Um começo silencioso para Porto Alegre

02/04/2013 12:31

Davenir Viganon

Ontem em Porto Alegre 10 mil pessoas se reuniram para protestar em frente à prefeitura contra o aumento das passagens de 2,85 para 3,05. Foi a maior manifestação desde que os protestos começaram e ganharam uma adesão cada vez maior da população.

Tive o privilégio de estar entre esses 10 mil (e não 2 mil como a midia tradicional tem propagado) , e pouco depois das 18 horas, já era possível ver que se aglomerava um numero maior que de quarta-feira e ainda mais grupos estavam se agregando.

Só 2 mil?

Haviam grupos organizados das mais diferentes correntes, se aglomerando frente à prefeitura. Não havia lideres, haviam grupos de partidos políticos, mas eram apenas mais alguns dos muitos em meio à multidão. O helicóptero, os cavalos da policia e à tarde de folga ganha pelos funcionários da prefeitura indicam que Fortunati sabia que o protesto iria ser maior.

Depois da concentração na frente da prefeitura, o protesto marchou pela Julio de Castilhos, onde circulou o terminal Parobé depois seguiu por cima do viaduto da Conceição onde atravessou o túnel e desceu a Borges de Medeiros, passando pela José do patrocínio se concentrando no largo Zumbi dos Palmares. Durante o trajeto a manifestação, foi possível notar o apoio de vários populares. O manifesto foi seguido de perto por um pequeno destacamento do Batalhão de Choque, e pelos não menos perigosos repórteres dos veículos tradicionais, procurando depoimentos com os quais possam manipular.

A não-noticia[1] dos meios de comunicação, principalmente da RBS, já eram esperados. Discorriam eles, no site da Zero Hora, procurando criminalizar, com os olhos de quem tem medo de que ordem fosse abalada, e temem com razão. Tiveram de recorrer a lembrança de  velhas noticias, dos vidros quebrados, da tinta na camisa da semana passada. Os chacais da mídia ficaram salivando e tiveram de voltar pra casa de mãos abanando.

E a voz sempre presente do governo Fortunati se repete, através de Busatto, em seu discurso pseudo-democrático. Na noticia da Zero Hora de ontem mesmo dizia.

“Os ânimos para o protesto de hoje estão exaltados. Após ser atingido com tinta vermelha na última quarta-feira, Busatto diz que considera "grave" o que ocorreu:

— Não há como proceder com diálogo, se a atitude for de enfrentamento. Teremos que ter outro tipo de reação.

O secretário acrescentou que há espaço para mudar esse cenário, mas com uma discussão "sobre propostas consistentes e técnicas” [2]:[Grifo nosso]

Essa democracia de estar “aberta ao diálogo” só é valida se for nos termos técnicos, se for falada na linguagem da que Busatto propõe. Esse discurso político e a cobertura dos protestos não apenas os criminalizam, mas buscam desqualificá-los como se não fossem de fato democráticos e sim “baderna”.

A falta de lideres é o maior trunfo dos manifestos, pois não há quem aliciar, a quem negociar numa mesa, não há uma cabeça a ser cortada para que se disperse a multidão, tendo em vista que as bombas de efeito moral por hora falharam. Assim as representações “oficiais” dos manifestantes se diluem na propria irrelevancia e a vontade popular cresce cada vez mais, pois não sobrou quem queira seguir uma única pessoa ou grupo.

A midia usa do silêncio, os manifestantes tem o seu. O mesmo silencio ensurdecedor que Zizek se refere quando fala de uma tentativa de "Clinch" politico, que aqui se manifesta nas palavras de Busatto "sobre propostas consistentes e técnicas”.

A reivindicação dos manifestantes é de que a passagem caia para 2,60 mas diante das recusas da prefeitura mais a adesão popular ao protesto fica evidente que não se trata apenas de um numero, - uma proposta bastante técnica – e que estamos saindo de um torpor, que em seu significado mais profundo não se limita um simples reajuste na passagem.

Que quinta-feira seja maior.

[2] http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/transito/noticia/2013/04/mais-um-dia-de-protestos-contra-valor-da-passagem-de-onibus-em-porto-alegre-4092108.html

[3] http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/2011/11/18/o-violento-silencio-de-um-novo-comeco/

 

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