Notícia e mídia no Brasil (IV): A Era do rádio e a Era Vargas

04/06/2013 08:28

Davenir Viganon e Alex Oestreich

Seguindo a linha do entretenimento, o rádio inicialmente dava pouco espaço para as noticias, entre 1922, quando chegou ao país, até inicio dos anos 30. A primeira rádio foi fundada por Roquette Pinto e Henry Morize, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (1922), seguida da Sociedade Rádio Educadora Paulista (1923), Rádio Sociedade Rio-grandese (1924), Rádio Clube de Pernambuco (1926) entre outras, se espalhando pelas maiores capitais do país. Restrito as classes mais abastadas, o rádio teve um inicio bastante romântico já que não tinha fins lucrativos, dependia de doações e funcionava apenas num circulo próprio, e sua programação de caráter bastante amador[1] apresentavam se palestras cientificas, poesias, onde os poucos ouvintes, que participavam da programação, doavam discos e/ou cantavam músicas.

A administração da rádio era em formato de clube, que dependia das mensalidades para se manter. Diferente do inicio do jornal, não tinha caráter doutrinário político, mas especificamente educacional. Os clubes agregavam os que se empolgavam com a tecnologia, gostavam mais da idéia do rádio que do conteúdo transmitido. Assim como os primeiros jornais, a estrutura era precária e sem suporte financeiro o rádio não conseguia se difundir.

Mas o Brasil já estava naquele período adentrando no capitalismo e logo não faltaram iniciativas de utilizar a rádio como veículo moderno de mídia, com administração empresarial e investimento de capitais. Mas isso só pode ser iniciado com a lei 21.111 do então presidente Getúlio Vargas, que definiu a rádio como "serviço de interesse nacional e de finalidade educativa" permitindo o espaço de 10% para publicidade[2]. Logo os aparelhos de rádio saltaram de 165 mil unidades em 1934 para 460mil em 1940.

Temos aqui uma diferença crucial entre o rádio e ao jornal. Os jornais puderam ser publicados livremente desde a independência, sob a responsabilidade de seus editores, já o rádio depende de uma concessão pública, cedida pelo governo. Essa regulamentação previa a importância do rádio como elemento estratégico para a nação. Vargas sabia disso e procurou usar os meios de comunicação para manter um “diálogo” com a nação.

No inicio dos anos 30, as disputas políticas culminavam em ações armadas, os golpes que levaram Vargas ao poder com a Revolução de 1930, depois da tentativa fracassada dos paulistas em 1932 e na também na igualmente fracassada intentona comunista de 1935, levavam os jornais da época a fazer criticas mais abertas aos seus desafetos políticos, mas não perdiam o caráter noticioso. A notícia já não se voltava aos partidos como na época do jornalismo partidário[3]·, afinal ainda tinha que cumprir seu papel de noticiar tudo o que ocorre, não apenas a política, mas o principal a se notar é que os jornais noticiosos se alinhavam politicamente de acordo coma vontade do dono da empresa e não mais eram criados com seu fim político pré-determinado.

Com a instauração do Estado Novo, Vargas cria o DIP - Departamento de imprensa e propaganda. Sua função era ser a mão do governo sobre os veículos de comunicação, controlando a imprensa no país ao seu favor. A criação deste órgão mostra a importância que a mídia tinha para Vargas, seguindo a orientação fascista, se valia das tecnologias de comunicação para arrebatar as massas, inflando o nacionalismo, anticomunismo e valorizando o trabalho como elemento de construção social.

O governo investiu no rádio, com a Rádio Nacional com o programa “A Hora do Brasil” que depois, se chamará “A Voz do Brasil”. Tratava-se de um noticiário oficial que deveria ser transmitido inexoravelmente em todas as frequencias de rádio. Até hoje o programa vigora no ar e nenhum presidente abriu mão de utilizar esse espaço.

Rádio nacional, os programas transmitidos pela rádio tinham platéia ao vivo[4]

Com a concessão para empresas privadas, cedidas pelo governo, às rádios começam a se consolidar. Surgem os programas de cunho jornalístico, que de inicio eram resenhas dos jornais, que chegavam com atraso, mas rapidamente passaram ser a principal fonte de informação do brasileiro. A agilidade na transmissão da noticia logo refletiu num aumento da audiência e a rentabilidade dos anunciantes e também no incremento da tecnologia que se desenvolvia para as transmissões como, por exemplo, o gravador de voz e mesa de áudio onde se podiam conectar aparelhos para retransmitir o som diretamente ao sinal, entre outros. As companhias multinacionais investiram pesado no rádio para anunciar seus produtos. Desde programas com patrocínio da Bayer, à rádios próprias, como a Rádio Philips, até o famoso “Repórter Esso” que entre 1941 até 1968[5] foi o programa de noticias mais conhecido do Brasil.

Herón Domingues, apresentador do Repórter Esso[6]

O cunho educacional, quase romântico, do rádio era coisa do passado. Apesar de ter surgido mais como uma curiosidade cientifica, do que adotar um cunho doutrinário, moral e/ou político, o rádio logo aderiu ao pensamento capitalista, buscando obter lucro em formato de empresas. A publicidade e seu lucro fizeram evoluir seus métodos, como o pioneirismo de Adhemar Cazé (sim, o pai da Regina!) que criou jingles publicitários em seus programas.

Mas o jornalismo não era predominante no rádio, a Era Áurea do rádio desenvolveu um espaço para um circulo de artistas criados em seu próprio meio, entre cantores, atores de radio-novelas, humoristas entre outros. Estava criando-se uma cultura industrial padronizada pelo rádio.

A cultura que se formou sobre o rádio era a de reunir a família para ouvir os programas que eram exibidos na época. Mesmo coma popularização do rádio, ainda era um artigo difícil para qualquer brasileiro obter, não era raro as localidades com apenas um rádio em que a população se juntava ao redor do aparelho para ouvir as últimas noticias sobre a Segunda Guerra Mundial no Repórter Esso. Mas o carro chefe do rádio era o entretenimento, onde os programas humorísticos, as rádio-novelas, e as atrações musicais, que estampavam as capas da Revista do Rádio, periódico impresso que dava rosto às vozes dos artistas.

Carmen Miranda estampa a primeira edição da Revista do Rádio[7]

Essa cultura tornou o rádio alvo de investimentos e passa a entrar num circulo fechado e monopolizado de comunicação. Os donos dos jornais, que já contavam com o monopólio da informação no papel, obviamente expandiram seus negócios para o rádio. Assim os donos de rádios comumente eram também os donos de jornais. Mas estava para chegar à televisão e esta superaria o rádio, como veículo de informação da família do brasileiro e passa a ser um veículo individualizado o que assegurou sua sobrevivência. Quanto ao rádio passaria por uma transformação em aparelho individual se deu em num processo, concomitante com consolidação da televisão.

Imprensa e Getúlio Vargas

A imprensa, enquanto mídia mais consolidada se dividia entre apoiadores e contestadores do presidente Vargas e em sua fase autoritária os jornais A Última Hora, Jornal do Brasil, e O Dia eram favoráveis a Getúlio enquanto O Globo e a Tribuna da Imprensa eram contrários ao Governo. Dos jornais favoráveis ao governo, A Última Hora entrava no mercado jornalístico com uma proposta de ser mais popular, mais acessível a fatia empobrecida da população. O presidente Vargas atribuiu uma missão social ao jornal de "esclarecer e orientar a opinião pública, auxiliando oficialmente o governo na sua tarefa cotidiana de bem servir as necessidades e aspirações populares" em carta em carta publicada no primeiro numero. Enquanto os jornais oposicionistas tinham caráter profundamente elitista, em que os de elevada formação cultural são a genuína e autentica fonte de opinião pública e quando se referiam aos membros do governo, eram encaixados como incapazes de representar essa concepção de formadores de opinião.

A Última Hora, quando criado, foi alvo de criticas movidas pelos deputados da UDN, opositores do regime que chegaram a instalar uma CPI contra o presidente por denuncias de que Vargas teria facilitado empréstimos no Banco do Brasil para que o jornal pudesse ser aberto. Obviamente não se tratava de um caso de corrupção e sim questões políticas maiores estavam envolvidas.

A Última Hora noticia o suicídio de Getulio Vargas[8]

O Jornal representava uma ameaça para a imprensa elitista que dominava o mercado de comunicações, abragendo também o rádio, como vimos antes, buscava manter seu domínio. Emerge daí uma verdadeira campanha para derrubar A Ultima Hora. Acusavam Samuel Weiner, dono do jornal, de ser estrangeiro (Samuel era judeu de origem romena) e também do conteúdo da publicação ser favorável as idéias da União Soviética. O que estava por trás disso era um discurso que temia o acesso de camadas populares a informação. Mesmo com o fim da CPI e a absolvição de Vargas a campanha seguiu durante todo o período do Estado Novo. 

Referências

PINTO, Virgílio Noya. Comunicação e cultura brasileira. Ática, São Paulo, 1986.

RUDIGER, Francisco. Tendências do Jornalismo. UFRGS. Porto Alegre, 1993.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_censura_e_o_advento_da_tv

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o_cerco_da_imprensa_ao_governo_lula

http://historiadaimprensanobrasil.blogspot.com.br

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Notas

[1] Os programas eram esparsos, com grandes intervalos de estática.

[2] Hoje são 25%

[3] Um dos últimos jornais partidários, A Federação do RS, já havia fechado em 1923.

[4] http://catracalivre.folha.uol.com.br/sp/agenda/barato/radio-nacional-do-rio-de-janeiro-e-tema-de-exposicao-gratuira-na-caixa-cultural-se/

[5] Desde 1960 comprado por Roberto Marinho.

[6] http://www.avozdacidade.com/site/page/noticias_interna.asp?categoria=3&cod=18855

[7] http://pipocamoderna.com.br/documentario-sobre-adhemar-case-celebra-era-de-ouro-do-radio/23539

[8] http://cafehistoria.ning.com/xn/detail/1980410:Comment:286502

 

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