Quando o caldo começa a entornar

19/06/2013 18:12

Daniel Baptista

As manifestações que tomaram conta das principais cidades do Brasil e em algumas cidades das regiões metropolitanas das capitais estaduais, tiveram sua origem em dezembro de 2012 em Porto Alegre. Até aqui nenhuma novidade. O que ninguém contava, pois ninguém tem bola de cristal, é que os acontecimentos que ocorreram – e ainda ocorrem - na capital do Rio Grande do Sul, tomasse proporções tão grandes a ponto de “motivar” o restante da população do Brasil a ir para as ruas e questionar a qualidade de seus respectivos transportes públicos. Pois bem, isso está ocorrendo até agora em várias capitais do Brasil, em especial no Rio de Janeiro e São Paulo com proporções astronômicas.

Passado a euforia da redução da tarifa[1], melhor dizendo, da volta do preço anterior da passagem de ônibus em Porto alegre - graças a uma liminar judicial – o movimento que luta pela redução do preço – que segundo o tribunal de contas do Estado seria de R$ 2,60 – e pelo fim do monopólio do transporte público que se concentram na mão de empresários, o movimento retornou as ruas reivindicando a redução para o valor legítimo da tarifa dos ônibus. A cada manifestação o número de participantes ia crescendo consideravelmente. Sempre se deslocando pela cidade, os manifestantes eram covardemente barrados pela polícia sempre que se aproximavam do intocável prédio do jornal Zero Hora (um subproduto do grupo RBS, filiada da Rede Globo aqui nestas bandas ao norte do Uruguai) localizado próximo à esquina das avenidas Ipiranga e Érico Veríssimo. Vale lembrar que não é a primeira vez (e não será a última) que a polícia age de maneira estúpida e agressiva[2].

Tentei até aqui, fazer um resumo muito simplório e rápido para expor a evolução do quadro das manifestações em Porto Alegre. Até que essa onda – legítima e justa em sua gênese - chegou à São Paulo... E lá na terra da garoa, reduto tradicional dos tucanos, o movimento foi gentilmente recebido pela polícia mais assassina do Brasil[3]... quando algo acontece em São Paulo – capital financeira do País – a atenção midiática é bem maior e claro, o número de manifestantes também. Após essa selvageria promovida pela polícia local, o movimento teve é claro, um ingrediente a mais. O motor não era apenas a exigência da redução da passagem de ônibus, seria também o repúdio a violência policial. Até então tudo muito bom, porém algo começou a ficar muito estranho. Quando vemos Datenas da vida parabenizando as marchas do povo nas ruas, ou Jabores com rosas e seresteiros em nossas janelas pedindo mil desculpas, ou o sonolento programa Encontro com Fátima Bernardes com “especialistas” e “manifestantes” e as não menos improváveis e ilibadíssimas estrelas globais dando suas opiniões e direções sobre os movimentos a coisa fica séria[4]...

Eu e milhares de pessoas estivemos presentes nas manifestações do dia 20 de junho em Porto Alegre. O tempo ruim, característico nesta época aqui nestas latitudes (muito frio e uma forte chuva) não afastou a massa concentrada primeiramente no paço municipal. Presenciei coisas lamentáveis que só confirmaram a minha suspeita. Pessoas enroladas em bandeiras nacionais, saudando o velho e bom civismo conservador brasileiro, cantando o hino dos opressores com lágrimas ou mais grave ainda, abusos da sanidade mental onde o velho e bom bairrismo aflorou em seres que cantaram o hino da “maior revolução da face da terra em toda a história” enrolados no sagrado manto gaudério, portando cartazes com dizeres do tipo “Gaúcho é peleador e não se entrega!” “Gaúcho, bagual e guerreiro!” Cenas tristes, dignas e próprias apenas para as arquibancadas dos maiores circos daqui de Porto Alegre, chamados Olímpico e Beira Rio...

Vândalos, pegaram uma Máquina do tempo e desembarcaram no Brasil

Tudo estava muito, mas muito estranho quando se percebeu não apenas os nacionalistas ali presentes, mas a quantidade de reivindicações destoantes e confusas que descaracterizavam em muito os atos anteriores... “Fora Dilma”, “Não a PEC 37”, “Fora mensaleiros” e outras maluquices que davam uma impressão de se estar em uma grande feira de reivindicações populares, davam aos primeiros minutos de marcha pelas ruas da capital um ambiente de marcha para deus, pátria e família. O clima se confirmou quando todos esses coxinhas (em um assustador número, bem considerável mesmo!) criados a leite com pera e ovomaltino[5], começavam a vaiar o pessoal que erguia as suas bandeiras de suas siglas partidárias “Sem partido! Sem pardito!” Bradavam os manifestantes de última hora, pilchados e com os rostinhos pintados de verde e amarelo (igual quando fazíamos na pré-escola). O ápice da censura foi quando dois camaradas anarquistas subiram em uma parada da Avenida João Pessoa e levaram uma sonora vaia dos manifestantes. Eu e o pessoal que estava comigo paramos por instantes para apoiar os camaradas e vaiar os manifestantes cheirosos e pacíficos... A medida que aproximávamos da Avenida Ipiranga a coisa tomou um rumo que só confirmaria o meu pessimismo. Patrícias e seus papais vindos diretamente do shopping Barra sul e os valentes e “peleadores” gaúchos que nunca fogem da batalha começaram a marchar contra a multidão... Por quê? Por que quando chegamos na esquina das Avenidas João Pessoa com a Ipiranga fomos recebidos pelos bondosos policias da tropa de choque da brigada militar, praticamente Cerbéros guardando os portões do mundo de Hades, no caso o prédio da Zero Hora, uma das fontes que emana o conservadorismo das elites locais. E quem estava lá na linha de frente? Os valorosos anarquistas e os camaradas da esquerda (PSTU, PSOL, PCB...) os mesmos que foram cortados de se manifestarem. Voltando um pouco alguns acontecimentos anteriores, lembro-me de ter encontrado um amigo que teceu o seguinte comentário: “Boto muita fé nesta gurizada!” apontando para três anarquistas que caminharam do nosso lado. Eu discordo de muitos pontos da ideologia dos anarquistas, mas nessas horas, eu os vejo como camaradas e é hora de unir forças com eles contra essa elite que está no poder nos negando direito em prol de seus privilégios.

Vândalos modernos (de elmo laranja)

Quando fomos recebidos pelas bondosas bombas de gás lacrimogêneo dos competentes cães de guarda da RBS, a histeria tomou conta, pois a chuva só fez a fumaça baixar e se concentrar na multidão que em pânico e sem conseguir respirar recuou em passos muito apertados e em um imenso bloco humano. Cansados e fragilizados pelo frio, chuva e pelo asqueroso gás que queimava, aliviados pelas borrifadas de vinagre de uma companheira que estava presente, a maioria dispersou se recolheu para suas casas.

E o saldo disso tudo? Por que o caldo começa a entornar? As manifestações que estão ocorrendo no país todo tomou uma direção perigosa onde um clima (minuciosamente planejado) de que protestar está na moda[6], contagiou uma massa dita apartidária (que convenhamos, nada é mais ideológico e conservador do que afirmar não sou de esquerda, nem de direita) bois e vacas de imensos currais ideológicos foram manobrados pela velha direita conservadora, a aderirem as ruas também, manifestarem os seus anseios e descontentamentos, estigmatizando e criminalizando quem estava no front desde dezembro do ano passado, desde o episódio do “tatu”[7] para ser mais preciso.

É com muita preocupação que estou vendo os rumos tomados por essa onda de protestos que vem ocorrendo no Brasil inteiro. Para nós, eu, meus colegas d’O Fato e a História você que está lendo isso é evidente e cristalino que, quando vemos a velha mídia abraçando a causa e incentivando os protestos dentro de uma cartilha onde se inclui “sentem-se para que a polícia visualize os vândalos”[8] há algo muito mais podre que o reino da Dinamarca. É tarefa nossa de articular novamente as diretrizes dos movimentos contra o aumento da passagem e contra a criminalização dos movimentos sociais. E minha esperança é alertar principalmente os jovens que estão em sala de aula e distorcer falsas premissas a que eles estão expostos, porque alinhar essa classe média que da noite para o dia aderiu aos protestos para exigirem maluquices e reproduzir as bobagens que estão na Veja e nas emissoras de televisão do Brasil, é chover no molhado.

 

[2] http://www.sul21.com.br/jornal/2013/03/fotos-em-frente-a-pucrs-manifestantes-protestam-contra-aumento-de-passagens-na-capital/

[3]http://www.viomundo.com.br/denuncias/rodrigo-vianna-a-baderna-e-da-policia.html

[4] http://oglobo.globo.com/pais/famosos-protestam-nas-redes-sociais-contra-violencia-policial-8712780

[5] Créditos a Gil Brother

[6] http://www.hojeemdia.com.br/pop/gloria-kalil-da-dicas-de-moda-para-protesto-em-coluna-1.136070

[7] http://mais.uol.com.br/view/jinmcnm98vmk/protesto-derruba-tatubola-simbolo-da-copa-em-porto-alegre-04020C9A3366D4993326?types=A&

[8] http://m.g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2013/06/manifestantes-de-santos-deduram-vandalos-sentando-durante-protesto.html

 

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Data: 28/12/2013

De: sergio

Assunto: manifestação

eu marchei, eu protestei, e o que a política fez? nada nada e nunca irão fazer nada, pois não interessa a eles melhorias para com a população ...

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