Quando se perde a oportunidade de ficar calado

28/08/2013 09:19

Daniel Baptista

O assunto do momento é a vinda de médicos cubanos para o Brasil graças ao programa mais médicos, promovido pelo governo federal. Em tempos de internet, de redes sociais de democratização da informação, todo mundo tem opinião e frases prontas para todos os assuntos... Desde física quântica até aquela dica de tirar manchas de gordura daquela blusa que a sua avó deu... O que mais se vê no WWW são reproduções de inverdades e asneiras que foram perpetuadas ao longo de nossa triste história.

O nosso Brasilzão de meu deus é uma terra de contrastes variadíssimos. Aqui você encontra desde bilionários que moram em verdadeiras ilhas da fantasia até indigentes que dormem nas calçadas frias e que não estão nas estatísticas do IBGE. Aqui nós temos os típicos habitantes das metrópoles e suas vidas desenhadas pela selva de pedra até tribos indígenas que ainda vivem isoladas e sem nenhum contato com o “homem branco”. Aqui possuímos desde hospitais classe “A” até municípios que nem possuem postos de saúde. Aqui possuímos médicos que batem ponto nos hospitais públicos e vão para a suas clínicas particulares até cidades onde os médicos não fazem isso, por que lá não tem médicos...

Sinceramente eu não compreendo a histeria criada pelo CFM em relação aos médicos cubanos[1]. Que fique bem claro cubanos! Porque não se vê a mesma gritaria em relação a espanhóis, argentinos, portugueses[2]... porém o que se vê e lê é uma verdadeira campanha contra os profissionais cubanos partindo primeiramente, adivinhem por quem? Dos velhos lobos da velha mídia brasileira (aquela mesma que em 1964 tinha medo de uma nova Cuba) Não coincidentemente o programa Profissão Repórter do dia 27 de agosto de 2013 mostrava os valentes médicos do Brasil, atendendo toda uma população em condições mínimas, em hospitais superlotados... É evidente até para uma ervilha que faltam hospitais de grande porte no interior (basta dar uma volta na Santa Casa de Porto Alegre é só ler as placas das ambulâncias: Ivoti, Capão do Leão, Marau, Brochier...), mas o CFM não quer compreender (ou pelo menos se faz de louco) é que quem chega nos hospitais, vindos do interior estão nas últimas, em sua maioria evidentemente, precisam de um tratamento que lhes assegurem a vida, coisa que o interior não dispõe, falha administrativa nacional por não existir grandes hospitais em cidades estratégicas? Evidente. Mas o que não se diz é que esses médicos vindos para trabalhar aqui no Brasil vão tratar de prevenções, saúde familiar, primeiros socorros e nisso os médicos cubanos são campeões e dão um banho em nossa classe médica, preocupada em fazer especializações no estrangeiro para que velhas 60 anos fiquem parecidas com monstrinhos de 30 e especializações de mil cirurgias estéticas, onde o que fica evidente - além da mudança do fenótipo – é um grave problema psicológico com o envelhecimento, um processo natural e irreversível. A imagem abaixo diz tudo:

Com gritaria ou sem gritaria, os médicos chegaram, farão as provas e se aprovados forem, se destinarão para as cidades onde existe carência de atendimento[3],[4] e aí começaram as opiniões grotescas e abomináveis como esta aqui que, em minha opinião não deve ser levada a sério, mas ela está aí na WWW[5] e está aqui deu o que falar:

Vejam que bela oportunidade de ficar calada essa moça perdeu! Eu nem sei quem é essa tal Micheline, ela até pode ser uma pessoa legal, mas essa frase fez com que ela perdesse um alto percentual de crédito de “pessoa legal” com desconhecidos como eu... Mas essa frase dela é mais do que uma simples opinião, ela revela coisas mais tristes e sombrias... Ela revela o rancor que carregamos há 500 anos, o ódio com o diferente e o bom e velho racismo nosso de cada dia, onde existem pessoas que justificam a sua ausência com chavões do tipo “eu não sou racista, tenho até amigos pretos...” vejam como a dona Micheline nos revela subconscientemente que ela aprendeu que ser negro é ser mal vestido, burro e inapto para funções mais “limpas” e “com alto grau de conhecimento”.

No prefácio do livro Os condenados da terra de Franz Fanon, Jean Paul Sartre diz que “É preciso explicar porque o mundo de hoje, que é horrível. É apenas um momento do longo desenvolvimento histórico e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e das insurreições, e eu ainda sinto a esperança como a minha concepção de futuro.” No entanto a esperança que Sartre se refere como força motriz das revoltas e ações afirmativas, se dissolve em pequenezes de espírito como o exemplo dado, me vem a cabeça também a dedicatória do cientista social Carlos Moore (ironicamente cubano) em seu livro Racismo e sociedade  que diz: “Para que a Nação brasileira consiga abrir-se para um novo caminho e uma nova direção na constituição de uma sociedade verdadeiramente democrática e inclusiva de todos, superando o sotilérgio da cor, o fetichismo da cor e o essencialismo racial” . No mesmo livro, Moore diz ainda que “A função básica do racismo é de blindar os privilégios do segmento hegemônico da sociedade, cuja dominância se expressa por meio de um continuum de características fenotípicas, ao tempo que fragiliza, fraciona e torna impotente o segmento subalternizado.” (p.284).

Para quem não vê nada de racista em suas palavras, a citação de Moore deixa claro o quanto está enraizado o mais puro racismo, que está espalhado e disseminado na sociedade brasileira. Não tem como ser diferente, saímos de um modo de produção escravo oficialmente em 1888 e anterior a isso tivemos no mínimo 350 anos de escravidão plena. Médico tem que ter cara de médico, segundo a moça, inconscientemente qual o médico que vem a sua cabeça? Um homem caucasiano de óculos 1,90m e altamente sedutor para com as enfermeiras (igual ao Plantão Médico)? Creio que a resposta é sim. E não é culpa sua, aprendemos com esses signos formados no pensamento primário[6] que isso define ser um médico, e os exemplos de ser mulher, professor, jornalista e por aí vai...

Empregado é preto, tem “cabelo ruim” e deve estar sempre na cozinha, não tirando espaços de profissões consagradas pelos brancos e para os brancos... imaginem se essa gente resolve sair dos grilhões ideológicos que as prendem o que vai ser da classe dominante? Teremos caixas de “Alisabel” empilhadas nas farmácias? E como ficarão os tratamentos para embranquecer? E os oftalmos que fazem cirurgia para mudar a cor dos olhos? Pior será quando terão que lavar a louça no lugar da empregada preta que resolveu estudar...

A mesma população que a dona Micheline lamenta ser atendida por médicos que não se impõe na aparência, é a mesma que está morrendo a míngua por doenças plenamente curáveis e erradicáveis (verminoses, desnutrições, doenças respiratórias simples que se agravam para tuberculoses...), essa mesma população, garanto para a sábia Micheline que ela (a população a ser atendida) está pouco ligando para a aparência do médico, simplesmente querem um médico que as atenda com dignidade, já que os nossos médicos caucasianos de boa aparência se recusam a ir para longe, pois em Santo Antônio do Passa Quatro de Uma Vez Só sequer tem um McDonalds...

Por um lado é excelente ver pessoas como a Micheline externar seu preconceito e ódio com frases como essa, assim sabemos quem é quem e de que lado você está ao avacalhar com toda a ação afirmativa que se propõe para a sociedade, é assim com o sistema de cotas, com o bolsa família, só pra se ter um exemplo na Inglaterra tem até auxílio funeral! Qual o problema em famílias ganharem 200, 300 Reais? Que seja qualquer outro valor, mas essas políticas não são partidárias, e sim governamentais, são estratégias de governo!  Mas isso é outro papo...

O racismo se manifesta nas formas mais sutis e subliminares no nosso século XXI. Muita gente riu com o que a Micheline escreveu, se sentiu com a alma lavada, ela disse o que não é permitido dizer, mas muitos concordam em gênero número e grau secretamente, lá no fundinho do cérebro. É triste saber que por mais que a educação avance, o racismo também avança e se transforma na sociedade, diluindo-se nas inocentes palavras de quem escreveu e foi mal interpretado, e mesmo assim nós vemos o encontro do velho com o novo gerando anacronismos temporais estranhos. São séculos de construção histórica manifestando-se de forma viva e pujante no século XXI diante dos olhos daqueles que descrêem na racialização do Brasil.

Notas

[6]  Enquanto pensamento secundário se expressa fundamentalmente mediante a linguagem verbal (pensar como conversar com si mesmo), o pensamento primário, como o inconsciente, se expressa, sobretudo, mediante imagens. Os mecanismos de funcionamento do pensamento associativo serão compreendidos se se reflete sobre a utilização das palavras. Basta que se associe repetidas vezes uma palavra com uma realidade para que a simples presença da palavra gere automaticamente a imagem mental da realidade correspondente. E tudo isso de maneira arbitrária, não racional. Joan Ferrés Televisão subliminar p. 44.

 

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