Notícia e mídia no Brasil (III): A imprensa noticiosa e a República Velha

28/05/2013 10:32

Davenir Viganon e Alex Oestreich

A República Velha mostrou-se mais repressora que a monarquia de Dom Pedro II. O Positivismo assentou-se principalmente Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, onde inclusive chegou ao poder com Julio de Castilhos. Os jornais ainda eram extremamente doutrinários e se dirigiam com especial acidez para o antigo regime. O que era de se esperar já que o positivismo propunha uma sociedade extremamente estratificada, ditatorial, cientificista e capitalista. Os primeiros dois presidentes da república foram Militares - Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto - seguido de um presidente civil tão severo quanto os anteriores, Washington Luís.

Capa do centenário da Independência[1]

Buscando afirmar-se, a república buscou combater os símbolos que representavam o antigo regime. A data nacional do 7 de Setembro, por exemplo, foi motivo de repúdio pela sua identificação com a monarquia. Na Gazeta de Noticias de 7/09/1891:

“Não pode deixar de ser tristemente hipócrita e indecoroso este falseamento das convicções democráticas com a insinuação de uma tal data nos dias festivos do calendário.”[2]

Procurando ser mais conciliador com o passado, mas sem abandonar o ideal, o jornal republicano procurou ser mais ameno, O Paiz de 7/09/1890, diz:

“Quaisquer que sejam as criticas históricas do feito do Ipiranga, a Nação brasileira não esquecerá nunca que (...) o Príncipe (...) esqueceu os sentimentos de subordinação e de dever ao seu pai e ao seu Rei para proclamar a Independência política do povo, cujos destinos dirigia. A revolução de 7 de setembro formou assim uma nova nacionalidade americana...”[3]

Os governos da República velha ansiavam por uma revisão histórica que lhes favorecesse, procurando moldar a história ao seu sabor e necessidade de se legitimar no poder. Quando a independência fez seu centenário à imprensa da época fomentou muitas reflexões, voltadas para a construção de uma nação, enxergando o Brasil como um país de território independente, mas sem um nível civilizacional do século XX. A negação do passado ganha muita força, com o repúdio a herança portuguesa, que gerou inclusive uma modificação na gramática, que a imprensa tratou de apoiar rapidamente.

Mas das decepções com algumas décadas de República não se passaram batidos, sugem publicações que fazem um retorno ao passado, como uma reflexão saudosista de épocas menos repressoras do império em comparação aos republicanos, buscando uma república que na pratica não existe no Brasil:

“Esse ceticismo estava associado à posição do intelectual na sociedade brasileira, percebida como secundária em relação ao poder oligárquico estabelecido. Supondo-se uma nova elite contraposta á oligarquia, julgando-se detentora de uma visão abrangente da realidade brasileira, a intelectualidade, de um modo geral, empenhou-se em apontar uma saída para a crise da República” [4]

Imprensa noticiosa

A nova imprensa que aos poucos estava ganhando espaço. Buscava se limitar a contar os fatos mais importantes para a sociedade, sem interferir com opiniões, buscando a imparcialidade. Essa nova abordagem pretendia expandir seu mercado modificando não apenas a escrita, mas também o formato do jornal, onde se dava mais espaço às notícias e menos às colunas. Nas revistas e jornais expandiam-se também os assuntos, como esportes e moda, tendo em vista expandir o público interessado em consumir o produto jornal. Adotando também de um novo modelo administrativo, os jornais não eram mais empreitadas amadoras e sim de empresa. Seguindo a lógica capitalista, buscaram diminuir o preço, aumentando a tiragem e para isso buscaram investir capitais na aquisição de maquinário avançado. Obtendo uma maior participação no mercado e derrubando a concorrência amadora, primeiro nas capitais e depois no interior, deixando então uma fase de concorrência para a monopolizadora.

Dentre os principais jornais que se formaram no estilo noticioso em grande parte ainda existem, entre eles: Folha de São Paulo (1925), O Globo (1925), Estado de Minas (1928). Outros se moldaram ao novo estilo e a nova administração e também continuam até hoje, entre eles: Jornal do Comércio (1827) e O Estado de São Paulo (1875).

Com a intenção de buscar um público mais amplo para seu remodelado produto, a imparcialidade se tornou o valor mais propalado pelos veículos de informação. Os jornais partidários, em franco declínio, tinham seu público alvo bastante restrito, não apenas pelo preço, mas pelo conteúdo. Abre-se mercado para o consumo de publicações, não noticiosas, baseadas no entretenimento, buscando ao mais variados públicos. Entre elas, revistas voltadas ao público feminino como A Mensageira (1897) e A Cigarra (1914), que falavam sobre arte e poesia e o infantil com a Tico-tico (1910). As revistas sobre a vida social surgiram no contexto da Belle Époque  como a Revista da Semana (1900), Fon-fon (1907) que falavam da elite social burguesa, que se destacavam pelo uso de imagens que enchiam os olhos dos leitores. O Rio nu (1898) abordava a temática do sexo e este mais do que qualquer outro assunto usava e abusava das imagens. Embora esta última seja mais underground pelo conteúdo, encaixa-se no período mostrando o outro lado da Belle Epóque. De fato o brasileiro se deparou com uma grande quantidade de produtos, muito atraentes, chamando a atenção da população para a mídia.

Revista da Semana[5]

 

A Mensageira[6]

A Cigarra[7]

Tico-tico[8]

Fon-Fon[9]

O Rio Nu[10]

Tendo em vistas essas novidades que chegam ao público brasileiro, questiona-se, qual é o papel de um jornal? Qual o papel da notícia? Não seriam eles responsáveis pela informação? Pensemos por um minuto: se o objetivo da notícia (dos jornais e demais mídias) é informar o cidadão a respeito de um acontecimento, o deixando municiado com informações capazes de serem as bases da construção de sua perspectiva sobre determinado assunto, não estariam os jornais brasileiros desde muito, indo na contramão dessa afirmação?

Desde que se estabeleceu a introdução dos pressupostos capitalistas de gestão e de sociedade no seio da cultura brasileira, por volta da Republica Velha; tivemos uma alteração significativa na forma e na maneira como os jornais e demais meios de comunicação estabeleceram sua relação com o povo. De meros propagandistas políticos e partidários, passamos ao estabelecimento de meios de notícia e de entretenimento “imparciais”.  Porém devemos relativizar até que ponto vai esta tão proclamada imparcialidade.

A propalada imparcialidade, no jornalismo noticioso, na verdade camufla seu posicionamento político. Mesmo naquelas revistas aparentemente apolíticas, já revelam a que classe serve pelo direcionamento de seu conteúdo. Os jornais-empresas se alinhavam com as forças políticas em disputa, mas estas não se valeram apenas do jornal, pois na Era Vargas, já não eram o único meio de comunicação.

Referências

MOTTA, Marly Silva da. A nação faz 100 anos: a questão nacional no centenário da independência. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getulio Vargas, 1992

PINTO, Virgílio Noya. Comunicação e cultura brasileira. Ática, São Paulo, 1986.

RUDIGER, Francisco. Tendências do Jornalismo. UFRGS. Porto Alegre, 1993.

http://historiadaimprensanobrasil.blogspot.com.br

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Notas

[1] http://blogs.estadao.com.br/arquivo/2011/09/07/centenario-da-independencia/

[2] MOTTA. P-15

[3] Idem. P-15

[4] Idem. P.23

[5] http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/sorriso-da-sociedade

[6] http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/per352438_contente/per352438_item1/P16.html

[7] http://patrimoniograficoemrevista.blogspot.com/2009/12/cigarra-1914.html

[8] http://cdmulheres.blogspot.com.br/2010/05/as-hqs-no-brasil.html

[9] http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/fonfon/fonfon_anos.htm

[10] http://caminhosdojornalismo.wordpress.com/linguagem-grafica-no-impresso/inicio-do-seculo-xx-noturno/revistas/revistas-para-ler-escondido/

 

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