Percival Puggina, Zero Hora e as cotas

30/10/2012 08:49

Rodrigo Hermano

Acredito que algum sionista em Porto Alegre ou Florianópolis, destes ligados à mídia, esteja sendo prejudicado pelas cotas. Mas não deviam sentir-se abandonados pelo poder público a ponto de buscar abrigo em pseudo-jornalistas. Ao menos a justiça ainda está ao seu lado, afinal, o escândalo do estupro em Florianópolis lhes saiu favorável. Inclusive a pobre menina violentada acabou levando a culpa. Dificuldades para passar no vestibular da UFRGS e da UFSC são comuns, deveriam compreender isso antes de culpar as cotas. Pode ser, também, que alguns patrocinadores ricaços de páginas de jornal andem dando verbas extras aos que são pagos para incutir-nos o caminho da ilusão capitalista. Estes mesmos patrocinam também a reacionária classe média em sua tarefa de catar comida nas lixeiras da Espanha.
 

Percival Puggina, em seu texto de 21 de Outubro de 2012, lembra aquele cachorro egoísta e mau humorado que enquanto come, rosna quando ameaçamos levar a mão ao seu prato. Afirma que a lei de cotas é defendida por aqueles que consideram "justiça" dar privilégios aos negros e aos egressos de escolas públicas. E que, se assim é, devemos justiçar portugueses, alemães e todos os europeus que para cá vieram.
 

Mas o que, afinal, fizeram os europeus com todas as riquezas que tiraram da África e das Américas? Deveriam, pois, todos os limpos, reservados, educados e belos europeus de olhos e cabelos claros, viver como príncipes. O príncipe William, legítima relíquia do século XVIII, digna de um lugar ao lado de Ramsés II no Museu do Cairo, deveria ter sido conduzido em uma Ferrari de ouro pelas Ilhas Salomão, e não em uma bruta e desconfortável liteira conduzida por negros fantasiados. Não foi um tratamento digno do traseiro de “sua alteza real”. Onde estão os frutos dos diamantes cuja extração e compra lhes custou menos de 10 dólares em Angola, e foram vendidos por somas superiores a milhões na Europa? E mesmo os diamantes são mixaria. A maior riqueza da África foi a que sequestramos e trouxemos para a América durante a colonização: o trabalho. Os europeus vieram pra cá por qual motivo? Incapacidade de derrotar os privilegiados em suas nações, mesmo com toda a ciência e tecnologia da qual dispunham? Regimes fascistas que eles mesmos alimentaram? Desrespeito à propriedade privada de algum sujeito de peruca e calçolas?

 

A questão é a seguinte: sua filha namorando um negro. Haveria distinção entre este ou um namorado branco? Se não existir distinção, parabéns, conseguiu enxergar ao outro como ser humano e não como espécime inferior. Infelizmente, sua existência não elimina o fato de que a sociedade brasileira é racista. Ela só pode o ser, afinal, fomos um país escravista. E todos o assumem. Canso de ouvir alguns conformados falando "não quero ser racista, mas quando vejo um negro vindo em minha direção, na calçada, à noite, sinto minha propriedade privada sob ameaça". Isso não é nada. Fatos que a mídia noticiou temos aos montes:
 

-Entre uma dezena de estudantes brancos, na USP, o PM entrou em uma sala, catou o negro e o agrediu. Certamente ofendeu-se com o fato do negro não desejar ser policial militar lambe-botas como ele, e fazer faculdade.
 

-Paulo Pelaipe, do Grêmio Football Porto-Alegrense, supostamente chamou um policial carioca de macaco. Foi conduzido à delegacia, e após alguns acertos entre ele e o policial, que desistiu de prestar queixa, foi liberado. O policial, negro ou branco, infelizmente agiu como um “macaco” diante da situação.
 

-Uma senhora, na Avenida Paulista, em São Paulo, proferiu os maiores absurdos contra os negros e os moradores de rua, sendo, felizmente, detida pela polícia.
 

Com todos estes fatos, concluo que a urgência que existe nas ações afirmativas não é, unicamente, dar aos negros a sensação de ser privilegiados. É retirar da burguesia e da classe média branca a certeza de serem privilegiados. Retirar deles o sentimento que os legitima a tratar, ainda hoje, ao negro como “uma propriedade privada que se rebelou contra mim”. E mais, retirar a hegemonia e os privilégios que os mesmos mantém sobre o conhecimento científico. Pois todos eles assumem, em seus discursos, que "o problema deveria ser resolvido na raiz, ou seja, na educação". Claro, querem resolver de uma forma que não ataque seus privilégios. Vamos tirar o dinheiro de quem pra fazer essas mega-escolas que os delírios de certos "Pugginas" criam? Da saúde? Da infraestrutura do país? De qualquer lugar, menos das empreiteiras e dos bancos. Mesmo que seja, exatamente por conta deles, que nossas escolas andam caindo aos pedaços. Alguns sugerem “acabar com a corrupção”, mas quando a questão é repartir seus benefícios, calam-se, pois não querem ser iguais. Não possuem qualidades que se destaquem, somente o dinheiro lhes traz alguma utilidade neste mundo e nessa existência. Eles, iguais, seriam pulgas miseráveis e frágeis desprovidas de cachorro.
 

E neste ponto, a diferenciação não é mais de cor, é de classe social. Antes de ser um ataque "aos brancos", como Percival Puggina pretende fazer passar, é um ataque contra os acumuladores privilegiados de capital e seus asseclas, os Percivais da Zero Hora. O Iotti e sua infeliz charge de hoje, afirmando que “para passar no vestibular, ou você estuda, ou é negro, ou deficiente ou pobre”. David Coimbra, na sexta feira, já havia se manifestado contra as cotas na mesma “Zero Hora”, sob o propósito inocente de “discutir as discussões”.
 

Puggina afirma também: "O absurdo da lei de cotas é jogar no colo do estudante branco da escola particular o ônus dessas correções". Percival Puggina demonstra, novamente, que é um teórico da desigualdade e da desinformação. Um sujeito cuja função é aprimorar os mecanismos da burguesia para tornar a todos os seus leitores conformistas. Pobre estudante branco de escola particular! Será que algum dia este já foi para a escola descalço? Já passou fome durante a aula e aguardou ansiosamente a hora da merenda pra receber um prato de canjica com mais caldo do que milho? Já viu a fila no cinema para assistir o "filme da moda", pediu à sua mãe para entrarem e ouviu um "não, meu filho, eu estou sem dinheiro"? Já foi humilhado pelo professor ao demonstrar incapacidade de lidar com determinados campos do saber? Se o fosse, seus pais simplesmente o trocariam de escola, sem ter de correr às centrais de vagas e às escolas atrás de espaço para que seus filhos estudem e mantenham-se longe das armas.

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