Planeta Terra: Lotação esgotada?

03/06/2012 19:52

Alex Oestreich

O fato de se ter atingido a incrível marca sete bilhões de habitantes espalhados – não uniformemente – pelo planeta, levou a uma infinidade de “reportagens especiais” e análises generalizadas, nos mais diversos meios de comunicação possíveis. Porém para além da mera curiosidade, o que muda com a incidência dessa cifra astronômica? De que forma o nascimento do bebe nº 7 milhões pode contribuir – ou não – para o mundo? E quais as possíveis análises que se deve fazer a respeito de tal fenômeno? Todas estas perguntas ficam sem resposta se o local por onde se busque respostas para tais perguntas sejam os canais tradicionais de notícias. De modo geral, as agencias de notícias trabalharam este tema sob dois eixos principais: Primeiramente pela mera curiosidade, trazendo estatísticas e análises de casos específicos como a constituição de populações em locais diferenciados, densidade demográfica e etc. Em segundo lugar, analisou-se de modo descontextualizado tal fenômeno, inserindo-o em um discurso apocalíptico e com toques neomalthusianos e darwinistas, pronto para pintar um retrato de miséria e caos a nível mundial pela incapacidade de produzir alimentos suficientes.

No último domingo, dia 27/05 foi ao ar em horário nobre o segundo episódio de uma série de “reportagens especiais” produzidas pelo programa fantástico da rede globo, chamado Planeta Terra: Lotação esgotada. A série é fruto do alardeado novo recorde populacional atingido, sete milhões de habitantes no planeta. Visa em ultima analise atemorizar a população sobre os perigos da escassez de alimentos criando um novo mito (Todos devem lembrar-se da farsa do aquecimento global amplamente divulgado pela emissora e peremptoriamente desmentido por entidades e especialistas no assunto) baseado no poder e alcance desse meio de comunicação no seio da sociedade brasileira.

Desde os idos tempos da ditadura militar, a rede globo se consolidou como meio de informação e entretenimento privilegiado da maioria da população brasileira. Meio de comunicação conservador e monopolista, buscou ao longo dos anos imporem uma visão de mundo ao povo brasileiro; E não em raras vezes através de manipulações e distorções de informação determinou a forma pela qual a maioria da população pensava a respeito de diversos temas. Ainda que tenhamos superado a questão do monopólio da informação dos grandes grupos de mídia, através do poder libertador da internet, que democratizou o acesso à informação... Ainda há muitos, e são muitos mesmo, brasileiros que tem na rede globo o seu principal meio de informação. É neste contexto que essa série de reportagens se insere.

Contrariando a lógica, as reportagens se pautam pelo fornecimento de respostas e soluções, mesmo sem que tenha havido a formulação de perguntas ou se pensado a respeito do problema proposto. Após uma pequena explanação sobre alguns dados analisados de forma fria e sem critério, é mostrado a forma pela qual alguns países lidam com a “superpopulação”[1]. China e Ruanda são mostrados como exemplos a serem seguidos, a primeira através da política de filho único e a segunda mediante a utilização do turismo como fonte de renda. Já a Índia, pobre índia, não parece ter solução para a população que não para de crescer; o panorama traçado para este país é o pior possível, caso não ocorra uma ação direta do estado como na China ou em Ruanda. Fazendo jus a seu passado autoritário, a emissora tende a mostrar que a saída para o problema da pobreza e a fome é, ou a atuação direta do estado sobre as liberdades individuais (retirando dos indivíduos a liberdade de escolha de quantos filhos querem ter), ou através da reprodução da pobreza e precariedade das condições sociais (Mostrando como única possibilidade de salvação, a exploração dos espaços naturais e a imposição de papeis pré-definidos às populações pobres – guias turísticos).

Para além dos discursos fantasiosos e sensacionalistas, atingir o número de sete bilhões de pessoas no mundo, deve ser utilizado para analisar de modo critico, históricizada e sensato as possibilidades do atual modo de produção. Vivemos em um planeta tão desigual, pautando pela miséria e pela fome; porém qual a origem dessa situação? Será mesmo culpa do número de pessoas que habitam o planeta, a existência de pobreza e fome ao redor do mundo? Obviamente caracterizar a origem da fome e da pobreza ao excessivo número de pessoas no mundo, é atribuir a culpa da pobreza ao próprio pobre. Ou seja, uma incoerência e falta de senso critico, gritantes!

Manipulando informações, dados e criando uma narrativa negativista do futuro Global, esta emissora subtrai do povo brasileiro a possibilidade de reflexão sobre um tema importante: A desigualdade produzida pelo atual modo de produção. O foco das reportagens foi muito bem trabalhado para mascarar a verdade por trás da sucessão de fatos descontextualizados fornecidos.

De fato vivemos em um mundo em que as áreas para cultivo estão atingindo seu limite critico, da mesma forma que a afirmação que áreas nas quais há maior concentração populacional tendem a ter as condições de vida mais precarizadas (Porém isso não é uma constante) não está de todo errada. Mas a razão para tal situação exacerba em muito o discurso simplista da incapacidade de suprir as necessidades básicas em função da falta de alimentos. Atualmente a taxa de tecnologia agregada à produção de alimentos é muito alta, permitindo produzir muito em pequenas áreas; basta analisar a produção de grãos no Brasil para ter ideia do tamanho colossal que a produção agrícola pode chegar. Do mesmo modo, a pobreza que se produz e reproduz nas grandes cidades não é fruto da indolência das classes desfavorecidas, mas sim de um fator determinante para que haja esse abismo entre as classes: a má distribuição de riqueza e produção. Tema caro a diversos estudiosos brasileiros como Milton Santos, Melhem Adas e Josué de castro, para citar alguns, a má distribuição da produção alimentar e de riqueza é o problema central a ser discutido quando se fala em impossibilidade de manutenção do numero de pessoas no planeta.

O problema não é a incapacidade produtiva, pois desde muito tempo, a produção mundial de alimentos é suficiente para alimentar todo o planeta com uma dieta rica, capaz de erradicar o problema da fome. O problema encontra-se no âmago do processo de produção e nos leva invariavelmente a uma questão: o que fazer quando a comida torna-se um produto financeiro??  

Local privilegiado para esta analise, o Brasil tornou-se desde muito cedo um grande exportador de commodites, tendo como destino principal da produção nacional, o mercado internacional pronto a pagar altas cifras pela produção alimentícia. Não só o Brasil, mas a grande maioria dos países em desenvolvimento encontrou na exportação da sua produção a origem da sua obtenção de riquezas. O destino dos alimentos não é a boca daqueles que tem fome, mas o mercado financeiro que desde muito tempo aprendeu a estabelecer valores de mercado a itens de importância fundamental. Logo, a produção não é voltada para o homem, mas sim contra ele.

O problema é tão grave, que recentemente o diretor-geral da FAO (Órgão da ONU responsável pela alimentação e agricultura), José Graziano da Silva – primeiro brasileiro a ocupar lugar de destaque na ONU – citou a necessidade imperiosa de retirar do sistema de especulação financeira, as matérias-primas agrícolas sob a pena de em poucos anos se tornar impossível alimentar boa parte da população mundial.

Essa realidade é intencionalmente esquecida ao longo da reportagem do fantástico, que está mais preocupa em inculcar medo e histeria coletiva na população brasileira. Estigmatizando ainda mais o papel do pobre e dos menos favorecidos, trazendo ao campo do senso comum a ideia que a solução para a erradicação da pobreza é atuar sobre o corpo do pobre. A fome deixa de ser um fator social e passa ser tido como fator biológico, deste modo irreversível do ponto de vista humano. A menos que sejam efetuadas ações de controle de natalidade, imposição de posições sociais e etc. Mas então como evitar que a atual situação se agrave?

Em primeiro lugar, deve haver uma severa reorientação produtiva, alterando profundamente a forma da produção tanto de riqueza, como de alimentos. O mercado não pode ser o destino, pois ele é um fim em si mesmo, se retroalimenta de modo a criar riquezas parasitárias, que só tem uma função: gerar mais riquezas para poucos indivíduos através especulação. Em segundo lugar, deve haver legislações mais firmes em relação à entrada de capital internacional ligado ao sistema produtivo, impedindo a fuga de capitais – e de alimentos – para longe do local onde são produzidos... E em terceiro lugar, devem haver regras rígidas que determinem a distribuição de riquezas por todas as searas sociais, a ponto de equilibrar paulatinamente a diferenciação social e impedir a reprodução da fome.

Neste sentido, conclui-se que o problema da existência 7 bilhões de pessoas no mundo, está de longe relacionado com a incapacidade produtiva do atual sistema, mas sim diretamente ligado com a má distribuição dos recursos. Fome e pobreza são duas faces de um mesmo problema: o Modo de produção capitalista e financeiro.

Leia mais:

http://www.onu.org.br/populacao-de-7-bilhoes-demanda-investimentos-adicionais-nos-jovens-afirma-relatorio-do-unfpa/

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/10/mundo-chega-7-bilhoes-de-pessoas-confira-curiosidades-e-numeros.html

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/10/111024_7bilhoes_is.shtml

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/17518/onu+pede+construcao+de+um+mundo+melhor+para+o+bebe+7+bilhoes.shtml

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/17390/populacao+mundial+chega+a+7+bilhoes+ate+o+fim+de+outubro+afirma+onu.shtml

http://www.istoe.com.br/reportagens/172295_UM+MUNDO+7+BILHOES+DE+PESSOAS

http://viajeaqui.abril.com.br/materias/7-bilhoes-de-pessoas-no-mundo-a-partir-desta-segunda-31

 

Notas

[1] Conceito abordado de forma descontextualizada, de forma enviesada, buscando mostrar como o número de pessoas existente em determinado território, leva invariavelmente à fome e à pobreza.

 

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