Noticia e mídia no Brasil (XIV) Discurso da imparcialidade, revistas semanais e jornais populares

10/09/2013 09:09

Alex Oestreich e Davenir Viganon

De originalmente folhetins e jornais comprometidos abertamente com a causa política de determinado grupo partidário, até os dias atuais. Os jornais e revistas e demais meios de comunicação brasileiros passaram por um incontável processo de alterações significativas, seja no formato, no conteúdo, na perspectiva e etc. devemos atentar até que ponto houve modificações de fato nestes meios.

De meros propagandistas políticos que se limitavam a atacar abertamente os adversários de sua visão, os jornais e revistas sofisticaram-se e atualizaram-se com os processos mais modernos de imprensa. Adequaram-se às necessidades de uma sociedade capitalista e liberal. Atualmente não vemos uma revista, ou jornal atacar diretamente uma figura publica que vai contra os seus interesses (ou será que vemos?). Qual a diferença que existe entre os meios de comunicação da atualidade e os de antigamente? Apenas uma palavra: Imparcilaidade!

A inserção do conceito de imparcialidade nos meios de comunicação abriu a porta da mídia para uma forma muito mais sutil de utilitarismo da imprensa em favor de perspectivas individuais. Certa vez um pensador, já havia dito que a intencionalidade de um discurso está muito mais vinculado àquilo que não é dito, do que naquilo que é dito. E seguindo esta perspectiva que a mídia brasileira escondida atrás da proteção da imparcialidade passou a omitir, e em muitas oportunidades a mentir abertamente – quando não a inventar – sobre os fatos que noticia. Em favor da tão apregoada imparcialidade, vemos jornalistas saírem em ataque direto a figuras públicas, defendendo determinada visão de política ou de estruturas econômicas. Sem sequer citar uma linha sobre a perspectiva contrária, e quando o fazem é de maneira a detratar. Então, onde está a imparcialidade? Os jornais, as revistas e etc. Não são entidades separadas do plano sócio-político, isentas de interesses. São a representação mais palpável dos grupos que os possuem, como expressões de um poder monopolista, tem interesses muito bem definidos nos setores: econômico, político, social e etc.

Advento dos jornais populares

Os jornais têm perdido espaço para outras mídias, não pode ser negado. Isso se reflete através das tiragens que tem diminuído a cada ano. O primeiro lugar das listas de maiores tiragens[1] entre 2002 a 2012[2], que em 2002 alcançaram uma tiragem média diária de 346 mil exemplares desde 2009 não chega perto de 300 mil exemplares.

 

Jornais populares[3]

Os números poderiam ser bem piores, pois desde o fim dos anos 90, foram lançados vários jornais populares que ocuparam várias posições dos 10 mais vendidos. Basicamente são jornais com menos páginas, qualidade jornalística inferior, e constante apelação ao popularesco e com formato de tablóide. O que tem se mostrado como uma saída financeira dos jornais de nome e tradição. Os de maior tiragem no Brasil são o Extra (1998) do Rio de Janeiro pertencente a Globo, Diário Gaúcho (2000) do Rio Grande do Sul pertencente ao grupo RBS e Super Noticia (2002) de Minas Gerais do Grupo SADA[4].

Esses Jornais tem seu publico alvo bem definido. Pessoas de baixa instrução, e pouca renda que apesar de saberem ler não tem o hábito de ler textos grandes e se afastam das publicações tradicionais com suas análises relativamente complexas. As noticias se focam em temas cotidianos como futebol, violência, fofocas de celebridades com direito a fotos sensuais de mulheres mais ou menos famosas, não há destaques para assuntos de relevância maior para o país. O texto é curto, direto, às vezes se vale de gírias e não possui contextualização dos fatos que aborda, sendo rotineira a individualização dos casos.  A tendência política dos jornais é a mesma dos grandes grupos de mídia, que os lançaram, mas entoando um discurso muitas vezes depreciativo das próprias classes populares a quem se destinam.

Vale lembrar que não é a primeira vez que jornais tentaram abocanhar a fatia popular de consumo. O Correio do Povo quando foi lançado em 1895 já tinha essa proposta, assim como o Última Hora da Era Vargas. Mas essa onda de jornais populares avança no sentido de buscar camadas de baixa renda da população não contemplada nos outros casos. Outra coisa a atentar é o fato desses jornais serem criados por donos dos jornais tradicionais. Em uma analogia são como uma “Marca de Combate” do ramo de alimentos que servem para desbancar a concorrência com preços baixos, sem alterar o valor e o ritmo da venda de seu produto principal, buscando isolá-lo da concorrência. Mas muitos desses jornais acabaram por devorar parte do público de seus próprios produtos principais, não evitando a queda dessas tiragens. O público acredita que está levando um produto pouco diferente do de preço superior confiando a marca.

Revistas semanais

Se de um lado os jornais populares se alastraram na população mais humilde, as publicações mais que buscam a outra ponta do público, há algum tempo presenciam uma verdadeira guerra entre as principais revistas jornalísticas semanais do país. São quatro que disputam entre si as vendas desse formato: Veja (1968), Editora Abril de Roberto Civita, Carta Capital (1994) da Carta Editorial de Mino Carta, Época (1998) das Organizações Globo e a Istoé (1976).

Em especial as duas primeiras, tem promovido nos últimos anos uma disputa das semanais incentivada pelas posturas ideológicas de cada revista. Das quatro apenas a Carta Capital tem orientação de esquerda enquanto as outras três são claramente de direita. Mas dentre essas três a Veja se destaca pelas posições mais claramente reacionárias que as outras como o próprio Leandro Narloch (empregado da Abril) admite que “a Veja é muito amarga”. A Carta Capital ainda sofre boicote da grande mídia pela sua orientação política, sendo uma exceção do discurso monolítico das revistas semanais. Mas o grande derrotado é o jornalismo. Mesmo sendo a Veja que use exaustivamente seu “Porrete da Adjetivação”, na expressão de Carlos Chaparro, a Carta Capital por vezes acaba se utilizando do mesmo artifício, o que pode levar a publicação, com o tempo a perder seu crédito a ponto de se igualar a sua rival, sem nem ao menos batê-la em numero de vendas.

As revistas semanais de maior circulação no país

O Conteúdo das revistas é geralmente político e econômico, mas também abre espaço para ciência e cultura, mas em menor escala. Devido ao preço, elas têm maior vendagem através do sistema de assinaturas.

Mas uma característica em comum entre os Jornais tradicionais, os “novos” Jornais Populares e as revistas semanais é sua organização empresarial, onde o lucro advindo dos patrocinadores traça uma diferenciação do público desses periódicos. Sua administração é rígida, onde os editores são nomeados e não eleitos e os donos dessas empresas não se resumem a proprietários, mas defendem avidamente seus interesses.

Não estamos aqui querendo aplicar algum juízo de valor sobre as atuações dos indivíduos, ou dos grandes grupos de comunicação que se valem de seus canais próprios de representação. É de praxe que os sujeitos, sejam eles individuais ou representados por seus empreendimentos, busquem maneiras de se proteger seus interesses. Vivemos em uma sociedade onde a liberdade individual é um dos pilares da constituição, mas estamos querendo atentar para o fato de que se há essa intenção de defesa de uma visão aplicada ao uso da mídia, que esta saia de trás da máscara da imparcialidade e passe a assumir a responsabilidade por aquilo que escreve, reproduz e etc.

Referências

GUARESCHI, Pedrinho A. Mídia e democracia.

VIEIRA JR, Vilson. Oligopólio na comunicação: um Brasil de poucos.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed736_porrete_da_adjetivacao_deforma_jornalismo

Notas

[1] www.anj.org.br%2Fa-industria-jornalistica%2Fjornais-no-brasil%2Fmaiores-jornais-do-brasil&ei=YqwrUZmsE6u20AGR-oHYCQ&usg=AFQjCNH3mr6cPOM85l1ThlIZmDfQzicV8A

[2] Depois de 24 anos liderando as tiragens no país a Folha de São Paulo, perdeu seu posto desde 2009 para o Super Noticia e até então não recuperou mais. (segundo o site do IVC)

[3] https://www.ufmg.br/boletim/bol1658/8.shtml

[4] Comandado pelo empresário e político do PSDB, Vittorio Medioli.

 

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