Superando o Senso Comum

17/12/2013 12:13

Lucas Fier

O senso comum compreende noções que, por sua simploriedade, estão ao alcance de todos. Não reflete necessariamente uma mentira, mas nenhuma de suas pressuposições são postas à prova: são lugares comuns de quem prefere o "caminho fácil". A caracterização do senso comum abaixo não é uma teorização nem uma redefinição do termo; apenas descrevo suas principais vicissitudes. É uma visão de mundo ingênua e imediatista, e está presente em todas os locais, classes sociais, em pessoas de todos os cargos e funções, mesmo nos doutores nas cátedras das universidades, em pessoas que sabem e conhecem muitos fatos, muitas informações. Existe em diversas modalidades, das mais tímidas às mais irreverentes e, assim, é plural. Minha descrição é dos elemento em comum que o caracteriza em todas as visões de mundo.

É uma visão de mundo que se pretende autossuficiente: apresenta explicações para tudo. Possui fundamentos tão "sólidos" que as conclusões são concluídas de antemão: as certezas são absolutas, e dispensam provas ou demonstrações. Elas são "óbvias", "evidentes", e muitas vezes isso é tudo que elas têm. "Por que você acha isso?" - "Porque é óbvio!".

O senso comum tem plenas convicções porque "pensa" com os sentimentos. A pessoa "sabe", porque ela "sente" que isso é verdade. A verdade, portanto, deve corresponder aos seus gostos pessoais. Se não corresponderem, são os fatos é que estão equivocados. É claro que às vezes esta vontade vem acompanhado de discursos supostamente lógicos que a justifica. Mas estes discursos jamais chegam às últimas consequências. Se chegassem, encontrariam lacunas intransponíveis.

Isso acontece porque o senso comum é um mosaico de informações soltas, que se configuram num arranjo improvisado. Elementos da religião, da ciência, da filosofia, das expressões culturais em geral, todas orbitam em torno de determinações "decididas" a priori, que vem do "coração", que tem uma relação íntima com o indivíduo, seja porque lhe foi ensinado desde muito cedo, ou porque lhe consola ou preenche um vazio espiritual, ou porque não conheça outras possibilidades.

Esta visão de mundo se diferencia, de pessoa pra pessoa, pelo que ela não sabe. É na ignorância das causas e dos fenômenos que se arranja uma explicação, baseado na experiência pessoal (eminentemente empírica), mais ou menos coerente. As lacunas são muito importantes, e é importante que não se enxerguem-nas, e não se fale sobre elas. Não se pode, portanto, ir a fundo nas discussões, nas suas consequências últimas. Isso gera uma cegueira mais ou menos voluntária espetacular.

Isso porque o senso comum se apega a imediaticidade. Ele não gosta da teorização complexa, da qual não vê utilidade. O senso comum se considera "prático", e por isso não vai a fundo nas coisas. Assim, só vê aparências, e acredita nelas.

O que fazer? Em oposição ao senso comum existe o senso crítico. O senso crítico não é acreditar nisso ou naquilo, mas é a capacidade de questionar isso ou aquilo. Assim, a primeira postura que deve ser tomada para se superar o senso comum  é o reconhecimento de nossa capacidade limitada de compreensão, ou, como disse Sócrates, "Só sei que nada sei". Não se trata de uma falsa humildade, mas da convicção de que podemos estar enganados. Não importa o que você acredita, você pode estar errado. Não importa sua idade, não importa o que você lê. Esta é a única certeza que cabe aquele que pretende ter senso crítico.

O segundo passo é o da curiosidade. Não estar conformado com a informação já adquirida, buscar mais, sempre mais, compreendendo que o aprendizado não tem limite, e estarmos abertos a rever aquilo que já tínhamos como verdade. Existem também algumas dicas, que são fruto do trabalho histórico da filosofia:

A verdade (entendida como a correspondência entre a ideia e a realidade) não é imediata, mas mediata (mediada). Isso significa que quando nos deparamos com determinado fenômeno, não podemos, de imediato, compreendê-lo. Pois tiraremos falsas conclusões: veremos apenas o fenômeno em sua aparência. Apenas a pesquisa lenta e criteriosa é capaz de levarmos à sua essência.

Um desses critérios é a lógica. E a lógica não é tão fácil quanto parece, ela tem critérios um tanto rígidos, que precisam ser observados. Não se trata de submeter tudo à lógica, o ser humano não se resume nisso. Mas a lógica precisa ser observada. Pois os sentidos nos enganam! As vezes podemos "sentir" que alguma coisa é verdade, quando estamos apenas interpretando aquela sensação de maneira equivocada. E é muito natural que quando nós acreditamos em algo, nós "sentirmos" que aquilo é verdade, especialmente quando estamos dentro de um coletivo que acredita na mesma coisa. Estar ao lado de pessoas que pensam igual é como encontrar "confirmação" de que estávamos certos. As coisas não funcionam assim. A realidade concreta não está preocupado com os seus sentimentos, seu senso de moral, sua ideologia. A realidade simplesmente é, independente do que pensamos sobre ela (mesmo que certas instâncias da realidade tenham sido criadas por nós, e que podemos, até certo ponto, transformá-las).

Se quisermos ter senso crítico, precisamos ser honestos conosco mesmo, ir a fundo em todas as questões. Não querer "acreditar" em alguma coisa, mas querer saber. É preciso estar em constante renovação, disposto a derrubar todos os preconceitos. Não é fácil. Muita gente até pensa estar fazendo isso, mas não vai além do senso comum, pois mesmo o senso comum já incorporou "trechos" deste discurso. Assim uma pessoa pode se considerar super crítica e repetir tudo que eu escrevi aqui mas não ser capaz de refletir a fundo ou vencer seus preconceitos. Nossa sociedade não nos ensinou o devido valor da dúvida. As pessoas dão valor demais às respostas, e de menos às dúvidas, ao questionamento.

Nós poderíamos substituir em todo o texto a expressão "senso comum" por "ideologia" (em sentido negativo). Isso seria mais correto. Mas o senso comum é como que uma ideologia dominante, e que se passa por neutra, por "normal", dá a ilusão de ausência de ideologia. Nada mais ideológico que a ilusão da neutralidade. O mais importante, que quero deixar registrado é: quando nos deparamos com uma opinião diferente, não recusemos esta opinião, nem pensemos, de antemão, que já sabemos tudo que aquela pessoa pensa. Tenhamos curiosidade para saber até onde vai aquela opinião, o que ela poderá nos acrescentar. Leve isso para sua vida.

Publicado Originalmente no Blog Esperança Criticahttp://esperancacritica.blogspot.com.br/2012/12/superando-o-senso-comum.html

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