Revolução Iraniana - Um pouco sobre o que nos vendem e o que nos escondem

20/03/2014 08:13

Marcos Belmonte

“Eles podiam ser levados a aceitar as mais flagrantes profanações da realidade e não estavam suficientemente interessados nos acontecimentos públicos para repararem no que estava acontecendo”

“Se o partido pudesse meter suas mãos no passado e dizer que este ou aquele evento nunca aconteceu – isso seria evidentemente mais aterrorizador que mera tortura ou morte”

– George Orwell - 1984

A realidade da política internacional impõe-se preponderantemente numa relação ocidente – oriente. Houve um momento onde esse “confronto” estabeleceu-se de forma horizontal (Leste URSS x oeste EUA) e, após a Conferência de Bandung em 1955, vertical (norte “colonizadores” x sul “colonizados”). Porém, hoje, a configuração apresenta-se como oriente-ocidente. Desde as épocas das grandes navegações, que resultaram em eventos como a invasão do Brasil, uma espécie de percepção do outro – entenda-se o outro como o oriental – que rebaixava esse, ao ponto de o ocidental europeu impor-se nos âmbitos da cultura, política, economia e etc., e espoliar esse novo rico território do planeta. A época das cruzadas construiu a luta Cristiana – europeia – contra o islamismo – oriental -. O ocidente tem diversas histórias que apontam uma espécie de herói – Europa civilizada – numa aventura altruísta e/ou de combate contra um “inimigo” desconhecido – Ásia milenar -. Com o passar da história, essas imposições permaneceriam com umas das bases de uma exploração econômica potencialmente amparada em conceitos culturais de europeus e ocidentais – assimilados pela superpotência dos EUA - contra asiáticos orientais. A “liberdade democrática cristã” é tida como o melhor caminho para o mundo assolado pela prisão ditatorial mulçumana. São faces dessa relação: liberdade x ditadura; democracia x antidemocracia; mini saias x burcas; roubos, punidos com dois anos de prisão x roubos punidos com enforcamento e/ou perda das mãos; civilidade x barbárie; cristianismo x islamismo... Ocidente x oriente. Toda essa estrutura chega aos nossos dias com aspectos fortemente arraigados na Guerra Fria: capitalismo x comunismo. O ocidente é civilizado, capitalista e cristão; o oriente é bárbaro, comunista e mulçumano.

O islã oriental sempre visto como uma horda de bárbaros.

Toda essa mistura cultural, política, econômica e etc., formava o alicerce de uma exploração secular do ocidente sobre o oriente. Como uma reação a essa situação, houve reações dos povos orientais – 1947 com a Índia e 1949 com a Indonésia – onde, uma, foi de um impacto definitivo que alteraria as relações leste-oeste. Em 1953 é eleito para o cargo de primeiro-ministro do Irã Muhamad Mussadig – Mohamed Mossadegh – que, a partir de então, passava a reger de forma “democrática” a nação iraniana em lugar da monarquia dos xás, que tinha como atual regente Reza Pahlavi. A estrutura de governo iraniana é baseada no parlamento – majlis – e no exército. O primeiro-ministro era o líder do parlamento, o xá era uma espécie de “rei” do exército. A dinastia dos xás dos século XX tinha vínculos com o ocidente. Tratava-se de uma elite que beneficiava-se de uma relação de submissão e acordos econômicos e de extraterritorialidade primeiramente com a Grã-Bretanha. A terra da rainha tinha monopólio sobre o petróleo iraniano. O povo estava na mais profunda miséria, enquanto isso, a rainha era abastecida a preço de banana pelo ouro negro iraniano e o xá pavoneava-se com indumentárias anacrônicas de péssimo gosto e tronos de ouro e com sua mulher banhando-se em leite. Concomitantemente, o povo passava fome. A província sudeste do Irã, Abadan, era um típico truste que dava todo o conforto imaginável para os britânicos e proibia iranianos até de beber água. Um personagem revoltou-se com semelhante exploração. Esse fora Mossadegh. Ele nacionalizou o petróleo e a companhia inglesa, a AIOC – Anglo Iranian Oil Company – e devolveu a riqueza do povo iraniano para o Irã. O povo o apoiava. O xá estava com medo. A Inglaterra irritada.

Em 1950, a descolonização asiática estava completa, a não ser pela Indochina. Enquanto isso, a região do islã ocidental, da Pérsia (Irã) ao Marrocos, era transformada por uma série de movimentos populares, golpes revolucionários e insurreições, começando com a nacionalização das empresas de petróleo ocidentais do Irã (1951) e a guinada daquele país para o populismo, sob o comando de Muhammad Mussadiq (1880-1967), apoiado pelo então poderoso Partido Tudeh (comunista). (previsivelmente, os partidos comunistas adquiriram alguma influência no Oriente Médio após a grande vitória soviética). (HOBSBAWM, 1995, p.217)

Mohamed Mossadegh

Mas a situação estava num entrave internacional. A Inglaterra impôs um embargo à todas as nações para não negociarem diretamente com os iranianos a compra de petróleo. O Irã tinha o seu petróleo de volta, mas não tinha mercado. A contenda chegara ao Conselho de Segurança da ONU. O então presidente dos EUA, Henry Truman, tinha certa simpatia pela causa de Mossadegh, contudo, ele não poderia apoiá-lo devido a aliança recém-formada da OTAN, onde, seu principal aliada era a Inglaterra. A simpatia de Truman não era de forma alguma gratuita. O capitalismo proposto pelos EUA necessitava de mercados livres para sua expansão, e, a situação colonial imposta pela Inglaterra ao Irã travava esse livre movimento, mas a proximidade da URSS do país de Mossadegh, a neurose dos irmãos Dulles e o veneno inglês fez com que os EUA, através de Kremit Roosevelt – sobrinho do ex-presidente americano -, deflagrasse a operação AJAX que culminou no golpe de estado que derrubou o primeiro-ministro e instaurou novamente ao poder o xá Reza Pahlavi. As “posses” inglesas foram reestabelecidas – e boa parte dela dividida com os EUA – e estruturou-se um regime fortemente ditatorial resguardado, internamente, pela assassina SAVAK e, externamente, pelos EUA. O povo iraniano novamente sofria com o ocidente. A imprensa do tio Sam se posicionava.

A ameaça do nacionalismo independente levou ao golpe da CIA, que restaurou o xá do Irã em 1953, depondo o governo parlamentar conservador de Mossadeg. Atitudes implícitas algumas vezes alcançam o publico em geral. Desta fora, depois da restauração do xá e da tomada por parte das companhias norte-americanas de quarenta por cento das concessões petrolíferas britânicas, o New York Times comentou em editorial que isso era “de fato boas-novas”, ainda que custosamente para “todos os envolvidos” – iranianos nas câmaras de tortura do xá, por exemplo. “O caso ainda pode se provar de valor, se lições forem aprendidas”, observam os editores. A principal lição é pura e simples: Os países em desenvolvimento com grandes recursos agora têm uma lição objetiva sobre o pesado custo que deve ser pago por qualquer de seus membros que enlouqueça com o nacionalismo fanático. Talvez seja demais esperar que a experiência do Irã evite o surgimento de Mossadeghs em outros países, mas essa experiência pode, pelo menos, fortalecer as mãos de líderes mais razoáveis e de visão mais ampla, Que têm uma melhor compreensão de nossas prioridades. Como é a norma, a cobertura da mídia manteve as diretrizes políticas governamentais com precisão. Mossadegh tornou-se um diabo quando os Estados Unidos determinaram sua derrubada. À medida que o regime de terror tomava o comando depois do golpe, o New York Times o elogiava por sua “campanha altamente bem-sucedida contra os elementos subversivos” e seu “longo registro de sucessos na derrota da subversão sem supressão da democracia”, mencionando coparticular prazer da supressão do “partido Tudeh pró-soviético”, antes uma “ameaça real” mas considerado agora como tendo sido completamente liquidado”, e dos “nacionalistas extremistas” que eram tão subversivos quanto os comunistas – todos liquidados sem supressão da democracia”. (CHOMSKY, 1996, p. 242-243 grifo nosso)

O xá Reza Pahlavi sua esposa

O xá Reza Pahlavi tinha o plano de ocidentalizar o Irã. Tornar o Irã um país “moderno” ocidental. Os grupos religiosos fortemente apegados à tradição xiita mulçumana sofriam tremendas repressões. Seus costumes, como as vestimentas das mulheres, estavam sendo preteridos aos trajes tipicamente ocidentais. Cinemas pornográficos dominavam quase que metade das exibições do país; agroexportadores estavam ficando ricos – apesar de o Irã ter somente 10% de suas terras agricultáveis -; a burguesia ligada ao xá estava enriquecendo e etc. Enquanto isso, o povo iraniano passava fome. Personalidades que poderiam levantar as massas contra o regime fantoche do xá era exiladas, tais como Mossadegh e Khomeini. Assim, durante 25 anos, a ditadura do xá, protegida pelos EUA, impusera-se ao Irã e ao seu povo, um regime de fome e desigualdade aguda e negação abrupta de seus costumes.

O mais exaltado desses críticos chamava-se Ruhollah Khomeini. Nascido em 1902, Khomeini fizera seu nome em meio a comunidade religiosa do Irã redigindo e publicando muitos panfletos contra a liderança secular iraniana, incluindo o pai do xá, Reza. Então, em 1961, ele passou a atacar o xá diretamente, censurando sua política pró-ocidente – especificamente as que concediam direitos civis às mulheres e aos não mulçumanos – como sendo antíteses do verdadeiro espírito do Islã. (MENDEZ, 2012, p. 19)

A situação chegara ao ponto da ruptura. O governo Carter fora marcado pelos seus planos dos SALT e pelas suas políticas de direitos humanos – muito disso pelas convulsões internas lideradas por Martin Luther King e Malcon X e pelos diversos movimentos antiguerras, que tinham como exemplo recente a famigerada guerra do Vietnã – que por sua vez, foram impulsionados pela conjuntura desfavorável à intervenções militares mais agudas. Dentro do Irã, a insatisfação chegara ao ponto da reação definitiva que seria a cereja do bolo no asco do ocidente – EUA – contra o oriente – Irã -. Após um encontro entre Carter e Reza Pahlavi, que tinha o intuito de resolver a situação convulsionaria do país do xá, o povo iraniano associou, corretamente, os EUA com o regime assassino e subvertido de Reza Pahlavi. As reações vinham de todos os cantos do Irã. O país estava em revolução. Os grupos marxistas se uniram aos comunistas do Tudeh que se uniram aos setores religiosos que se uniram aos grupos progressistas que se uniram ao povo do Irã e no dia 11 de fevereiro de 1979, derrubaram o regime ditatorial do xá Reza Pahlavi, que fugira para os Estados Unidos num Boeing lotado de ouro. Com o decorrer dos meses e anos, os grupos religiosos mais radicais acabaram por assumir o controle do estado iraniano através de sua Guarda Revolucionária, e grupos, como os marxistas e comunistas do Tudeh, acabaram perdendo força ao ponto de isolar-se, quando não, exilar-se.

O aiatolá Khomeini. Símbolo do mal para os EUA

Essa situação revolucionária não foi o fim nem o início do episódio. As frentes de libertações nacionais ocorridas na índia e Indonésia na década de 1940 impulsionaram a eleição de Mossadegh em 1953 e a consequente nacionalização da AIOC gerou a primeira crise do petróleo no mundo. Dois anos depois viria a Conferência de Bandung que reuniria em torno de vinte e nove países que viviam, ou viveram, numa relação de colonialismo – ou neocoloniaslismo – com o ocidente e/ou norte do planeta. Nesse período é que se formam dois conceitos: o da guerra norte-sul e o de Terceiro Mundo, forjado pelo demógrafo francês Alfred Sauvy em 1952. Essa Conferência buscava a independência dos países afro-asiáticos dos colonizadores ocidentais e nortista do planeta e outra opção de posição internacional que não a bipolaridade da Guerra Fria. O movimento dos países não-alinhados, ou, os neutros. Esse era um cenário temerário para o ocidente capitalista. Países que antes eram submetidos à sua economia, política e culturalmente secundários, estavam, agora, em processo de independência e/ou autonomia nacionais. Movimentos como esses geraram a segunda crise do petróleo com a nacionalização do Canal de Suez com Nasser. A situação de Israel gerou a terceira crise com a Guerra dos Seis Dias e a quarta com a de Yon-Kippur. A Revolução do Irã e de Khomeini foi a quinta crise, mas foi o suficiente para a era Reagan forjar um ódio contra o Terceiro Mundo, oriental e mulçumano. Os países ocidentais, democráticos, cristãos e civilizados eram assolados pela insolência de países orientais, bárbaros, ditatoriais e mulçumanos, detentores, então, do combustível do mundo, o petróleo. É isso que representa Khomeini, o Irã e o islamismo para o ocidente, em especial, ao tio Sam.

Todo esse processo teve seu agravante com a crise dos reféns na embaixada norte-americana em Teerã. O governo iraniano queria que o Reza Pahlavi, exilado nos Estados Unidos, fosse entregue ao seu povo para ser julgado por todos os seus crimes cometidos com a conivência dos EUA. Jimmy Carter foi taxativo ao afirmar que não entregaria o xá ao Irã revolucionário. Ele não se preocupou com as dezenas de reféns americanos. Isso nos leva a imaginar os segredos que Reza Pahlavi detinha para ser tão altamente valorizado. Não era para proteger um ser humano de ser julgado por uma população furiosa. Era mais que isso, mas nunca saberemos, por enquanto. O filme Argo do diretor e ator Ben Affleck fala de um episódio concomitante à esse: o dos seis refugiados na embaixada do Canadá. Diversos filmes produzidos nos trinta anos posteriores mostram mulçumanos homicidas, torturadores, suicidas e assassinos querendo destruir o ocidente, mas escondem sua gigantesca participação na fornalha que forjou esses indivíduos e sua ideologia.

A imagem que possuímos – enquanto ocidente – é muito influenciada por esses episódios, desde 1947 até as crises dos anos de 1980 – devidamente ampliadas e tornadas ignóbeis pela administração Reagan-Bush -, chegando ao onze de setembro e a Primavera Árabe. Temos a tendência a acharmos os costumes islâmicos “feios” – quando não horríveis -, ditatoriais e etc., em comparação aos nossos. São realidades distintas. Nações orientais têm milênios de história, nós, enquanto Brasil, temos 500 anos. A China tem 5 mil anos, o Irã tem mais de 4 mil anos e etc. Temos conceitos diferentes e novos se comparados à eles. Devemos, no mínimo, respeito. Podemos não concordar com inúmeros aspectos da cultura oriental, principalmente, mulçumana, mas devemos respeito. Cada povo tem seu tempo de maturação. Talvez nossos costumes proliferem pelo mundo todo, talvez os deles. Talvez seja melhor que nossas diferenças sejam o substrato que levará a humanidade para um patamar mais justo. Não sabemos. Mas o que é certo, é que possuímos impressões sobre o oriente mulçumano vendidas para nós por uma nação – ou por seu status quod - que odeia o que esse povo representa. E o que esse povo representa é, de fato, um povo que fez sua revolução e tomou de volta o que era seu. Por isso são odiados pelos Estados Unidos e, esse mesmo ódio, boa parte de nossa população assimilou sem maiores questionamentos. Erro crasso, para não dizer débil.

Referências

KINZER, Stephen. Todos os Homens do xá: O golpe norte-americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio. Tradução: Pedro Jorgensen Jr - 2° Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

MENDEZ, Antonio; BAGLIO, Matt. ARGO: Como a CIA e Hollywood realizaram o mais estranho resgate da história. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: O Breve Século XX: 1914-1991. Tradução Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras. 1995.

VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. Da Guerra fria à Crise (1945-1990): As relações internacionais contemporâneas. Porto Alegre: Ed. Da Universidade UFRGS, 1990.

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