Notícia e mídia no Brasil (XI): O Real e o irreal pelos olhos da mídia

06/08/2013 08:42

Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar as que estão oprimindo. - Malcon X

Davenir Viganon

Itamar Franco assumiu a presidência após o Impeachment de Fernando Collor em 1992. A partir daí o discurso político/midiático passou a ser do de manutenção da ordem, ou seja, aquele que manteria as coisas no lugar até as eleições de 1994. Seu governo foi bastante apagado, mas serviria de base para a candidatura que nas eleições que se aproximavam e elegeria seu candidato, o então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso. O pilar mestre de sua candidatura era o plano Real.

Fhc e a velha mídia[1]

Eleições de 1994 e o Plano Real

As eleições presidenciais de 1994 apontavam dois candidatos principais: Lula que novamente se apresentava ao pleito eleitoral como a alternativa para mudanças sociais para o país, e Fernando Henrique Cardoso, bem menos conhecido que seu adversário, mas com um cabo eleitoral que se mostrou insuperável: O Plano Real.

Depois de inúmeras tentativas de emplacar planos econômicos de ajuste. Os Planos Cruzado I e II, Verão, Collor I e II, chegaram por vezes até a congelar preços e salários trocando várias vezes à moeda[2], o Plano Real conseguiu alcançar um de seus objetivos, que era acabar com a hiperflação que atacava a economia desde a década de 1970 e chegou a mais de 1000% quando Collor foi impedido. Foi criada uma nova moeda, o Real, e outra moeda provisória, a URV, que desindexou a economia da inflação, além de outras medidas fiscais que mudaram a economia.

Nas eleições, a promessa de funcionamento do plano despertando confiança na população foi o suficiente para frustrar a estratégia eleitoral da oposição que era desacreditar a eficácia do Real enquanto FHC foi posto como o homem mais capaz de implementá-lo. Assim,

 “os eleitores, em sua maioria foram motivados não por programas ou promessas apresentadas na campanha eleitoral, mas pelo efeito tangível produzido pelo em seus bolsos. ‘o que você tem feito por mim? ’ ao invés de ‘o que você propõe fazer por mim? ’ foi à pergunta que fez parte do cálculo do eleitor em seu ato de votar. E a expectativa de que o Plano Real poderia ser melhor implementado pela liderança confiável do candidato que foi seu arquiteto daria a Fernando Henrique a surpreendente vitória no primeiro turno”[3]

Os dois anos de governo Itamar Franco, usados na elaboração do Plano Real Foram cruciais na campanha e seu resultado, cabendo a mídia apenas ventilar as aparentes benesses promovidas pelo governo.

O governo FHC

O governo FHC não foi economicamente calmo e pacifica nem tão pouco organizou a economia como tanto se propagandeou. Mas para o trabalhador que passou a ser capaz de organizar seu salário sabendo que seu valor não se esvaziaria no dia seguinte já era visto como a concretização de uma economia organizada, ainda mais com o fato de ter colocado na mão dos trabalhadores, inicialmente, algum poder de compra. Espalhavam-se no noticiário as vedetes do Real: o frango, a dentadura. Quem tem mais idade talvez se lembre do depoimento de uma senhora que antes não comia carne, mas agora poderia comprar uma peça inteira de mortadela? Tudo isso facilitado pela inicial valorização da moeda frente ao Dólar. Mas a alegria não teve vida longa, a inflação aos níveis terríveis, hiperflacionados, de antes não voltaria, mas tão pouco o crescimento econômico do país teria algum desenvolvimento, muito pelo contrário.

O maior significado do Plano Real tenha sido a capacidade de trazer algum ordenamento em meio ao caos da economia brasileira, se valendo disso eleitoralmente, FHC se reelegeu em 1998 jogando com o medo de perder o que já havia sido feito. Com mais força repetiu-se a pergunta ‘o que você tem feito por mim? ’. Com FHC reeleito não foi mais possível disfarçar os males da gerencia neoliberal ao país.

A política de aumentar os juros (25%) e manter uma baixa reserva era a estratégia para manter a inflação sob controle, mas enfraquecia a economia. Isso deixava qualquer medidas sociais no esquecimento e fazia o governo apelar para o FMI. Foram três empréstimos volumosos: o primeiro de 41 bilhões em 1998, o segundo de 15 bilhões em 2001 e o terceiro 30 bilhões em 2002, que para serem obtidos exigiam-se medidas de corte de gastos por parte do FMI, austeridade que hoje vemos grassar com a Europa, se espraiava em terras brasileiras nos anos 90. Além de, é claro, a criminosa privatização das empresas públicas, como por exemplo, a Vale do Rio Doce, uma das empresas de mineração mais lucrativas do mundo, e também nossa telefonia, setor estratégico de qualquer país, e tantas outras vendidas a preço de banana. A justificativa era que elas davam prejuízo e que se vendidas diminuiriam a divida pública, mas o que se viu foi à multiplicação dessa divida por dez.

FHC e Roberto Marinho[4]

Relações com a mídia

Durante o governo FHC, Roberto Marinho, tão atuante e autoritário na linha editorial da Rede Globo, foi se afastando do comando da emissora por motivos de saúde, deixando seus três filhos no comando. O apoio da mídia continua pesando muito na condução do governo, apesar de FHC já ter o apoio dos donos da emissora...

“Fernando Henrique buscou cultivar uma relação direta e pessoal com eles. Em momentos de crise, o Presidente chegou a intensificar contatos com os donos da mídia com o objetivo de alterar a cobertura noticiosa. Por exemplo, no primeiro semestre de 1998 a reeleição de Fernando Henrique parecia ameaçada pelo caráter essencialmente negativo da agenda da mídia e pelo crescimento de Lula nas pesquisas. O Presidente entrou então em contato com vários proprietários de meios de comunicação alertando para o fato de que a continuidade deste tipo de cobertura poderia levar à eleição de Lula.”[5]

Acompanhando de perto todas essas movimentações políticas e econômicas, a mídia adotou durante todo o período uma cobertura espetacularizadora dos passos presidenciais, dando incrível enfoque do jornalismo político para assuntos banais da vida presidencial. Como por exemplo, na ocasião de uma visita de FHC á Espanha para acordos políticos, ganhou destaque na imprensa e na televisão, não pelo conteúdo político do encontro, mas por um segurança da presidência ter derrubado uma compoteira, presente do casal real espanhol ao presidente. Não raras vezes a noticia era algo inusitado por eventualmente sair do protocolo presidencial, desde um “beijo de esquimó” com visitantes oficiais da Nova Zelândia, e até piadas do “Casseta e Planeta”, humorístico da Globo, com as expressões não formais do presidente como “assim não pode, assim não dá!” ou “ficar de nhê,nhê,nhê”. Tudo isso contribuía para que a figura pacata e intelectualizada de FHC se tornasse mais simpática ao público. Esse jornalismo soft, com toques de literatura, direcionado especialmente para acontecimentos políticos busca ocultar sua importância. Seu efeito é de trazer o presidente e a política para um nível baixo de compreensão, perto da população, subvertendo o objetivo de trazer a notícia de um modo que faça a população entender os fatos e a compreensão dos fatos políticos.

Interesses econômicos da mídia, também estavam sendo favorecidos com as políticas governamentais. A exploração da TV paga, da internet e a liberdade para a ampliação das redes de comunicação (Rádio e TV) é claro a manutenção das concessões estavam garantidos pela agenda neoliberal que estava acelerando vertiginosamente o desmonte do SEP - Sistema Produtivo do Estado.

Não tardaria para que a baixíssima popularidade de FHC, frente a uma população que agora se acostumou a viver sem a hiperflação - muito descontente com os 12% - acabasse por secar sua fonte de prestigio político e cobrasse seu preço na sucessão eleitoral.

Referências

GUARESCHI, Pedrinho A. Mídia e democracia.

KINZO. Maria D’alva G. A eleição presidencial de 1994 no Brasil: Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real. In: PINTO, Célia Regina; GUERRERO, Hugo. (Org.) América Latina. O desafio da democracia nos anos 90. UFRGS. Porto Alegre, 1996.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_espetacularizacao_da_noticia_no_governo_FHC

Notas

[1] http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/59116/

[2] cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, novo cruzeiro, cruzeiro real.

[3] KINZO. P.111.

[4] http://shoopashampoo.blogspot.com.br/2011/08/um-pouco-de-historia-leitura-importante.html

[5] Em sua entrevista, Cardoso ressaltou que agenda da mídia no primeiro semestre de 1998 era realmente negativa e culpou a influência do PT nas redações por este tom da cobertura. Todavia, o Presidente negou que tenha estabelecido contatos freqüentes e diretos com proprietários dos meios de comunicação para alterar a cobertura noticiosa. O Presidente admitiu apenas ter conversado a respeito com Octavio Frias, proprietário da Folha de S. Paulo. Apesar do Presidente negar o fato alguns jornalistas relataram em suas entrevistas que proprietários de empresas de comunicação foram procurados na época pelo Presidente. (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_espetacularizacao_da_noticia_no_governo_FHC)

 

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