Reflexões sobre a Interdisciplinaridade

26/03/2014 09:24

Christian Silva de Castro[1]

Sou professor na rede pública estadual, em um município da região metropolitana de Porto Alegre, formado em 2010. No ano seguinte, tive a oportunidade de ingressar na rede estadual na condição de agente educacional de nível 2 – coordenação de entrada e saída da escola – onde pude conhecer os bastidores do funcionamento de uma escola. No mesmo ano, fui chamado para a vaga de professor, na disciplina de História, onde encontrei muitas dificuldades no que tange a prática didática. Tendo em mente estas dificuldades, tentarei neste pequeno ensaio fazer algumas reflexões que me teriam me sido muito úteis nos meus primeiros passos como professor titular fora da proteção garantida pelos estágios da graduação.

Para pensar a prática educacional contemporânea faz-se necessária a compreensão de uma série de elementos. Esta é composta por uma série de elementos positivos e negativos como a gestão, a participação e omissão governamental, a desvalorização profissional – dentro e fora da classe - , questões relacionadas com a infraestrutura da escola, a violência com os atores do cotidiano escolar em suas mais diversas manifestações, dentre vários outros elementos que permeiam a qualidade e efetividade do ensino público atual.

A vida inicial do magistério é cercada por inúmeros conceitos vistos de forma entusiasmada na graduação e um tanto quanto enigmáticos. A interdisciplinaridade é um desses conceitos. Segundo Fazenda[2] (2002)  interdisciplinaridade pressupõe a coordenação e cooperação entre as diferentes áreas do conhecimento e principalmente é caracterizada como um princípio de unificação e não uma ação unificada.

Apresentada desta forma a interdisciplinaridade se mostra como uma ferramenta de extrema potencialização do processo de ensino, unificando diferentes perspectivas e ângulos de um mesmo tema. Contudo, nos é passado apenas esse objetivo e o “caminho das pedras” nos permanece imerso nas brumas. Alguns elementos são vitais, para que as ações interdisciplinares sejam postas em práticas e obviamente uma série de barreiras se estabelecem entre a plenitude teórica da interdisciplinaridade e a sua prática. Pode-se compreender a interdisciplinaridade como um processo  concebido através da relação de outros elementos.

Dentre os elementos presentes no processo de construção da interdisciplinaridade está o planejamento da ação didática. Neste ponto, surge um dos primeiros hábitos que adquirimos na graduação: pensar somente sobre a perspectiva da nossa área de conhecimento. Se acrescentarmos a este elemento crucial às atuais molduras arcaicas da escola enquanto instituição cujos resultados não satisfatórios, obtemos uma equação assustadora. O planejamento interdisciplinar consiste na relação de diferentes áreas de conhecimento e principalmente na forma de como estas informações irão chegar aos olhos e principalmente a compreensão dos alunos.

Segundo Sommer & Bujes[3] (2006) a educação contemporânea compete com uma série de elementos culturais externos como a mídia e toda a interferência que ela causa, anulando – ou na pior das hipóteses  barrando – qualquer outro projeto de vida e de sucesso a longo prazo senão aqueles pregados em horário nobre. Neste ponto, o planejamento articulado entre as áreas do conhecimento torna-se fundamental, pois revestirá as informações trabalhadas em sala de aula com uma nova roupagem de significados e aplicações.

Tornar os conhecimentos escolares interessantes aos olhos do aluno e ao mesmo tempo dar a estes temas uma aplicabilidade que faça sentido para o educando é o objetivo da ação interdisciplinar planejada. Conforme mencionado anteriormente, a interdisciplinaridade pressupõe a unificação das diversas áreas do conhecimento, obviamente,  esta união demanda de tempo destinado a  obtenção de uma série de recursos como a elaboração da prática, conhecimento das necessidades do aluno enquanto cidadão, o conhecimento do entorno escolar, considerando cada nuance como uma possibilidade de trabalho, desde o lixo ao meio de transporte utilizado pelos alunos ou o caminho que perfazem de casa até a escola, ou seja, o planejamento transforma situações limites[4] em possibilidades de aprendizagem.

O trânsito das informações é fundamental para o sucesso da ação interdisciplinar visto que cada professor deve ter ciência do que está ocorrendo no desenvolvimento do colega, esta conduta de “transparência” quebra com a ideia de ensino fragmentado apresentada por Freire. A transparência é o primeiro passo para a flexibilização dos temas trabalhados sendo o objetivo final do planejamento interdisciplinar a queda das barreiras entre as disciplinas.

Ao considerar que cada aluno possui uma rede única de interesses, essa realidade se reflete na escola que vai apresentar um universo único de características – positivas e negativas – indo desde o relacionamento e funcionamento dos setores, a organização dos projetos pedagógicos e o entrosamento entre os professores. Semelhante a organização de um alvo, onde existe a acomodação de diversos círculos em uma mesma área, cada círculo representa um elemento da escola com suas peculiaridades onde o aluno ocupa o centro. Sendo a escola um espaço tão rico e variado, como utilizar um único planejamento, ou ainda, como não trabalhar de forma unificada?

Os temas desenvolvidos em sala de aula devem refletir e repercutir sobre cada uma das realidades presentes no universo escolar. Ora sendo revestidos por uma roupagem de significados novos ou mesmo com uma visão prática. A contextualização dos assuntos pertinentes a cada área aos olhos do aluno é uma alternativa à concorrência com os projetos vazios de felicidade instantânea ofertados na televisão. Tudo que é trabalhado com os alunos deve ter um significado para este aluno para que não seja descartado. Na concepção de Medeiros & Faria[5] (2003):

“A ideia de aprendizagem significativa envolve variáveis que remetem ao sujeito que aprende (disposição psicológica para aprender e capacidade de dar significado ao aprendido) e, também, ao material a ser aprendido que precisa ter uma carga de significações, ou seja, tem que ser logicamente significativo.”

Ou seja, é impossível que aluno de fato aprenda atribuindo significados ao que está sendo desenvolvido sem que ele já possua o mínimo de conhecimento prévio para “ancorar” os novos conhecimentos apresentados.  As diversas modalidades de aprendizagem existentes (visuais, práticas, mnemônicas, cinéticas, etc.) exigem uma abordagem interdisciplinar levando-se em consideração as diferentes variáveis do universo dos estudantes.

Por fim, mudar a realidade da escola enquanto instituição é compreender que o aluno fará parte desta realidade, interagindo, questionando e não apenas se adaptando e aceitando de forma passiva a realidade que lhe é imposta. Para a realização da prática interdisciplinar, faz-se necessário o entrosamento entre as áreas do conhecimento e a harmonia entre a teoria e a prática construindo um processo de ensino integral, ou seja, aplicável e compreendido na maioria dos aspectos do cotidiano do estudante.

Notas

[1] Graduado em História (Faculdade Porto-Alegrense, 2010), Psicopedagogo (Faculdade Porto Alegrense, 2012), pós-graduando em Educação Integral: ênfase na abordagem teórico metodológica do Trajetórias Criativas (UFRGS). Atua como professor na rede pública estadual no município de Alvorada na disciplina de História. E-mail: chris.historia@gmai.com

[2] FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade: um projeto em parceria. Ed. Loyola, São Paulo, 2002. p.29

[3] SOMMER, Luis Henrique; BUJES, Maria Isabel Edelweiss. Educação e cultura contemporânea: articulações, provocações e transgressões em novas paisagens. Ed. Ubra. Porto Alegre, 2006.

[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 22.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. Freire diz na Pedagogia do Oprimido que a educação fragmentada não permite a visualização de situações que barrem a aprendizagem, então a interdisciplinaridade atua como um identificador destes limites e uma possibilidade de sua transposição.

[5] MEDEIROS, Marilú Fontoura de; FARIA, Elaine Turk. Educação a Distância: cartografias pulsantes em movimento. EDIPUCRS, Porto Alegre, 2003.

 

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