Notícia e mídia no Brasil (XII): Governo e mídia agora em lados opostos

19/08/2013 14:17

Davenir Viganon

FHC elegeu-se em 1994, com um discurso de instauração de alguma ordem em meio ao caos econômico e social. Mas seu fracasso gerencial na economia e o desastre na área social, fez com que as benesses do Real logo fossem esquecidas, consideradas insuficientes. A baixa popularidade, por volta de 20%, prejudicou consideravelmente a candidatura de seu colega de partido José Serra ao enfrentar o veterano candidato Luis Inácio Lula da Silva, que concorria pela quarta vez ao planalto em 2003. Mas o candidato do PT já não era mais o mesmo naquelas eleições. A candidatura de Lula já não se pautava mais na desconfiança com a situação do país, o que mudou consideravelmente no pleito de 2002.

Não apenas o discurso havia mudado, mas as alianças de sua chapa também mudaram. O PT teceu alianças com partidos de direita, principalmente com o PMDB que abandonou o PSDB, seu antigo aliado passando a integrar a nova base aliada do governo eleito. Entre rachas, desconfianças, acusações de traição o PT finamente alcançou a presidência do país. Muito disso teve influência do contexto mundial de avanço do neoliberalismo, que enfraqueceu as influencias socialistas do PT.

O governo de Lula foi marcado pelo desenvolvimentismo de sua administração e pela bem sucedida implantação de programas sociais, que se pautavam na inclusão de uma faixa economicamente miserável da população no mundo do consumo. Apesar do desagrado que o governo causou em boa parte da esquerda que acusa o governo de traição aos princípios socialistas, tão pouco, vemos um alinhamento com o poder midiático do país que historicamente sempre optou pelo conservadorismo. Basta observar o comportamento que da mídia que até hoje tem adotado uma linha fortemente oposicionista ao governo. Essa mesma linha era conivente com o antigo governo, mas depois da eleição de Lula mudou severamente sua face pela tendência de esquerda desde à frente do executivo.

Inicialmente a estratégia midiática bateu forte na idéia de ridicularizar a imagem de Lula, usando a espetacularização semelhante ao que fizeram com FHC, mas o objetivo não era criar empatia, mas negativar certos aspectos de seu comportamento. Cada oportunidade de registrar o então presidente, bebendo cerveja, por exemplo, era aproveitada nos noticiários, buscando estigmatizá-lo com a imagem de cachaceiro, operário burro, revirando o preconceito contra o migrante nordestino - que é fortíssimo no Sul e Sudeste do país - mas o que não teve o efeito esperado, pois a empatia de Lula com a população cresceu nos setores mais pobres. Mesmo que uma determinada posição da mídia não seja determinante para a aceitação de um governo pela população trata-se de uma formidável força política que no Brasil é historicamente alinhada com os setores conservadores da sociedade.

Capas da revista Veja sobre o inicio do segundo mandato de cada presidente[1]

Agindo nessa linha, em todos os meios de comunicação onde se vincula noticias no país não podendo escamotear ou ignorar as mudanças trazidas pelo governo e sua aprovação pela população, de tão evidente que foi, passou-se adotar o jornalismo adversativo, ou seja, piorar as boas notícias.

O governo Lula terminou com uma aprovação recorde de 80%. O que favoreceu muito a eleição de Dilma Roussef, mas no meio das mudanças que seu governo proporcionou no setor de comunicações não se constata nenhum grande avanço rumo à criação de um Marco Regulatório para a mídia. O poder da mídia continua intocado e o setor permanece extremamente arredio a qualquer regra que lhes interfiram em seus negócios. As empresas donas das emissoras de TV, por exemplo, ainda se organizam em redes que deveriam ter programação local, mas são apenas filiais de uma grande empresa, resultando assim numa concentração violenta das fontes de comunicação no país, são verdadeiros “latifúndios” midiáticos, impedindo através do poder, econômico e político, que haja variedade de vozes no setor. Mesmo com uma severa diminuição da audiência da televisão aberta, devido à internet e TVs fechadas, ela continua sendo centro da casa do brasileiro.

Para entender a importância da criação de um Marco Regulatório para a mídia, precisamos saber primeiro a situação dos veículos tanto públicos quanto privados.

Referências

GUARESCHI, Pedrinho A. Mídia e democracia.

KINZO. Maria D’alva G. A eleição presidencial de 1994 no Brasil: Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real. In: PINTO, Célia Regina; GUERRERO, Hugo. (Org.) América Latina. O desafio da democracia nos anos 90. UFRGS. Porto Alegre, 1996.

LIEDTKE, Paulo Fernando; AGUIAR, Itamar. Políticas Públicas de Comunicação no Governo Lula (2003-2010): Avanços e Retrocessos Rumo à Democratização do Setor. In: XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed696_um_balanco_dos_governos_lula_(2003_2010)

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o_cerco_da_imprensa_ao_governo_lula

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/12/jornal-nacional-manipula-noticiario.html

Notas

[1] http://2.bp.blogspot.com/_a0YP5ngCL90/S608188zHyI/AAAAAAAAAic/mIxgofXe3mg/s1600/fhc+lula.bmp

 

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