O Físico e o Islã que não conhecemos

21/10/2014 09:15

Davenir Viganon

Mesmo em uma das mais fantásticas séries sobre astronomia e o conhecimento científico do universo já lançadas até hoje, 'Cosmos' de Carl Sagan, podemos notar um vazio que está no pensamento de praticamente toda a nossa sociedade contemporânea (o lado ociental, claro!). Onde andava o conhecimento científico e filosófico desenvolvido na Grécia e em Roma, entre o Helenismo e o Renascimento? A Europa, antes de ser concebida, separada do mundo e colocada no centro deste, antes de passar pelo chamado “período das trevas” não estava isolada no mundo, mesmo neste período. Porém não pretendo analisar 'Cosmos', mas um filme que se passa justamente nesse 'vácuo' histórico.

Em "O Físico", baseado no livro homônimo de Noah Gordon, abriu-se uma porta para esse mundo praticamente desconhecido: do desenvolvimento da ciência no mundo islâmico medieval. Para alguns é novidade saber que a filosofia de Platão e Aristóteles, adormecida na Europa medieval florenciam no mundo islâmico nos estudos de Ibn Khaldun, Alhazem, Avicena entre outros.  Porém diante desta porta, a produção deste filme virou as costas e não explorou este mundo na película.

No filme acompanhamos a história de um jovem barbeiro inglês (o mais próximo a um médico que havia na Europa medieval) que busca aprender medicina com o maior especialista do mundo, Ibn Cina (Ben Kingsley) que foi baseado no estudioso árabe Abu 'Ali al-Husayn ibn Sin que, na forma latina, ficou conhecido como Avicena. Este foi reitor de uma Madraçal na Pérsia. Lá o inglês aprende o que melhor há na medicina de seu tempo e depara-se com tudo que há de exótico do mundo oriental. É ai que o filme comete sua falta mais grave. Gostaria que a minha crítica fosse apenas para o uso de clichês românticos no filme. "Tem que ter sempre um casalzinho!", cutuca minha esposa quando vemos um filme blockbuster e o personagem principal troca olhares com outro. Infelizmente o buraco é mais embaixo.

Na cidade Persa encontramos uma realidade social comum no mundo árabe daquele tempo. Judeus e Muçulmanos conviviam harmoniosamente na cidade, diferente do tratamento que ambos recebiam dos cristãos europeus. Outra característica são as fragmentações do islã e a tensão entre elas. Ao longo do filme evidencia-se uma tensão entre um exército invasor, aliados a uma facção de religiosos fanáticos muçulmanos dentro da cidade que não aceitavam os  judeus que recebiam a acolhida do xá nem os estudiosos 'laicos' que estavam postos a perigo . Esta situação é uma transposição do conflito atual no oriente médio contra a ocidentalização da região. Segundo Ingrid Gomes,

"o Islã está na encruzilhada de ranços históricos entre tradicionais muçulmanos, fundamentalistas reorganizados, outras ramificações que se baseiam na fé islâmica para aglutinar fiéis e agirem violentamente contra o que chamam de ‘Ocidente’ e outros elementos simbólicos desta cultura".  (GOMES, p.74)

O conflito social representado no filme não é improvável, porém é estranho ao momento histórico do islã no período. Isso não se restringe apenas aos conflitos sociais mas também ao modo como eles são retratados. O mais óbvio é o modo como os religiosos fanáticos são representados: São cegos pela religião, dispostos a matar e curiosamente ornando roupas iguais da dos Aialtolás do Irã - sendo que na Pérsia do século XI não que não existiam - didatizando absurdamente o estereótipo do fanático muçulmano. O Xá da cidade no entanto encarna o estereótipo do sultão luxurioso, com seu harém, festas e prazeres frívolos de um tirano violento. Caraterística esta aplicada também aos fanáticos que perseguem os judeus escondidos em suas casas. Essa representação do árabe (que o filme não tenta diferenciar dos persas) já foi extensamente criticada por Edward Said em obras como "Covering Islam" e "Orientalismo"  

"As associações criadas deliberadamente entre o Islã e o fundamentalismo garantem que o leitor comum passa a ver ambos como sendo essencialmente a mesma coisa. Devido a tendência de reduzir o Islã a algumas regras, estereótipos e generalizações à respeito da fé, e de seus fundadores, e de todo seu povo, o reforço de todo fato negativo vinculado ao Islã – sua violência, primitivismo e atavismo, qualidades ameaçadoras – é perpetuado. E tudo isso sem nenhum esforço sério de definir o termo 'fundamentalismo', ou dar um significado preciso ao 'radicalismo', ao 'extremismo', ou contextualizar esses fenômenos (por exemplo, dizer que 5%, ou 10%, ou 50%, de todos os muçulmanos são fundamentalistas) (SAID, 2007, p.xvi- -xvii – Tradução nossa)."

Cena em que o herói é preso por "aiatolás" em plena Pérsia do Século XI, No detalhe: Aiatolá Khomeine

Um dos pontos que Said critica ao trabalhar o conceito de orientalismo é de que os orientais não tem direito a contar a própria versão de sua história. Nesse ponto "O Físico", ao privilegiar um personagem principal europeu, cristão, de olhos claros se assemelha a "Lawrence da Arábia" e tantos outras histórias contadas a partir do ponto de vista de um ocidental que encontra um mundo exótico no oriente e não de um habitante local.

O filme também trabalha com uma falsa oposição entre a religião e a ciência no mundo muçulmano, quando a religião muçulmana era extremamente favorável e incentivadora da pesquisa científica e de sua experimentação. Isso a diferenciava do pensamento grego pouco afeito a este campo de experimentação científica. A ciência floreceu no mundo muçulmano justamente pelas condições que esta sociedade oferecia tanto na religião como na economia para então retornar com toda força na Europa no periodo do Renascimento.

O ponto forte do filme é a representação do mundo europeu medieval, onde o controle da igreja mostrava a dificuldade de penetração de ideias que já estavam muito ativas no mundo muçulmano. Contudo esta foi apenas os 20 primeiros minutos do filme que no seu todo perde uma oportunidade maravilhosa de preencher esta lacuna do conhecimento de muitas pessoas no ocidente.

Referências

GOMES, Ingrid. A cobertura jornalística do Islamismo – narrativas marginalizadas e moralizantes. Intercom – RBCC. São Paulo, v.37, n.1.

Física Islâmica Medieval. Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Madra%C3%A7al

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