Sob o signo do cabaço

04/09/2012 08:14

Daniel Baptista

Eu nunca li o romance Gabriela de Jorge Amado, mas vejo a novela/minissérie que passa na Rede Globo, só para salientar, as produções filmográficas e televisivas são de uma pobreza franciscana comparadas as obras literárias. Certa vez eu vi o filme sobre a vida de Malcon “X” com o Denzel Washington no papel principal, achei o filme um sucesso total. Anos depois caiu em minhas mãos a biografia de sua vida e passei achar o filme bem ruinzinho. O mesmo aconteceu quando eu li o livro de Josué Guimarães chamado Enquanto a noite não chega. Anos depois eu vi um conto televisivo baseado no livro com a expectativa de ver a reprodução do livro, pois gostei muito dele. Fiquei com vergonha pelo Josué. Existe uma gama de exemplos assim, produções televisivas e filmográficas inspiradas na literatura, mas vou me restringir a esses dois exemplos e retomar a proposta para debatermos.

Como disse antes não li a obra, mas a novela expõe aspectos que nos sugerem que a obra literária orbita no eixo temático repressão sexual, esta sofrida pelas mulheres claro, e entre outros aspectos culturais que ficam em segundo plano como a manutenção da sociedade patriarcal, a exploração da elite baiana da classe pobre, o voto a cabresto e entre outros que ajudam a compor a riqueza da obra. Talvez pelo forte apelo sexual e cenas picantes (embora eu não goste desse termo, pois isso só estigmatiza o comportamento sexual) a novela seja um sucesso e alguns aspectos culturais passam despercebidos e indiretamente nós os reproduzimos em nosso dia a dia. Um deles é a manutenção do cabaço. Este pequeno tecido localizado no interior da vagina é o que define o lugar de uma mulher na sociedade, e isso não é apenas na época da novela, isso existe até hoje! Como diz um colega meu “existe mina pra casar e mina pra correria”.

O cabaço (está bem!!! O hímen) e a sua preservação é importante na história da cultura ocidental. Ele era a garantia do filho varão do senhor feudal, a prova incondicional que seus domínios seguiram em sua família, os outros filhos são os “filhos da mãe”. O rompimento dele está no imaginário masculino de adentrar em um lugar nunca antes visitado, penetrar um mundo novo e exclusivo, deixar a sua marca no território. É conquista! Cheguei primeiro, venci! É do comportamento masculino conquistar e desbravar! Ou pelo menos nos fomos criados para agir assim...

Mulher boa para casar tem que ser virgem, religiosa, recatada, uma dama... Caso não atenda a esses padrões vai acabar no Bataclan, vira quenga, mal vista e excluída da sociedade, uma desonra para a família. Perdeu a honra e será para sempre usada. É uma perdida. É o que aconteceu com a personagem Lindinalva, não vou cometer o engodo de dizer que isso acontece nos dias de hoje, se não fosse por isso não teríamos tantas mães adolescentes, mas esse não é o problema, o problema não é a prática sexual e sim sua falta de orientação no que diz respeito a gravidez na adolescência.

A história do sexo é cheia de avanços e recuos, antes tinhamos que ser cabações até a hora do casamento, criando espaço para uma sociedade mesquinha e profundamente adoecida pelas suas contradições (vejam Nelson Rodrigues), vieram os anos 60, os Hippies, a pílula e o libera geral, vieram os 80, a AIDS e o mundo voltou a ser conservador, hoje além de gozar somos obrigados a dar prazer e termos um desempenho de atores de filmes pornográficos. Focault escreveu em sua brilhante trilogia da história do sexo que o ato sexual – entendam por mercantilização - é o instrumento de melhor cooptação e controle que existe. Resumindo a opressão sexual se manifesta de diversas maneiras.

Mas dentro deste quadro de repressão sexual a mulher sempre esteve abaixo do homem, com o seu desejo sexual ou a falta dele sempre submissa e dependente da vontade masculina e a mais notória entre todas (certamente uma herança religiosa que a sociedade legitimou) é a mulher que é virgem. Como disse anteriormente a importância da mulher casta na idade média é uma adaptação da interpretação bíblica, já que o pensamento medieval foi construído na retórica cristã, a mulher para chegar mais próximo possível da santidade de Maria - uma mulher que deu a luz ainda intocada - deveria continuar nessa condição, já que nenhuma mulher será ou é Maria, o adiamento da relação sexual deveria ser adiado ao máximo, melhor dizendo, só deve ser realizada com a união matrimonial abençoada por deus.

E essa condição estende-se até os dias de hoje, retratado na novelinha global das 23 horas. Ora podemos pensar assim: mas a novela é do século XX da década de 1920, tem quase cem anos, o mundo mudou! Mas o que é cem anos para a História? E digo mais: quanto dessa repressão sexual que é a manutenção do cabaço é prejudicial para as gurias, fazendo-as não conhecer seus corpos ou cometendo equívocos e acrescentando indiretamente claro, mais ingredientes para o caldo da ignorância e legitimando velhos preconceitos? E digo mais: antes de ser um simples ato de romper com um lacre, e pensarem que estou levantando a bandeira de “deêm a vontade mulheres”, “viva a putaria”, convido - os a refletir comigo: a mulher não tem o direito de decidir sobre o seu corpo sem que velhas demagogias de plantão exerça influência na suas atitudes? Não seria esse comportamento mais uma maneira de colocar a mulher abaixo do homem e a sua vontade, amortizando assim mais um elemento questionador de nossas contradições? O quanto político é um cabaço hoje? Pensaremos juntos então...    

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