Um pouco sobre a relação do Brasil com os istãos

09/10/2014 17:52

Marcos Belmonte

A atuação do Itamaraty na história das relações internacionais brasileiras é marcada por avanços e recuos, expansão ou retração – o que não significa a mesma coisa -. Desde o início do século XX podemos ver uma maior aproximação com os ingleses, e posterior afastamento, desses, em preferência da potência norte-americana nascente, esta que perdurou durante o século preponderantemente em virtude da própria condição de posterior superpotência por motivos razoáveis e/ou escusos até o início do século XXI. A era de Getúlio Vargas fora marcada por uma implícita simpatia pela Alemanha nazista, a Itália de Mussolini e, só preterida nos 45 do segundo tempo por pressão dos EUA. A PEI (política Externa Independente) de Jango aproximou o Brasil politicamente de Rússia, China, Cuba, o que se tornou um dos motivos para o golpe que o derrubou fortemente amparado por EUA depois de aprimorar suas táticas para derrubar governos contrários aos seus interesses quando em 1953 com Mohamed Mossadegh[1]. Os laços com a Europa se estreitaram. Com o decorrer da Guerra Fria o MRE (Ministério das Relações Exteriores) aproximou-se de África, Oriente Médio e Ásia – conforme a leva de revoluções acorriam, de maneira acentuada ou moderadamente -. Nos anos de 1990, após o desmembramento da URSS o leque ampliou-se e novos enlaces se fizeram, e, enfim, olhamos para a América Latina com mais atenção e surgira o MERCOSUL, ao mesmo tempo em que fora recusada a ALCA. Estruturou-se o BRIC – poucos anos após, os BRICS – e, a partir de 2003 a multipolaridade é a guia mestra das atuações do Itamaraty e, claramente, tenta-se desvincular de maneira sadia dos epicentros das crises de 2003 e 2008, União Europeia e EUA, concomitantemente, a postura/protagonismo no âmbito internacional tem-se tornado mais forte e consistente, bastando, para perceber isso, vermos o fortalecimento das relações sul-sul e a criação do NBD em 2014.

Esta breve retomada das relações exteriores brasileiras obviamente deve ter deixado algo passar porém a intenção desse artigo não é centrada nesse aspecto tão amplo para ser escrito numa única produção. A ideia é outra. As produções corelatas as relações internacionais falam bastante bem sobre as ligações brasileiras com os grandes atores e protagonistas dos determinados períodos históricos e, com justo motivo. Não estou afirmando que não haja trabalhos ressaltando outros estados, apenas que não são muitos os trabalhos. Em minha opinião humilde, todos os países deveriam ter triagem de livros – ou algumas coleções completas e detalhadas – sobre a história de todos os países existentes. Entendo que seria de extrema utilidade para o desenvolvimento de conhecimento sobre a cultura, política, economia e história, de irmãos com realidades tão heterogêneas e ajudaria para melhor compreensão e evitaria preconceitos inúteis e forjaria melhores cidadãos. Enfim, essa explicação breve é para entrar com uma simples contribuição para aproximarmos o Brasil de estados que não possuem um protagonismo acentuado agora, nem na história recente. Os chamados “istãos”.

Os “istãos” como atores sem maiores destaques no cenário  mundial?

Sabemos que estes estados surgiram do desmembramento da URSS devido sua fragilidade econômica e com o comando do patético Gorbachev, com a exceção do Afeganistão e “um pouco” da província do Azerbaijão, visto esse último, por breve período, ter sido uma República Popular Comunista quase anexada à URSS, mas que, por acordos entre Stálin e o chanceler iraniano Ahmad Qavam – o que posteriormente custou as vidas de alguns integrantes do Tudeh nas mãos da SAVAK – não vingou[2]. O que podemos dizer é que esses “istãos” oriundos do colapso assim como os novos países da Europa Oriental, montaram suas estruturas estatais baseadas fortemente – talvez inteiramente – na soviética. Assim como em todos esses países da periferia da antiga URSS, houve certo caos econômico e político junto às misturas de etnias que persistiu – talvez ainda – por algum tempo até o país se estabilizar. Tempos depois, pela própria lógica que se estruturou dentro da hegemonia dos Estados Unidos – uma incipiente multipolaridade como talvez a contradição do contexto -, os países da Ásia central aproximaram-se de Rússia, China e outros vizinhos, até ficarem como membros participantes e/ou observadores da promissora e poderosa Organização de Cooperação de Xangai.

Os “istão” se localizam no centro de um dos mais fortes grupos do mundo multipolar

Vindo dessa história de turbulência constante interna, fruto do desmembramento de 1992, era razoavelmente previsível que esses novos países passassem por períodos difíceis para a estruturação consistente e coesa para melhor estabelecimento de relações fortes com estados como a China e Rússia, visando uma integração da região e uma espécie de simbiose para resolução dos déficits oriundos dos anos de neoliberalismo. China e Rússia são estados pragmáticos nas suas relações com outros estados. A primeira, nos anos de Deng Xiaoping, manteve aberta para negociações com outros países se postando como neutra em possíveis contendas entre parceiros e, sem requisitar nenhuma espécie de protagonismo, ou seja, o que interessa para a China são os negócios da China; já a Rússia, entendo que tenha posições mais fortes – com relação ao cumprimento de tratados e/ou acordos entre países, vide os acordos de 1997 com a OTAN, onde, a mesma, tenciona não cumprir -, e de protagonismo nas relações com seus parceiros, visto sua própria história dentro do século XX – como seu frequente enfrentamento com os EUA e os euroburocratas da UE -. Mas o que se quer apontar é que os “istãos” precisavam desses parceiros para a estruturação mais consistente de suas políticas internas através de relações próximas que possibilitassem o desenvolvimento simbiótico. O fato é que eles evoluíram e é útil observar certos números[3].       

Nota-se que o Cazaquistão tem a maior territorialidade ao ponto que o Azerbaijão tem a menor; o Uzbequistão tem a maior população e o Kirquistão e o Turcomenistão tem as menores; todos que conseguimos tem taxas de alfabetização altíssimas; Afeganistão e Turcomenistão tem crescimentos reais de 2 dígitos, e os outros – com exceção de Kirquistão com 0,9% - tem crescimento chinês; mas todos tem PIB nominal muito baixos; Tadjistão tem a maior parte de seu PIB ligado à agricultura ao ponto que Cazaquistão tem a menor; no setor de industria, Azerbaijão tem a maior ao ponto que Kirquistão tem a menor e; a parcela relacionada ao setor de serviços, Uzbequistão tem a maior e Azerbaijão tem a menor. Notamos números de primeiro mundo, como os da taxa de alfabetização, porém, números muito fracos quando vemos o PIB nominal. Um estado com relações mais fortes com EUA e UE – epicentros das crises do século XXI -, com esses PIBs estariam mais sujeitos as lufadas das crises, mas, os “istãos” estão longe dessas ligações e mais próximas da Organização de Shangai, da Rússia e da China, ou seja, aparentemente estão “protegidos” e com negócios coesos e seguros, como as pipelines – estabelecidas e projetos futuros.

As pipelines são investimentos seguros para o desenvolvimento dos “istãos

Trazendo os “istãos” para perto do Brasil, podemos ter uma noção das nossas ligações político-econômicas com esses novos estados. Na série histórica de exportações/importações desde 2003 até 2013 com o Tadjiquistão, nós sempre exportamos mais do que importamos; os principais produtos que exportamos são carnes de galos/galinhas não cortadas em pedaços congelados e os que mais importamos são reveladores a base de negro de fumo para reprodução de documentos. Na série histórica com o Uzbequistão quase sempre tivemos uma balança positiva, com exceção de 2000 e 2001. Os produtos que mais exportamos para lá são parte e assessórios para tratores e veículos automóveis e os que mais importamos são fio algodão ≥ 80%, cru, simpl. Fibra pent. 192.3D≤T<232.56D. Na série histórica com o Azerbaijão sempre tivemos uma balança positiva. Os produtos que mais exportamos são pedaços e miudezas comestíveis de galos e galinhas congelados e, o que mais importamos são prepars. Com trigliceridios dos ácidos caprilico e caprico[4]. Não cabe trazermos todos os produtos mais comercializados com os “istãos”, mas, o que pode-se notar, é que possuímos ligações com esses estados e, de alguma maneira, esses produtos acabam por nos beneficiar de alguma forma, sendo que se, essas ligações fossem rompidas, notaríamos em maior ou menor proporção, ou seja, os “istãos” estão bem perto de nós, por mais que nos sejam desconhecidos.

Existem muitos poucos países com os quais não detemos algum tipo de vínculo econômico ou político e, penso que isso seja o caso de quase todas as nações do planeta. Lógico que durante a Segunda Guerra e posteriormente com a Guerra Fria e do desmembramento da URSS essas relações entre estados nacionais sofreram alterações e, no início do século XXI estão se normalizando e estabilizando rumo à uma completa interação entre nações, mas, que fique muito claro, não nos moldes neoliberais sonhados nos anos de neoliberalismo selvagem com suas ALCAs, NAFTAs e com o sonho maligno do TAFTA. A história recente afetara consistentemente as nações no pós 2008 e ainda afetará por muito tempo. A hegemonia em declínio aproveita as menores margens para fomentar conflitos para desestabilizar estados aparentemente sem grande protagonismo aproveitando-se de suas estruturas internas convulsionarias – como com a Ucrânia, que estruturou-se enquanto estado similarmente aos “istãos”, inclusive com similaridades de conflitos étnicos – e que podem servir para gerar futuras rusgas para mantimento de seus interesses. Não é de se duvidar. Sigam o caminho energético e verão similaridades nos teatros, apesar de as cenas serem distintas. De qualquer maneira, assim como a Ucrânia está bem próximo de nós, os “istãos também.

Fontes

KINZER, Stephen. Todos os Homens do xá: O golpe norte-americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio. Tradução: Pedro Jorgensen Jr - 2° Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010

Indicadores economicos do Cazaquistão UzbequistãoArzerbaijãoAfeganistão;  TurcomenistãoTadjiquistão e Quirquiztão

Portal do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior www.mdic.gov.br

Notas

[1] Revolução iraniana: um pouco do que nos escondem. http://ofatoeahistoria.webnode.com/news/revolu%c3%a7%c3%a3o-iraniana-um-pouco-sobre-o-que-nos-vendem-e-o-que-nos-escondem/

[2] (...) em 1946, Stálin, citando vagas ameaças à segurança soviética, anunciou que o Exército Vermelho permaneceria na província do Arzebaijão, no norte do Irã. Depois ordenou que as tropas soviéticas impedissem a entrada de soldados iranianos para reestabelecer a ordem na província quando a seção total do Tudeh proclamou a República Popular do Arzebaijão. Logo surgiu uma milícia local, abastecida de armas por Moscou. Durante certo tempo, pareceu que o Arzebaijão se separaria por completo para juntar-se à União Soviética ou, quem sabe, servir como plataforma de lançamento de uma ação soviética contra a Turquia. Mas os azeris, com o governo do xá Reza ainda na memória, rebelaram-se contra a perspectiva de outra ditadura. O primeiro-ministro Ahmad Qavam, um estadista extraordinariamente talentoso, viajou a Moscou e conseguiu convencer Stálin a recuar quando o confronto parecia iminente. Ele retirou suas tropas quando os gendarmes do general Schwarzkopf entraram em Tabriz, a capital provincial. A República Popular do Arzebaijão converteu-se em história. Exultantes, os azeris comemoraram executando todos os líderes do Tudeh que puderam encontrar. (KINZER, 2010, p.84) – Óbvio que esse caso estava dentro de outro contexto turbulento e não cabe a esse artigo dissertar sobre.

[3] Todos os números – com exceção de alguns pontuais – são referentes ao ano de 2013 e foram produzidos pelo Ministério das Relações Exteriores MRE, pelo Departamento de Promoção Comercial e Investimentos DPR e pela Divisão de Inteligência Comercial DIC.

[4] Dados disponíveis no Portal do Ministério do Desenvolvimento, Industria e Comércio Exterior www.mdic.gov.br

 

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