O Rolezinho põe as cartas na mesa

16/01/2014 08:42

Davenir Viganon

As cartas estão na mesa, não há como a mídia corporativa contra-argumentar em relação aos rolezinhos que apavoram a classe média do país sem cair no racismo e foram os rolezinhos que as colocaram lá. Boris Casoy, no Jornal da Band do dia 13 deste mês, em seus comentários opinativos, pisou em ovos para não ser pego na tampinha novamente e repetir seu episódio com os garis[1] (que não deu em nada) , mas buscou lançar sua semente da dúvida ao dizer que podem haver alguns indivíduos que vão aos rolezinhos para roubar, enquanto outros vão para se divertir. Está lançada a teoria dos “rolezeiros pacificos” e “rolezeiros vândalos”. Mas como diferenciar os que roubam buscando pela cor da pele e pelas roupas que usam (que por sinal são vendidas no shooping)?

Se andar "de Christian ou de Oakley, De Tommy ou de Lacoste" é motivo de abordagem por que não abordam os donos das lojas que vendem essas marcas?

A polícia não anda preocupada em ser sutil, ou melhor, cidadã, pois ela já tem suas ordens comprováveis em documentação que determina claramente os tipos de indivíduos que tem preferência na abordagem. O documento que vazou da Secretaria de Segurança de SP[2] ano passado causou tanta surpresa quanto as denúncias de Bradley Manning e Edward Snowden, a saber, nenhuma. Porém, fatos comprovados são difíceis de ignorar e tem uma importância evidente de colocar as cartas na mesa, sair do campo da especulação, onde tem pouca credibilidade, e de conclusões tiradas anteriormente de análises políticas e sociológicas, usando dados estatísticos e pesquisas não tão óbvias ao senso comum, mesmo que tenham credibilidade.

Como uma nova movimentação da sociedade, os rolezinhos são rotulados a força pela mídia, como no Leito de Procusto, na formula tacanha de “vândalos x pacíficos”. Esta cada vez mais patética e sem argumento, pois não há vândalos para procurar, ao menos não os vândalos “clássicos” das Jornadas de Junho de 2013 pois não há flagras da tão temida destruição do patrimônio público para manejar com a edição, menos ainda no sacro-santo patrimônio privado encontrado nos shoppings. Os rolezinhos estão quebrando e combatendo a rotina de segregação desses espaços, sabidamente frequentados majoritariamente pela classe média branca. Espaços esses que foram erguidos, por vezes, empurrando áreas residenciais pobres.

Na vã tentativa de justificar o perigo trazido pela pele negra em recinto branco, os racistas mais sinceros relembraram os arrastões dos anos 90. Mas quem faz arrastões? Um grupo de jovens que querem ocupar o espaço sem respeitar a etiqueta da classe média ou as desapropriações de áreas pobres pela especulação imobiliária? Aliás, se é para falar do perigo de roubo a propriedade privada, quem perdeu mais propriedade privada, os donos das lojas dos shoppings vitimadas pelo rolezinho ou os habitantes do pinheirinho despejados brutalmente num verdadeiro massacre, ainda impune?

A presença de uma quantidade inesperada de jovens das periferias nos shoppings, literalmente dominando o espaço e quebrando o ritual usual do consumo, usufruindo do espaço ao seu próprio modo, expõe uma das mais básicas contradições do capitalismo. Não basta ter o dinheiro para adquirir o material bruto, enquanto todo o anima que emana das mercadorias, circula pelo espaço do Shopping e distingue classes não pode ser comprado pelos rolezeiros, pois é parte fundamental das relações mediatizadas pelo material que são especificas da classe média frequentadora daquele espaço. O templo do consumo, os shopping centers institucionalizaram o “apartheid brasileiro”, expondo do que são feitas as mercadorias e como o racismo e capitalismo, como diria Steve Biko, são os dois lados da mesma moeda.

Ainda há muitos rolezinhos por vir, mas o certo é que eles estão colocando as cartas na mesa, evidenciando o racismo no Brasil e até agora a mão da mídia anda bem fraca.

Notas

 

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