Notícia e mídia no Brasil (VII): Mídia impressa, censura e os apoiadores do regime

02/07/2013 12:18

Davenir Viganon

A mudança mais profunda no jornalismo durante o período do regime militar foi sem sobra de dúvida a utilização sistemática e ativa da Censura. Tais mecanismos eram usados não apenas para censurar, mas para também evitar a menção a própria existência da censura. A censura atingia os veículos de comunicação de várias formas, sendo em especial dirigida à mídia impressa, que era coagida dentro das salas de redação, para não perder os patrocínios oficiais do governo e se não fosse suficiente faziam-se ameaças de agressões físicas aos jornalistas. Explica-se a ação mais ativa da censura sobre a mídia impressa, por esta não depender de concessões para operar. No jornal existe uma relativa independência editorial, ela não tem a obrigatoriedade de “prestar um serviço público” como aludem as leis de comunicação que regulam através da concessão as emissoras de TV e rádio.

Entre os veículos que mais sofreram com a censura foram O Estado de S. Paulo, entre 1972 e 1975 e a revista Veja, entre 1974 e 1976. Além das publicações alternativas que surgiram do próprio contexto da ditadura. Entretanto muitos jornais apoiaram o golpe. O Jornal do Brasil de 19/03/1964 trazia em sua manchete:

 

Jornal do Brasil (19/03/1964)[1]

A Folha de São Paulo que no dia 20 de Março publicou uma noticia sobre a “Marcha da Família com Deus, pela Liberdade” dizendo o seguinte:

 “Enquanto há liberdade - Meio milhão de paulistanos e de paulistas manifestaram ontem em São Paulo, no nome de Deus e em prol da Liberdade, seu repúdio ao comunismo e à ditadura e seu apego à Lei e à Democracia. Neste momento particular da vida do mundo, o histórico ato dos paulistas adquire importância internacional.” [2]

Nos jornais favoráveis ao regime, à censura não vinha necessariamente direto do governo para a redação, pois não era necessário. A própria redação sob as ordens do dono do jornal, através do editor, fazia muitas vezes uma censura prévia antes que aparato governamental sequer analisasse o material. O conteúdo ideológico da censura era latente. A constante demonização do comunismo, do anarquismo e do partidarismo em geral, que já existia antes na Era Vargas, mas se intensificou. A mídia focou seu discurso na ideia de que o regime era democrático. Vamos ver que a palavra “ditadura” era substituída por “revolução” ou “democracia” sempre conclamando em nome do “povo brasileiro” usando e abusando dos símbolos nacionais como o hino e a bandeira em seus dizeres “ordem e progresso”.

No dia do golpe, não faltaram alusões ao anticomunismo e elogios aos militares. Como noticia d’O Globo 2/04/1964:

"Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos".[3]

N’o Estado de Minas 2/04/1964, notamos menções a Democracia, e a aceitação do povo do golpe:

"O ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade."[4]

No dia 1/04/1964 temos o Jornal do Brasil, justificando a ação dos militares, e se posicionando politicamente contra o governo:

 “Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada” [5]

No jornal O Globo do dia 2/04/1964 segue com manchetes exaltando a “democracia”, como podemos observar na capa 

 

“Ressurge a democracia!”, “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restabelecida” são as manchetes do dia, n’o Globo[6]

Nesta capa há um dizer de Castelo Branco que ficou famoso pelo termo que é usado até hoje pelos meios de comunicação: “As forças armadas, sou para defender a lei, não a baderna”. No alto da mesma capa tem o dizer: “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restabelecida”. Onde está a democracia com uma saída forçada de um presidente?

O mais importante a salientar nessas reportagens é que a fronteira do jornalismo noticioso “imparcial” rompe com qualquer pretensão de imparcialidade, sem ter a honestidade intelectual de admiti-lo. Vimos no texto IV desta série que o jornalismo noticioso não era imparcial, mas o posicionamento tão evidente de caráter moralista e nacionalista encontrado nas reportagens remontam as épocas de jornalismo partidário, onde os jornais buscavam mostrar que seu ponto de vista político era o mais benéfico à sociedade. Em 1964 nossa história, já marcada por vários golpes e governos em constante estado de exceção, se repete, mas desta vez, a farsa está no falso jornalismo noticioso. É uma dupla mentira, a primeira é a falsa premissa da imparcialidade e a segunda de que o jornalismo que se fez a partir dali não tinha caráter doutrinário. Politicamente, a democracia dormiu durante 21 anos, mas no jornalismo ainda espera despertar-se.

Referências

GUARESCHI, Pedrinho A. Mídia e democracia.

RUDIGER, Francisco. Tendências do Jornalismo. UFRGS. Porto Alegre, 1993.

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15896

http://historiadaimprensanobrasil.blogspot.com.br

Parte ant erior - próxima parte

Notas

[1] http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=26196

[2] Folha de São Paulo. 20/03/1964.

[3] As manchetes do golpe militar de 1964 - http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15896

[4] As manchetes do golpe militar de 1964 - http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15896

[5] As manchetes do golpe militar de 1964 - http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15896

[6] http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/03/editorial-globo-celebra-golpe-militar-de-1964.html

 

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