momento histórico em que o país atravessa (crise econômica interna e rejeição da população norte-americana a uma nova guerra[11], vide Afeganistão e Iraque); forte oposição internacional[12] e não submissão dos países aos seus interesses e o provável confronto com outro grande gigante militar, capaz até de abater a “águia” em suas investidas militares.

Devido à incapacidade do governo norte-americano de encontrar respostas satisfatórias ao conflito sírio e a clara pressão de mais um descrédito internacional para o “mato sem saída” na qual Obama se enfiou, veio da Rússia uma proposta que permitiu uma saída honrosa dos EUA no conflito. Isto é, o Governo Sírio se comprometeu a entregar as suas armas nucleares sob a supervisão da ONU até que sejam eliminadas, afastando o risco de uma intervenção ocidental. Recebendo apoio da ONU, e demais nações, inclusive a Síria, o velho, mas birrento, Tio Sam, se sujeitou a essa resolução política ou “saída pela porta dos fundos”.[13]

Conclusão

Conforme uma visão mais atenta e perceptível ao processo histórico recente, percebe-se que mais uma vez um conflito regional, como o “abacaxi sírio”, desgastou o poder global norte-americano em seu processo de declínio hegemônico. O conflito sírio, como o caso norte-coreano e venezuelano, evidencia mais um episódio em que os EUA saem enfraquecidos e isolados, apesar de ser a nação mais poderosa do planeta.

Apesar de os rumos na Síria serem ainda imprevisíveis e do regime, conforme as leis internacionais, ser legítimo e soberano, não se pode dar o caso como findado, longe de um ataque ocidental. Seja como for até agora, é impossível deixar de destacar a vitória política da opinião pública internacional, da Rússia e do mundo como freios de uma ação imperialista.

Referências

ABRÃO, Baby Siqueira. Obama ousará atacar a Síria? In: Carta Maior, set. 2013. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=6266

HOBSBAWM, Eric J. Globalização, democracia e terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LORCA, Andrés Martínez. La derrota de Obama. In: Librered, set 2013. Disponível em: http://www.librered.net/?p=29170

MARTINS, Antônio. Xeque ao rei da guerra. Como uma gafe histórica ajudou a desarmar o ataque à Síria. O que o episódio revela sobre poder internacional no século 21? In: Outras Palavras, set. 2013. Disponível em: http://revistaforum.com.br/blog/2013/09/xeque-ao-rei-da-guerra/

TODD, Emanuel. Depois do império. Rio de Janeiro: Record, 2003.

Notas

[1] Alusão ao artigo anterior de minha autoria, “Da Primavera aos Dragões Egípcios: as causas da queda de Mohamed Morsi”. 19 de Julho. O Fato e a História.

[2] Segundo muitas estimativas, inclusive a da ONU, já se registrou mais de cem mil mortes.

[3] Capital Síria.

[4] União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1922-1991), sendo a Rússia a maior remanescente.

[5]Charge de Latuff sobre a disputa norte-americana e russa na Síria. Disponível em: http://latuffcartoons.files.wordpress.com/2013/09/obama-putin-syria.gif

[6] América não mais.

[7] O mundo mudou.

[8] Organização das Nações Unidas.

[9] Empreitada justificada no “suposto” (e misterioso) ataque químico do governo sírio à mais de mil pessoas, especialmente crianças indefesas.

[10] Foto registra os Presidentes Vladmir Putin, Barack Obama e demais nesse conflito diplomático acerca da Síria, na abertura do G20. Disponível em :            http://www.jornaldelondrina.com.br/midia/tn_620_600_vladimir_putin_abertura_g20_russia_siria.jpg

[11] “Nesta terça-feira (10/9), veio à luz uma nova e impactante sondagem sobre a opinião pública norte-americana. Comprovou a rejeição à guerra – seis de cada dez entrevistados opõem-se até mesmo aos ataques aéreos “limitados” a que se refere Obama. Indicou que, segundo 80%, os objetivos da guerra contra a Síria “não estão claros”. Mas revelou, também, um nítido desconforto da própria população com o papel imperial que os governantes querem preservar para os EUA. A ideia de que seu país deve exercer “liderança na resolução de conflitos externos” é rechaçada por 62% dos norte-americanos e apoiada por apenas 34%. A desaprovação é 19 pontos percentuais mais altos que à época da guerra contra o Iraque (43%), há dez anos”. (MARTINS, 2013, p. 3).

[12] De grupos políticos e civis da sociedade, que se colocam abertamente contrários a uma nova guerra.

[13] Obama e seus assessores, apesar de quererem satisfazer aos seus interesses geoestratégicos e aos seus lobbys, abraçaram a ideia, pela falta de apoio dos norte-americanos e até de muitos republicanos belicistas. Muitos dos antigos aliados estadunidenses, como Alemanha, Reino Unido, Itália, etc. também se recusaram a uma investida militar sem o aval da ONU, se satisfazendo o presidente dessa pressão de forças centrífugas.

 

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