O drama da classe-média nas manifestações

19/06/2014 13:26

Vinicius Siqueira do Colunas Tortas

O portal G1 publicou um vídeo em que pai e filho discutem durante a manifestação contra a copa, ocorrida nesta quinta-feira (12) nos arredores da Arena Corinthians. A gravação mostra um garoto de 16 anos brigando pelo direito de se manifestar e um pai reivindicando sua posse do filho. O vídeo abaixo não conta com a fala da jornalista Leilane Neubarth, mas ela pode ser vista neste link, direto do site da Globo.

“Você é meu filho, você não foi criado pra isso”, diz o pai, que recebe um “tanta gente morrendo, eu quero o meu direito, deixa eu ir atrás do meu direito!” em resposta. O pai também avisa o filho que, caso ele queira protestar, ele primeiramente precisa arranjar um emprego, e complementa com “você tem educação, eu te pago escola!”.

O filho, por sua vez, repete incessantemente a necessidade de exercer seu direito de protestar pela construção de escolas, hospitais e contra todo o “povo manipulado”. Em meio a tudo isso, a apresentadora Leilane Neubarth contextualiza precariamente a situação. Segundo ela, “o bonito neste caso, é que os dois argumentam e cada tenta convencer com o seu argumento, exclusivamente na argumentação, sem violência [...] depois destes momentos, o pai conseguiu convencer o filho a ir pra casa”.

Pai vs Filho

Este é o drama da classe-média pois, ao mesmo tempo, ela vaia Dilma, exige que a corrupção seja abolida, exige mais hospitais e mais educação, mas não se arrisca indo para as ruas. O pai, como esperado, exalta os valores do trabalho e da obediência, enquanto o filho, como também esperado, não consegue ir além da superfície do discurso político.

O filho de 16 anos ainda não consegue articular corretamente o discurso político e o pai consegue usar a autoridade que lhe é concedida pela sociedade sem maiores problemas. O resultado disso é a aprovação que ele tem nos comentários espalhados pelo facebook.

O drama da classe-média, portanto, é ser contra algo e não poder protestar, para não ser “baderneiro”. A classe-média protesta de roupa branca, protesta no facebook, protesta na cabine eleitoral e na arquibancada VIP do estádio. Seus filhos, movidos pelo impulso à desordem típico da juventude, são castrados sistematicamente para entrarem na lógica da obediência ressentida, representada tão claramente pelo pai.

A apresentadora

No entanto, a apresentadora é a pessoa mais nociva de todo esse vídeo. Leilane faz parecer que este drama é algo universal, faz parecer que este é um drama comum e que ele se desenvolveu e foi resolvido de maneira democrática. Pela fala final da jornalista, podemos ser levados a pensar que tudo isso se passou numa Ágora grega, num espaço público de debate onde a democracia era exercida por aqueles que podiam e tinham a capacidade de discursar.

Tudo se passa como se pai e filho estivessem se relacionando horizontalmente e “sem violência”, como a própria apresentadora diz. Entretanto, pai e filho nunca estarão se envolvendo de igual para igual. É óbvio que a relação é desigual e é óbvio que o pai sempre terá mais legitimidade que o filho. Evidentemente o pai não tem argumentação nenhuma (e nem o filho), mas ele é elogiado nas redes sociais, não por ter razão, mas por ser pai e exercer sua autoridade de pai contra a suposta imaturidade do filho.

A violência acontece quando o pai pega o filho pelo braço e o joga contra o carro, quando retira a máscara de seu rosto e quando o obriga a entrar no carro. Não há discussão, há repressão – repressão que um pai é autorizado a exercer sobre seu filho. Ao contrário do que foi dito por Leilane, o pai não convenceu o filho a ir pra casa, o pai o obrigou, exercendo o poder que lhe é garantido socialmente.

É interessante para a grande mídia apresentar situações como essa, claramente desiguais, como exemplos de democracia, pois nessas situações, o lado minoritário sempre perde. Quando elas são apresentadas como situações democráticas, pode-se dizer que o lado minoritário perdeu não por uma questão de poder, mas por uma questão de racionalidade. Perdeu porque não tinha razão. O que é mentira! A razão sempre está na mão de quem pode exercer mais poder.

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