Qual a importância da renuncia do Papa Bento XVI?

14/02/2013 08:08

Daniel Baptista

Notícias relacionadas às religiões sejam elas quais denominações possuem sempre despertam interesse e polêmica. Até o dia 28 de Fevereiro o atual Papa da Igreja Católica, Josef Ratzinger ou simplesmente Bento XVI, deixará o pontificado e não será mais o líder católico mundial, caberá aos bispos e cardeais do Vaticano escolher outro Papa.

Essa notícia que deixou em polvorosa os meios de comunicação - responsáveis por formarem opinião – circula com bastante ênfase e são procuradas com um interesse muito grande da população, por quê?

A espiritualidade como formadora de cultura e influente na civilização

Desde que nós “descemos das árvores” e nos sedentarizamos, questões ligadas ao sobrenatural permeiam a vida de homens e mulheres na Terra. Somos uma espécie que é movida pela angustia e questões relacionadas com a morte, a existência de um deus, o sacrifício para não despertar a ira de um ser supremo ou então, o cumprimento de regras que o agradem e garantirá uma vida eterna de fartura interminável no além, guiam as sociedades e legitimam condutas apropriadas e desapropriadas. Neste cenário de dúvidas, o cristianismo – uma religião europeia - se demonstrou ao longo da história como uma crença que responda a essas questões de forma satisfatória, mas para tal consolidação e posição conquistada no mundo inteiro, o cristianismo se valeu de instrumentos que contraria em diversas vezes o legado de Jesus Cristo e a Igreja de Pedro (?). A escravidão africana, sem dúvida o maior e o mais terrível genocídio da história é só um exemplo das práticas exercidas e legitimadas pelo alto clero e seus aliados.

Ao contrário do que os fiéis e seus defensores do baixo clero pregam,  o Catolicismo não defende apenas a espiritualidade e a manutenção da vontade divina na Terra. Ela é uma instituição muito mais política e regradora da sociedade do que se  pode imaginar. O Papa Pio XI por exemplo, em 1929 deu a benção ao fascismo de Mussolini no Concílio de Latrão, em troca de uma Praça em Roma que possui autonomia política, o Vaticano. Esta mesma instituição promoveu diversas vezes a legitimação de reinos (se listássemos todas aqui, teríamos um texto de 1 GB de tamanho) como o célebre gesto da coroação Carlos Magno realizada por Leão III que simbolizou a retomada do Ocidente por Roma e a expansão da doutrina realizada pelo Rei Magno. A igreja Católica sempre esteve ao lado dos poderosos e dos senhores das regras.

Coroação de Carlos Magno, de Friedrich Kaulbach, pintura datada de 1861

No excelente livro Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos o medievalista Francês Georges Duby faz uma análise em que o homem medieval pouco mudou em relação ao homem contemporâneo. Seus medos, crenças e hábitos pouco diferiram neste espaço de mil anos, ou seja, os homens continuam a temer elementos que permearam o imaginário medieval e fizeram parte da instituição Católica (e ainda fazem): Céu, inferno, pecados, caridades, etc. Isto é um atestado de quão a Igreja Romana é influente no comportamento dos homens ao longo dos anos. A análise de Duby nos revela uma retórica em que onde o cenário medieval é permeado pelas regras do cristianismo católico. Não é cabível menosprezar sua influência na sociedade contemporânea, porém gradativamente, a fé em deus conforme os ditames do Vaticano estão perdendo força e sentido no mundo contemporâneo.

Gesto de decadência?

Está é a segunda vez que um Papa renuncia ao pontificado. A primeira ocorreu em 1415 com a renuncia do Papa Gregório XII. Este gesto realizado em favor de um Papa oriundo de uma família mais poderosa, Martinho V. Naquele período a Igreja contava com diversas famílias e reinados reivindicando a herança Católica, com sedes em Avignon, Pisa  e outras cidades, foi o período em que mais ouve antipapas[1] na história (os principais reivindicatórios neste período de papado de Gregório XII foram, clemente VII, o primeiro antipapa de Avignon e seu sucessor, Bento XIII). Percebendo a fragilidade da instituição e prevendo uma possível ruína, Gregório XII cedeu o seu poder para um bispo proveniente de uma família mais influente na complexa política e sociedade medieval.

Entretanto, naquele longínquo período medieval a igreja já demonstrava sinais de fraqueza e discordâncias políticas. E não foi a única obviamente.  A saber, também tivemos a Contra Reforma, uma resposta da Igreja Católica à crescente onda protestante na Europa. Essas reformas foram responsável por exemplo pela criação de companhias catequizadoras na  América. Mas e hoje? O que temos no cenário mundial que justifica o gesto de Bento XVI? Segundo suas palavras:

“...   no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor, quer do corpo quer do espírito; vigor este que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”.

Mas será mesmo que o seu gesto é unicamente movido pela sua saúde que se encontra em estado frágil? Ou será que o pontífice não encontrou sintonia com o público? Já que algumas de suas declarações e posicionamentos foram recebidas de forma negativa pelos fiéis e pior ainda para o Vaticano, pelos não fiéis?

Neopentecostais: um fenômeno

Se nos dias de hoje temos um crescente ateísmo que influência cada vez mais a sociedade, no último quartel do Século XX no Brasil vemos o surgimento de diversas congregações evangélicas que atendiam de forma mais satisfatória as ânsias dos fiéis cristãos. Com homens de boa fala, de discursos empolgantes, mais próximos do público durante os cultos, promovendo curas e bênçãos, prosperidade plena não só no reino dos céus mas em vida terrena também, essas igrejas se demonstraram muito eficazes com o grande público tendo a adesão não somente de pessoas humildes e iletradas, mas também de artistas, políticos e pessoas públicas influentes. O modo como essas igrejas proliferaram nos grandes e médios centros urbanos do Brasil – ilicitamente ou não, charlatã ou não – é outra história que não vamos abordar aqui. Mas podemos refletir aqui. Fato é que o surto pentecostal esvaziou e continua esvaziando os cultos Católicos, além de claro, da idéia cada vez mais proeminente na sociedade de que acreditar em deus é uma opção, não uma obrigação.

Outro fenômeno que vemos neste alvorecer de milênio é o ateísmo. Mesmo que ainda encarado pelas religiões cristãs como “mais uma forma do demônio se manifestar nos homens” a corrente ateísta curiosamente avança com o progresso não apenas da ciência, mas também dos meios de comunicação, em especial a Internet mais em especial ainda o Facebook. Na rede social é possível ver páginas como a ATEA que prega propaganda anti religiosa através de imagens e “provas” da não existência divina. Apesar de seu significativo sucesso, a página se mostra mais como uma propaganda anti cristã do que qualquer outra coisa séria, não levando as pessoas que “curtem” a página  à nenhuma  reflexão. Apenas há um amontoado de piadas que debocham das histórias bíblicas, esquecem por exemplo, que boa parte de seus comportamentos foram moldados pela retórica cristã, inclusive seus questionamentos morais e posicionamento a respeito de outras culturas ditas “atrasadas”.  Mas mesmo assim é um fenômeno interessante e crescente dentro da sociedade.   

Eleito após a morte de João Paulo II (sem dúvida o Papa mais fotografado do mundo e tido como o “Papa superstar”) Josef Ratzinger  representa uma ala demasiadamente ortodoxa e conservadora da Igreja Católica, com um discurso que em nenhum momento entra em sintonia com as demandas atuais, no que se refere ao aborto, uso de preservativos e mais grave ainda, o encobrimento de padres e bispos que abusaram sexualmente de fiéis católicos nos últimos anos. Questões afirmativas como o direito dos homossexuais na sociedade continuam sendo duramente combatidas e condenadas pelo alto clero do Vaticano, tal posição coloca em xeque a validade dos valores da instituição no cenário atual, tendo em vista que esta além de ser uma demanda justa e legítima, mostra o pensamento defasado, retrógrado e medieval, criando um abismo cada vez maior entre sociedade e Igreja.

Bento XVI, em selo comemorativo ao seu 80º aniversário

 Mais uma vez, a instituição que já se declarou “herdeira do mundo”, se vê em mais um dilema que coloca em risco a sua existência. A renúncia do Papa Bento XVI não significa a total ruína da Igreja Católica, mas demonstra sim que a sua estrutura política está cada vez mais enfraquecida diante das mudanças da sociedade do século XXI. A instituição está mais uma vez diante de um cenário que lhe é desfavorável e necessita se reinventar, como? De que maneira? Eu não sei e nem porto essa capacidade. Fato é que a Igreja buscará no próximo pontífice uma figura carismática que saiba dialogar com a sociedade e com as diferentes religiões do mundo inteiro, afinal está em jogo a manutenção de uma instituição que permeia o mundo a no mínimo 1500 anos, em um cálculo bem grosseiro, de formação, manutenção e legitimação dos valores ocidentais.    

Referências:

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/02/11/a-igreja-e-a-reinvencao-do-ocidente/

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/02/papa-bento-xvi-vai-renunciar-diz-agencia-italiana.html

Nota

[1] Antipapa é um cargo em que o ocupante reivindica o título de papa, não sendo reconhecido pela Igreja Católica, sendo reconhecido apenas por famílias e concílios não oficiais. Em nada esse título difere dos dogmas católicos ou é fundador de outra doutrina religiosa. 

 

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