Pra frente Brasil! Salve a seleção! A conquista do tri consagra a ditadura (I)

04/07/2013 11:59

Daniel Baptista[1]

Futebol e política são elementos que intercalam perfeitamente e por mais que se diga que o futebol seja um elemento recreativo da sociedade ele é mais político do que se possa imaginar. Pelo menos em sua origem e durante o seu desenvolvimento nas sociedades, já que o ser humano é um indivíduo político por natureza, obviamente esse esporte não poderia deixar de sofrer tal influência. Ele foi usado largamente como um elemento que unisse todo o povo brasileiro em uma só causa, em especial em 1970 após a conquista do tri campeonato. Temos uma discussão grande que se arrasta até os dias de hoje, qual seleção foi melhor? A de 1982 ou a de 1970? Difícil de responder...

Mas o que a seleção brasileira 1970 representou politicamente todas as outras não representaram, nisso ela foi melhor. Não que os jogadores tivessem a par ou concordassem com tal prática dos políticos-generais brasileiros, embora todos receberam prêmios generosos dos nossos políticos. “Em São Paulo, o prefeito Paulo Maluf, com verbas públicas, deu um automóvel a cada um dos integrantes da seleção...” (BARROS, 1998 p.61), slogans foram criados para destacar o desenvolvimento do País e óbvio que a imagem da seleção foi largamente utilizada como “garoto-propaganda” do regime de Médici, que quando assumiu a presidência era um total desconhecido da nação, mas em seu governo e a sua mão de ferro, fomos conduzidos a níveis de crescimento nunca vistos antes, crescimento este para parte da população naturalmente, afinal era a política do “primeiro vamos fazer o bolo crescer para depois dividir” e como todos nós sabemos, o bolo era pequeno e ficou na mão dos mais esfomeados.

Todo o governo ou forma dele necessita de um braço ideológico para promover e ou justificar o seu Status Quo, isto não ocorre apenas no Brasil, mas também em todo o mundo, isto é um fenômeno mundial de nossas relações e ideologias impostas de cima para baixo. Vemos isso no EUA do general MacCarthy e sua cruzada contra o comunismo, usando o medo como argumento para legitimar a suas ações, em nome de Cristo os cruzados europeus quase varreram Jerusalém do mapa, Hitler atribuiu aos judeus as desgraças sofridas pelos alemães e para a alegria de nossos militares, a seleção fez um bom papel no México.

Veremos então a seguir alguns elementos que enriqueceram o nosso futebol até o período militar onde este último, encontrou um excelente terreno para se propagar um sucesso que o País teve para poucos e para muitos, a exclusão e repressão eram a rotina.

Uma breve história do futebol, no mundo e no Brasil

O nobre esporte bretão como é conhecido, já tem em um de seus apelidos a sua origem. Nobreza. Não nobreza propriamente dita, mas o futebol tem a sua origem nas classes mais abastadas da Inglaterra, é um esporte burguês o futebol moderno com as regras que conhecemos hoje, até por que ele deriva de outras atividades lúdicas e recreativas praticadas há muito mais tempo. Nós chutamos uma esfera ou objetos semelhantes a essa forma há alguns bons anos anteriores ao século XIX, temos o Kemari na China antiga, o Haspartum em Roma, o Calcio na Itália, um jogo religioso chamado  pok ta pok no extinto Império Maia, onde a atividade era cabecear e chutar uma bola de látex, com o objetivo de passá-la  por um anel. Bem, exemplos nós temos muitos e variadíssimos, mas qual deles é o parente direto do futebol moderno, isso não sabemos, fato é que nós sempre chutamos uma bola em alguma época da humanidade.

Voltando a sua origem moderna, o futebol era praticado pelos burgueses ingleses do século XIX com uniformes rigorosamente alinhados e elegantes, com regras de boa conduta no “field[2] e em geral apenas clubes e associações que possuíam uma série de regras e exigiam outras tantas exigências para poder frequentá-las é que podiam exercer a atividade futebolística.Os jogos de futebol surgidos na Inglaterra ainda nos meados do século XIX desembarcaram por essas bandas no final dele, afinal as novidades vindas da Europa ainda demoravam algum tempo para atravessar o Atlântico. O futebol foi trazido por um filho de ingleses no ano de 1894, Charles Miller que desembarcou aqui com duas bolas de capotão como atesta SANTOS 1981: “Como quer que seja tudo começou em 1894, quando um jovem paulista filho de ingleses, desembarcou com duas bolas de couro na bagagem: Charles Miller o fundador do futebol brasileiro. (p.12)”.

Charles Miller mal sabia da grandiosidade daquele ato, ou melhor, do item que ele trazia na bagagem. Aquelas duas bolas de couro moldariam para sempre o comportamento dos brasileiros nos próximos anos, o esporte como se confirmaria seria a grande paixão dos brasileiros não é a toa que o ditado popular que “técnico da seleção brasileira é o cargo mais importante do País depois do presidente”. Curiosamente veremos essa relação na década de 1970 durante o Regime Militar, às vezes a sabedoria popular se mostra muito mais eficiente e eficaz em analisar certas situações. E nada mais popular no Brasil do que o esporte disputado dentro das quatro linhas.Ele movimentou aspectos políticos, criou frases de efeitos, foi responsável por anedotas engraçadas em uma época em que se amarrava “cachorro com linguiça”, enfim, o futebol é responsável por boa parte da construção do que é “ser brasileiro” como adorava dizer diversos presidentes do Brasil desde Getúlio Vargas até ao nosso Emílio Garrastazu Médici, a figura presidenciável em questão aqui neste texto a ser apresentado.

Porque jogamos futebol?

Esta é uma pergunta complicada de responder com precisão, pois devemos levar em conta a grande evolução que este esporte teve na sociedade brasileira, associado claro com a influência que o grande Império Britânico exercia no mundo no século XIX.  O futebol que aqui se jogava, era um esporte das elites urbanas, o povão não podia participar, e como em toda e qualquer época, um plebeu sonha em ser nobre. As elites moldam costumes, hábitos, produz cultura, legitima valores, tudo isso reflete em todos os setores da sociedade e todas as classes sonham em ser o que a elite é e possuir o que ela possui. É o sonho da ascensão social, da diferenciação dos seus iguais, da vitrine, de desfrutar um pouco dos valores e hábitos do “ser burguês”.  O povo primeiramente não jogava futebol, mas via pelo muro os disputados “matchs[3]como revela SANTOS:

Os pobres – os que não tinham dinheiro para a bola, os uniformes e os ingressos – espiavam por cima do muro. Mesmo os que conseguiam pagar o preço da geral, sentiam-se intrusos no espetáculo : os craques, ao saudarem a torcida, nunca se dirigiam a eles, mas à seleta assistência da arquibancada, bouquet de moças e rapazes de boa família. Era o tempo em que os intelectuais ainda gostavam de futebol e o comparavam, em artigos derramados e versos eloquentes, os jogadores a deuses gregos, os estádios ao Olimpo. (1981, p.15)

Temos aqui um claro elemento que atesta o caráter elitista do esporte, onde os pobres não tem acesso devido ao seu poder aquisitivo ou então a sua origem, o futebol vai se tornar popular e cair nas graças do povo a partir da década de 1910 quando surgem as primeiras agremiações populares, mas elas surgiram mesclando–se com os pretos e mulatos que serviam de “tapa-buracos” afinal o nosso futebol era branco e inglês, os jogadores que o disputavam tinham que ser brancos, os que não eram recorriam ao pó de arroz para se parecerem com os seus colegas de equipe, segundo SANTOS:

Nesta fase branca e inglesa do nosso futebol já se poderiam notar os germes que acabariam com ela. O povo de alguma maneira, participava do espetáculo, torcendo nas gerais ou aproveitando o breve instante em que a bola transpunha o muro, para alguns chutes e embaixadas. Resultado: vinte anos depois estava assimde times pobres; e mesmos os ricos enxameavam de jogadores humildes. Nos dois casos, a moçada tratava de imitar os grã-finos. Imitavatudo, desde a maneira de jogar até a aparência externa. Quem era pobre e varzeano, como Carlos Alberto, tratava de virar branco e elegante. (1981, p.16)

A plebe tomou conta do esporte dos ricos que gradativamente foram deixando o hábito de jogar futebol, por todos os lados temos histórias de “clubes do povo” que se formaram a partir da negação dos clubes dos ricos em aceitar determinados atletas de origem popular, gentalha grosseira e mal vista. Ao passo que o futebol vai caindo nas graças da população e consequentemente na pauta diária de todos (surgem as primeiras transmissões à rádio, a imprensa especializada, comentaristas esportivos) começam a surgir nele também a possibilidade de mudar de vida, como uma maneira de um trabalhador pobre ou ainda sem emprego de ascender socialmente e ser aceito na alta sociedade, assim surgem os ídolos das massas afinal de contas:

“Un jugador sobresaliente puede obtener uma considerable riqueza como deportista profesional;incluso para lós numerosos aficionados, em apariencia, existen suculentas bonificaciones materiales. Además de ventajas materiales. El fútbol ofrece  al narcisismo La posibilidad de conquistar um satisfactorio reconocimiento entre sus semejantes.”(VINNAI, 1974, p.109)

Fato notório é que o futebol como desporto transformou a nossa sociedade de uma maneira única, intensificando ou então sendo motivo para o surgimento de novas relações dentro da sociedade. Nele temos não apenas a possibilidade de conquistar espaços que não poderiam ser frequentados de outras maneiras e quer sim, quer não, promoveu timidamente uma inserção dos negros e dos mestiços na participação da vida lúdica da sociedade brasileira.Mas nem todos viam o futebol com bons olhos, ele já tinham inimigos e críticos ferrenhos, visto como o “pão e circo moderno”. Afonso Henriques de Lima Barreto era um perseguidor do futebol pois para ele as oligarquias iam usar a bola como “ópio do povo”[4] e de fato, passado quase cem anos depois parece que Lime Barreto acertou, futebol é assunto sério emtodas as regiões do Brasil. Mas claro que não podemos atribuir apenas ao desejo de ser burguês que o futebol vingou em nossas classes menos abastadas. No começo da primeira década do século XX o Brasil tinha se transformado radicalmente, as greves e as agitações populares eram demasiadamente grandes e perturbavam a ordem. A aglomeração da população em torno das cidades, a crescente urbanização faziam com que se concentrasse uma massa de indivíduos ociosos era necessário ocupar essa gente, dar uma atividade a eles, está aí um dos motivos do futebol ser odiado por Lima Barreto, além dele (o futebol) ser imperialista claro, mas nas linhas de SANTOS fica evidente que:

“A greve de 1917, que chegou a paralisar dezenas de milhares de operários, fez ver as autoridades e aos industriais que a cidade precisava de um “esporte de massas”. Como uma criança que se manda brincar “para queimar energias” , os operários foram, então mandados jogar futebol: os municípios isentaram os campos de impostos; os industriais se apressaram em construir grounds; a polícia parau de reprimir os rachas em terrenos baldios; os castigos aos estudantes de escolas públicas que fossem pegos jogando futebol, suspensos. ” (1981, p.22)

Desta forma podemos ver que começamos a jogar futebol não apenas por uma reprodução de hábitos dos costumes burgueses, mas também convinha à elite industrial e as autoridades que essa prática, além de promover um “bem estar à saúde do corpo” era um elemento que dispersava ou até mesmo rompia com a unidade de um grupo ou causa. A partir dessa época, gradativamente o futebol vai fazendo parte da vida de todos os brasileiros. Pão e circo, teatro dos pobres, podemos dar o termo que quiser, mas esse esporte transformou abruptamente o cotidiano do brasileiro, passando a fazer parte de nossas vidas, para preencher o tempo livre que está determinado no modo de produção capitalista “Lo que se hace o se omite em El tiempo libre está determinado, em La sociedad capitalista, por La necesidad de reproduzir inalterablemente La fuerza de su trabajo.” (VINNAI, 1974 p.21). Ou seja, em uma época de intempéries ele veio amortizar as classes subalternas e ocupar as nossas mentes e corpos.

O regime militar no Brasil

O golpe do dia primeiro de Abril de 1964 trouxeram novos ventos na política do Brasil. Censura, repressão, torturas, atos institucionais, cassação, eram termos que agora estavam presentes no cotidiano do Brasil. Sob a justificativa de que era necessário conter a ameaça vermelha no País, pois vivíamos o ápice da guerra Fria e de maneira alguma as elites ligadas ao capital estrangeiro jamais permitiriam uma nova Cuba, apelaram então para as forças armadas do Brasil que promoveriam assim a “revolução”.

O cenário era propício para a intervenção militar que o Brasil sofreu, não tínhamos uma articulação entre as esquerdas, a população estava alheia as questões políticas e sem consciência democrática, uma vez no poder, os militares puderam alinhar o País com o capital externo e organizar as estruturas político-econômicos a favor da pequena parcela da população que detinha os meios de produção.a principal e mais notória ação política do período militar em seus primeiros anos foram o controle da vida pública através de medidas e atos oficializados por um congresso manipulado e com as cartas marcadas já antes das votações. No período em que o General Castelo Branco esteve no poder, a criação do SNI (serviço acional de informações) foi o órgão que mais teve incidência na vida pública do brasileiro. Através dele o regime militar controlava todas as ações dos cidadãos sob o motivo de estar monitorando possíveis ações de “grupos terroristas”.

Após o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco deixar o seu mandato, que durara de 15 de Março de 1964 a 15 de Abril de 1967 vindo a falecer meses depois, assumiu o cargo de presidente do Brasil o General Arthur Costa e Silva. O seu governo foi caracterizado pelo ato institucional mais violento que ocorreu na vida política brasileira durante o período de ditadura militar; o famoso AI-5 que acusava sumariamente todo e qualquer cidadão que estivesse envolvido em “atos subversivos” e lhe dava poder para fechar o congresso (atitude que ele realizou). De todos os decretos-leis que foram legitimados no período ditatorial, este certamente é o mais lembrado pela população e o que causou mais intervenções nos direitos de liberdade dos brasileiros. Era a consolidação da ditadura em nosso cenário político como atesta BARROS: “O ato institucional nº 5 foi a implantação acabada do totalitarismo estatal, o comando de todos os brasileiros por uma única vontade, a ditadurasem qualquer disfarce.”(1998, p.42).

O General Costa e Silva foi afastado por motivos de saúde, assumindo em seu mandato uma junta militar que governaria o País por dois meses. Assumindo após esse período o presidente que o lideraria o Brasil durante o seu período espetacular de crescimento: o gaúcho Emílio Garrastazu Médici, que sem sombra de dúvida, teve o governo com a melhor propaganda do período militar.

(Continua na parte II)

Referências

BARROS, Edgard Luiz de. Os governos militares. São Paulo: Contexto, 1998.

MAGNANE, Georges. Sociologia do esporte. Sao Paulo: Perspectiva, 1969.

MEDICI, Emilio Garrastazu. A verdadeira paz.2 ed. Brasília, DF: Imprensa Nacional, 1973.

________________,O jogo da verdade. [S.l.]: [s.n.], 1970.

________________, O povo não esta só. 2 ed. Brasília, DF: Departamento de Imprensa Nacional, 1973.

SANTOS, Joel Rufino dos. História política do futebol brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1981.

VINNAI, Gerhard. El fútbol como ideologia. Buenos Aires: Siglo XXI, 1975.

WASSERMAN, Cláudia; GUAZZELLI, Cesar Augusto Barcellos (Org.). Ditaduras militares na América Latina. Porto Alegre: UFRGS, 2004.

Notas

[1] Artigo dividido em duas partes. Originalmente enmtregue como avaliação parcial da disciplina de História do Brasil IV, do curso de História da FAPA.

[2] Campo, traduzido do inglês.

[3] Combinar em inglês, mas no futebol dava o sentido de jogo, partida, disputa.

[4] “O futebol é coisa inglesa ou nos chegou por intermédio dos arrogantes e rubicundos caixeiros dos bancos ingleses, ali, da Rua da Candelária e arredores, nos quais todos nós teimamos em ver lordes e pares do Reino Unido.” Lima Barreto. FEIRAS E MAFUÁS. São Paulo, 1956, p.170

 

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