O poder da mulher que goza!

18/09/2012 09:08

Davenir Viganon

Novela é novela, quem viu uma viu todas. Dizemos isso por que a novela possui características que se repetem a cada folhetim lançado na tela global, A idéias de que só existe bem e mal, de alimentar sonhos de mudar de vida rapidamente, estão entre essas muitas características. A novela tem um poder de incutir suas opiniões e valores na cabeça do brasileiro como nenhum outro instrumento da mídia possui. Não é atoa que é o programa preferido do país, claro que esses valores não são inventados do nada e sim são rearticulados sobre o imaginário popular. A cada novela é transmitido ao telespectador a mesma mensagem de maneira diferente para assim manter seu público.

É de tal maneira a sutileza das mensagens e valores que novela passa que é difícil até convencer o telespectador comum de que se passam mensagens nesse tipo de programa, afinal “é só entretenimento”. Ainda é possível ouvir: “é bem como acontece na realidade” afinal o julgamento feito pelos personagens a pré-determinadas situações forma uma sugestão fechada em sua lógica e é muito difícil quebrar essa barreira e ver além do que é encenado ali na telinha.

De maneira a facilitar esse julgamento sumário que é encenado temos a naturalização do maniqueísmo na vida cotidiana, evidenciado pela presença sempre marcante de um mocinho (a) e um vilão (ã). Na novela que passa atualmente, Avenida Brasil de João Manuel Carreiro, inverteu as posições ao apresentar uma vilã que vira mocinha e vice-versa no decorrer da história.

Mas essa mudança mascara o que realmente importa na relação dual entre bem e mal: a sua perpetuação, pois mesmo os personagens trocando de posição a relação continua, apenas os rostos mudam, mas continuam a mostrar um tipo ideal de “boa pessoa” e “má pessoa”. A cada situação que o personagem vive esconde-se um induzir ao julgamento que é sumariamente reproduzido pelos telespectadores durante o resto de seu tempo.

Na relação de gênero entre os personagens fica bem evidente essa indução ao julgamento sumário. Na novela em questão, se encontram o machão, os homens do subúrbio do bairro do Divino, que tem de lidar com um novo elemento, a piriguete Suelem, vivida por Isis Valverde. Aproveitando a pauta levantada pela marcha das vadias, foi introduzida na novela essa mulher com um pensamento mais “progressista”, a piriguete, pois ela representa a mulher que goza, que sabe como e quer fazê-lo.

Minha critica como um todo vai se dirigir no modo de como essa mulher que goza é passada na telinha. Ora, o controle do próprio corpo da mulher não se restringe a apenas “dar para quem quiser sem culpa”, mas também envolve questões mais delicadas como, por exemplo, a legalização do aborto. Mas ao invés de abordar essa importante pauta na sociedade, a trama global suprime esse debate e diminui a questão aspectos econômicos e moralistas. O que a Suelem faz com sua liberdade corporal? Na trama ela tenta dar o golpe da barriga em três homens ao mesmo tempo e em outra oportunidade aproveita para posar nua numa revista, entre outras coisas, tudo para conseguir um dinheirinho e exercer controle sobre os homens do bairro. O golpe da barriga é naturalizado com bom humor das cenas e carisma da personagem. Suelem mostra que é assim que se dá o troco nos homens.

Voltando a questão do bem/mal, a relação de poder entre o homem dominador e mulher dominada se inverte na novela. Mas o modo como se dá essa dominação feminina ocorre de maneira diferente. Suelem confirma de certo modo os grandes temores do típico macho que se cerca dos símbolos típicos - futebol, bar, patrão, garanhão e malandro – como a mulher que vai traí-lo, tirar-lhe dinheiro, vantagens, dominá-lo e privá-lo da exclusividade sobre o usufruto de seu corpo. A idealização da mulher que goza é associada então a idéia de que “Vejam só homens! é isso que acontece se deixar-mos a mulher fazer o que quiser!”.

Talvez por ser piriguete seja um símbolo de mulher a frente do seu tempo (1), mas acredito que da forma como foi e está sendo retratada foram convenientemente subtraídas várias pautas importantes do feminismo e a abordagem mostrou apenas o lado negativo da mulher que rompe barreiras e se iguala ou supera os homens como apenas para tirar vantagem financeira e naturaliza tudo isso como bom humor. A mulher que goza da rede globo é apenas uma mulher que quer tirar vantagens financeiras e até sexuais dos pobres homens e anular a questão política. Mas um telespectador comum pode muito bem dizer que a novela não tem obrigação de abordar as questões políticas. Essas questões que a novela naturaliza na personagem na verdade são extremamente políticas, apesar dessas questões serem alienadas desse sentido.

Segundo Kate Millett a esfera do político e do privado separou questões que na verdade todas políticas e essa separação se dá por gênero. Assim as consideradas esferas publica referentes ao homem (política, educação, profissão, artes) e a privada referente a mulher (Família, assistência, criação, educação dos filhos, trabalho doméstico) são todas pertencentes a política e na separação a mulher é excluída da política. Agora a maneira que a mulher seria introduzida na política gera duas opiniões contrastantes: Uma gira em torno da supressão da desigualdade e outra em torno da celebração da diferença que por sua vez derivam em inúmeros posicionamentos discutidos pelas feministas. O choque entre as tradicionais ideologias (comunismo, liberalismo) com o feminismo, obriga a uma adaptação do machismo considerado comportamento comum a época da disseminação dessas idéias.

A piriguete da novela tem sucesso ao abordar a questão da liberdade da mulher e esvaziar o aspecto político das relações de gênero. Promovendo uma lógica deturpada de que se supostamente inverter os papéis entre o “bem” e o “mal” nada vai mudar, nada adianta o homem deixar de dominar a mulher; nada adianta se o rico deixar de dominar o pobre. O poder da mulher que goza é reduzido simplesmente em gozar!

Leia mais:

HEYWOOD, Andrew. Ideologias políticas: do feminismo ao multiculturalismo. São Paulo. Ática,2010.

(1)http://www.feminismo.org.br/livre/index.php?option=com_content&view=article&id=99994207:de-cleopatra-a-suelen-de-avenida-brasil-a-evolucao-das-piriguetes-na-historia-e-o-que-elas-nos-ensinam&catid=125:geral&Itemid=531

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