Notícia e mídia no Brasil (X): A autonomia do partido da mídia

30/07/2013 13:04

“O termômetro que mede a democracia numa sociedade é o mesmo que mede a participação dos cidadãos na comunicação” - Herbert de Souza (Betinho)

Davenir Viganon

Enquanto a ditadura deu toda a segurança para que o império de comunicação de Roberto Marinho se erguesse, incluindo suporte tecnológico, as organizações Globo já podiam exercer seu poder com mais eficácia. Se durante a ditadura o governo e a emissora tratavam-se como aliados em pé de igualdade, com uma recém nascida democracia, era essencial para sua legitimação ter boas relações com a sólida empresa de Marinho. Mais do que isso se optou influir na escolha desse primeiro presidente eleito democraticamente.

Eleições de 1989 e o debate editado

As primeiras eleições presidenciais diretas do Brasil contou com um grande numero de candidatos no primeiro turno das eleições, dos quais Collor (28%) e Lula (16,08%) passaram para o segundo turno.

A recém nascida democracia do país estava restrita apenas ao voto. Os meios de comunicação seguiam essa onda de democracia (na verdade uma onde neoliberal) apenas no discurso onde em seus meios noticiavam sua missão de promover a democracia. Dentre os meios de comunicação foi justamente a televisão, o único meio de comunicação de alcance nacional, a principal vitrine das propagandas políticas dos candidatos.

O horário político obrigatório abriu espaço, pela primeira vez na história, para que a esquerda se pronunciasse de maneira oficial, sem qualquer censura prévia. As pesquisas eram favoráveis a Lula, mas o espaço televisivo mais importante para que os candidatos pudessem realmente influenciar seus eleitores eram sem dúvida os debates políticos na TV. As quatro principais emissoras do país (Globo[1], Manchete, Bandeirantes e SBT) transmitiram em horário nobre um debate em cada turno da eleição.

A mídia e Collor versus Lula. Dois contra um no debate[2]

Mas nenhum foi mais controverso que o debate do Segundo turno transmitido pela Rede Globo. Mais do que qualquer controvérsia política durante o debate[3], foi à edição do debate promovida pelos editores do telejornalismo da emissora exibido nas edições seguintes dos telejornais da emissora. Ficou visível que a edição do debate reservou mais tempo e selecionou seus melhores momentos a Collor em desfavorecimento a Lula que teve menos tempo e uma seleção de momentos fracos no debate, ou seja, uma verdadeira peça publicitária a favor de Collor. Seguido da apresentação de uma pesquisa onde, além de não perguntar a intenção de voto, foram feitas perguntas dúbias que favoreciam Collor.

Resultados duvidosos apresentados pela Globo no Jornal Nacional[4]

O episódio foi tão escandaloso que a própria emissora admite que “provocou um inequívoco dano à imagem da TV Globo” [5]. Em seu site, a Globo dedicou um espaço aos “erros” cometidos pela emissora, admitindo sua falha, mas não sem colocar alguns atenuantes ao acontecido.

 “Os responsáveis pela edição do Jornal Nacional afirmaram, tempos depois, que usaram o mesmo critério de edição de uma partida de futebol, na qual são selecionados os melhores momentos de cada time. Segundo eles, o objetivo era que ficasse claro que Collor tinha sido o vencedor do debate, pois Lula realmente havia se saído mal.”

Importante dizer que nada disso descaracteriza a evidente intromissão política da emissora.  Não foi uma falha, foi um sucesso, pois o objetivo era contribuir para a eleição de Collor, a emissora fez sua parte. O episódio foi apenas o mais evidente, Collor já vinha fazendo aparições em programas da emissora, para que o público pudesse assimilar a sua imagem e atenuar o fato de ser quase um desconhecido no país. A Globo escolheu seu candidato e colocou-o em Brasília, um escolha  da qual viria a se arrepender.

Governo Collor

A situação econômica do país no inicio do governo Collor era uma batata quente. Seu antecessor, Sarney, deixou uma inflação de 84.32% ao mês e um tremendo fracasso do plano cruzado. De inicio seu mandato teve relativo sucesso, como plano “Collor I”, mas rapidamente ficou impopular. Outra medida foi a abertura do mercado à entrada de produtos estrangeiros, com a redução das tarifas de importação, incluindo a eliminação da reserva de mercado, como o da informática. Essas medidas tipicamente neoliberais, de servidão ao capital estrangeiro, eram justificadas pelo governo como uma política que facilitaria as importações e através disso um fortalecimento das indústrias nacionais. Não foi o que aconteceu, a invasão dos capitais estrangeiros, acompanhada de privatizações, abriu as portas do chamado “capitalismo selvagem” e aprofundou a população na miséria, fazendo evaporar o poder de compra do trabalhador. Enquanto isso as notícias de aumento da inflação ganhavam um caráter positivo, sendo anunciadas como um aumento no rendimento da poupança, que sempre aumentava com a inflação.

Collor o caçador de marajás[6]

Mas o que realmente sustentava Collor em seu governo era a sua imagem. Moldada pela mídia, como “Caçador de marajás”, que combatia os altos salários dos funcionários públicos, reforçava um misto de honestidade e hostilidade à corrupção. A mesma impressa que criou sua imagem e fortaleceu-a para derrubar a candidatura de Lula, não desejava um governo personalista que pouco beneficiou o centro do país na abertura política. A partir daí a mídia se aproveitando do fato da impopularidade de Collor devido à fracassada condução de sua política econômica e a falta de base parlamentar o desarmou frente à campanha midiática para sua derrubada do Palácio do planalto.

Seguiu-se o escândalo PC Farias, as denuncias de irmão de Fernando Collor, Pedro, que deram o combustível que ateou fogo na imagem do presidente. A revista “investigativa” Veja que antes contribuiu para a formação do mito, “descobriu” o quão corrupto era o candidato que ela própria havia apoiado.

As manifestações dos “caras pintadas” e impeachment televisionado, são bastante conhecidos. O que a grande maioria não viu foram as nuances do jogo político que encontra na mídia uma de suas mais influentes manifestações, que tem seus interesses próprios.

Referências

GUARESCHI, Pedrinho A. Mídia e democracia.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_globo_e_a_ditadura_militar

http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1121

http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,5270-p-21752,00.html

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/11/apos-22-anos-boni-admite-que-globo.html

http://advivo.com.br/blog/luisnassif/raio-x-da-historia-o-impeachment-de-collor

Beyond Citzen Kane (Muito além do Cidadão Kane). Documentário.

Notas

[1] Nesse endereço, existem links dos debates eleitorais produzidos pela Rede Globo.  http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,5270-p-21752,00.html

[2] http://natusch.files.wordpress.com/2008/10/09193082-ex001.jpg

[3] Collor dizia que se Lula fosse eleito, tomaria as poupanças de particulares – coisa que ele próprio viria a fazer - e atacava o adversário pela inexperiência em cargos públicos e do outro Lula acusava Collor de ser um embuste da mídia e que deixou seu Estado, Alagoas em uma pobreza extrema, além de alianças com os chamados Marajás.

[4] http://blogpretonobranco.files.wordpress.com/2010/04/collor-vs-lula1.jpg

[5] http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,5270-p-21752,00.html

[6] http://www.avidaquer.com.br/wp-content/uploads/2009/09/Collor_de_Mello_Cacador_de_Marajas-310x400.jpg

 

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