Para o gigante, que acorda e dorme tranquilo, não se apequenar

22/08/2013 09:25

Gabriel Kummer

- Derrotamos a primavera! Promovera Fukuyama [1] com a teoria do fim da história e a vitória final do capitalismo. Nos fins de 88 no Brasil se promulgava a constituição que amarrou um acórdão pacífico com as linhas gerais do regime cívico-militar. Em 2003 o partido de bandeira estrelada e vermelha elegia o primeiro presidente. Dez anos depois, protestos criam espectros de revolução e contra-revolução país afora. O PT encaminhando-se às eleições internas prepara discurso preocupado com o projeto de poder para 2014, que provavelmente ponderará ganhos e necessidade de avançar mais, sendo quê, qualquer semelhança com o discurso de 2010 não será mera coincidência. Na melodia desse samba vale tudo: reafirmar teses de revolução democrática, reforma milagreira do sistema político e até mesmo, voltar a falar de socialismo.

Democracia e cidadania não parecem fazer muito sentido na ditadura do capital globalizado assim como categorizações progressistas à governos devem ser relativizadas. O “melhorismo”, opção política dos governos encabeçados pelo PT mostra-se esgotado, seu programa não alterou a essência neoliberal do capitalismo no Brasil. Em 2003, presidente empossando assumiu postura estadista que foi amplamente aceita pelas 6 famílias que detém 70% dos meios de comunicação do Brasil, conciliando interesses das elites e dos trabalhadores em em prol da estabilidade dessas elites.  O professor José Luis Fiori caracteriza [2] este movimento em adesão ao desenvolvimentismo, porém de esquerda, no mesmo texto, ainda conclui:

o “desenvolvimentismo de esquerda” estreitou tanto o seu “horizonte utópico”, que acabou se transformando numa ideologia tecnocrática, sem mais nenhuma capacidade de mobilização social. Como se a esquerda tivesse aprendido a navegar, mas ao mesmo tempo tivesse perdido a sua própria bússola.

Sobre a bússola da esquerda que o professor se refere, não é preciso ser escoteiro para saber que é a da convergência de um projeto de governo com a pauta dos movimentos sociais. Neste sentido a bússola dos governos que Emir Sader passou a rotular como pós-neoliberais, não forma uma esfera completa, visto que existe na opinião do sociólogo uma “ultra esquerda” que não vale ser ouvida pois não teria nada a dizer devendo até mesmo, ser colocada num mesmo balaio, com a direita:

É um fenômeno geral no continente (latino-americano): os governos progressistas deslocaram a direita e a ultra esquerda, que não encontram forma de acumular força (...) ficam isolados dos processos que se dão em cada país e do grupo de governos progressistas na América Latina, que representam o contraponto internacional ao eixo neoliberal ainda hegemônico no capitalismo mundial. Não conseguem apoio em nenhum dos países com governos progressistas, frequentemente aparecem aliados à direita, considerando aqueles governos como seu inimigo principal.

Mesmo assim, neste balaio, a direita orgânica acaba sendo ouvida e atendida. A ultra esquerda de Emir Sader, foi muito bem criada, para duvidar e negar do/o patrão e, a direita tem o mesmo interesse do patrão... A idéia de contraponto internacional ao eixo neoliberal levou o sociólogo a caracterizar as gestões como pós-neoliberais[3], rubrica questionável se pensarmos na camarilha executiva dos governos e a relacionarmos num âmbito filosófico, às opiniões de Marilena Chauí sobre classe média [4], que sonha em tornar-se classe dominante e tem o pesadelo de tornar-se proletária. Este “distúrbio” deve ser o mal-secreto do Estado burguês, de ter como função essencial conciliar os antagonismos das classes sociais e, portanto, sendo instituição essencialmente conservadora e reacionária. O PT, neste caldeirão está cada vez mais organicamente reformista considerando o processo de ganhos eleitorais e o conseguinte deslocamento de pessoas para as tarefas de governos.

-Só não me venha com Marx paz e amor...

Pacto social e os trabalhadores

Sendo o Estado fundamentado nos pilares constitucionais burgueses, as gestões do PT intentam implementar a máquina até esgotar o republicanismo, sendo esta premissa largamente defendida por suas correntes internas. Cumprir com eficácia o papel burguês é motivo de orgulho por estes grupos que não enxergam os limites do aparelho estatal, quiçá para além destes, parece que perderam suas capacidades de sonhar (ou de dormir?) de tanto valia para a superação da bárbarie. O partidário Ali Ruckert, cidadão luxemburguês, em seu texto sobre o impacto negativo do pacto social sobre os de baixo[5], nos leva a considerar o pacto social, muito bem representado com a Carta aos Brasileiros de 2003 [6], elemento importante da troca de FHC para Lula, como uma subida de nível no próprio pacto social de essência, neoliberal.

Para piorar a situação, além das contradições econômicas evidentes, não são raras as vezes que importantes figuras públicas dos governos fazem coro com os meios de comunicação na agressão à “ultra esquerda”. Arruaceiros, vândalos, terroristas, corporativistas, esquerdistas gritaram os porta-vozes da burguesia; direção criminosa de um movimento sem direção tacha o Estado utilizando-se para tanto da mesma terminologia para justificar os atos de criminalização dos movimentos sociais. Este tipo de diálogo enviesado emanado pela instituição-Estado, é o ideal de concentração de classe para com jovens trabalhadores que vendem mais horas de seus dias para o capital que um servo do período feudal?

No que tange a violência, a máquina estatal começou a produzir estatísticas sobre a violência contra a mulher, houveram especulações tímidas sobre a carteira de identidade social e na última semana “escapou” do Senado o Estatuto da Juventude que dentre seus princípios salienta-se o da cultura da paz. A juventude já ouviu falar deste princípio, ele ressoa nos auto-falantes de carros brancos pintados com letras quadradas que não se parecem com grafite... Se o escravo do Brasil colônia que o padre jesuíta Antonil orientava os senhores de engenho ao regime dos três P, pão, pau e pano, o trabalhador contemporâneo é oprimido sob o regime do papel (monetarizado), pau das instituições de segurança pública/privada e pano produzido por trabalhadores ilegais. Mas sobre os trabalhadores e dignidade humana evoquemos aqui Ricardo Antunes [8]:

Há uma realidade profundamente crítica em todas as esferas da vida cotidiana dos assalariados. Na saúde pública vilipendiada, no ensino público depauperado, na vida absurda das cidades, entulhadas de automóveis pelos incentivos antiecológicos do governo do PT. Na violência que não para de crescer e nos transportes públicos relativamente mais caros (e precários) do mundo. (...) Na Copa "branqueada" sem negros e pobres nos estádios que enriquecem construtoras e que, no caso do Engenhão, está desmoronando; nos assalariados que se endividam no consumo e veem seus salários se evaporar; no fosso colossal existente entre as representações políticas tradicionais e o clamor das ruas. Na brutalidade da violência da Polícia Militar de Alckmin e Haddad. Isso ajuda a compreender por que o movimento pelo passe livre encontra tanta acolhida na população. Estamos só começando.

Movimentos sociais de esquerda, com as agendas em convergência intensificaram a luta de classes numa proporção que governabilidade da ordem vigente, do status quo, não esperava. Em meio à isso, destaque para o movimento político de desdizer que a Rede Globo assumiu com o intelectual orgânico Arnaldo Jabor para cooptar as manifestações. 4 dias-calendário demoraram para o discurso da presidente de propor um novo pacto social pautado por ordens como cidadania, liberdade e democracia. A pauta de democratização dos meios de comunicação viu-se assim urgente como a da reforma política, esperanças para a retomada de uma utopia democrático-socialista pelas vias republicanas. As duas pautas se aprovadas, decretariam o fim da manipulação do sistema pelas elites como se acabasse com os corruptores num passar de olhos, fantasia num republicanismo sitiado pelo 4º poder. Na ditadura do capital, as condições objetivas para uma revolução sempre estão colocadas, só não enxerga quem faz esforço para não enxergar.

Notas:

[1] O teórico do neoconservadorismo, Francis Fukuyama discorre sobre a tese no livro "O Fim da História e o Último Homem" ("The End of the History and the Last Man", 1992). Para medir a febre do cientista político norte-americano recomenda-se leitura de seu artigo “A Revolução de Classe Média” publicado no Wall Street Journal e comentado pela BBC Brasil no site http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/06/130630_fukuiama_wsj_rp.shtml

[2] FIORI, José Luis. “O desenvolvimentismo de esquerda”. Localizado em  http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5495

[3] SADER, Emir (org.) “10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil”. Boitempo Editorial

[4] CHAUÍ, Marilena. “Uma Nova Classe Trabalhadora” in SADER, Emir (org.) “10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil”. Boitempo Editorial.

[5] RUCKERT, Ali. “La ideología del “pacto social” y su impacto negativo en la clase obrera”. http://www.iccr.gr/site/es/issue3/the-ideology-of-lsocial-partnershipr-and-its-negative-impacts-on-the-working-class.html

[6] Carta ao Povo Brasileiro, apresentada em junho de 2002 disponível em http://www.democraciasur.com/documentos/BrasilLulaCartaPovoBrasil.htm

[7] ANTUNES, Ricardo.  “Fim da Letargia”, localizado em http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/06/1298008-ricardo-antunes-fim-da-letargia.shtml

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