Notícia e mídia no Brasil (II): Imprensa áulica e a partidária

21/05/2013 08:43

Davenir Viganon e Alex Oestreich

Convém chamar de imprensa tudo que se refere aos meios de comunicação, mas imprensa literalmente significa tudo aquilo que é impresso, assim nem tudo que é impresso é jornalismo e nem tudo que é jornalismo é impresso. Desde que o Brasil recebeu a seu primeiro equipamento tipográfico até hoje, a mídia passou por profundas transformações - além da óbvia expansão – em compasso com o desenvolvimento do país. Em cada momento de nossa história a mídia exerceu seu papel, que é representar os interesses á quem ela responde, adaptando-se ao contexto político, social, tecnológico e também contribuindo para moldá-lo.

A imensa maioria das publicações impressas existentes a longo do século XIX, eram compostas por conteúdos políticos e doutrinários. Herdeiras de um processo mais antigo, resultante da ação dos panfletos e aprofundado no decorrer da revolução francesa. As publicações então serviam a uma determinada parcela da população, aquela que sabia ler e escrever e neste sentido, a pequena parcela da população com algum engajamento político/partidário.

O Brasil anterior à vinda da família real era a jóia mais valiosa da coroa portuguesa. Mas como toda colônia era completamente dependente dos ditames da metrópole. A questão da imprensa no país ao longo do período colonial estava diretamente ligada ao que ocorria na metrópole. Como vimos no texto anterior, a colônia era impedia de produzir qualquer tipo de publicação impressa e a pouca que circulava era clandestina, sendo a comunicação restrita ao interesse do funcionamento da colônia.

A chegada da família real portuguesa em 1808 muda o panorama da colônia. Uma vez que devido à conjuntura específica da Europa D.João e sua trupe aportaram no Brasil, precisavam modificar o status local. A família real não poderia residir numa reles colônia de exploração; sendo assim, o país teve seu status elevado a reino unido e como já era de se esperar a maioria das instituições existentes na metrópole, foi transmigrada e recriada em terras brasileiras. Como é o caso da imprensa.

 

Primeira edição da Gazeta do Rio de janeiro[1])

Tão logo a família real chega ao Brasil é criado seu primeiro periódico, inaugurando a imprensa no Brasil. A Gazeta do Rio de Janeiro foi o primeiro jornal do Brasil. O Jornal seguiu-se de outras publicações régias, que se expandiram em algumas províncias. A publicação, basicamente era composta de elogios ao soberano, descrições da saúde dos príncipes europeus, entre outras bajulações que chegavam com uns dois meses de atraso aos poucos e “privilegiados” olhos brasileiros.

Apesar de impresso no Brasil a “Gazeta” não era um jornal sobre o Brasil, o primeiro impresso sobre o Brasil foi feito em Londres, o Correio Braziliense (1808). Dificil não notar esta peculiaridade do nascimento da imprensa brasileira, o primeiro jornal sobre o Brasil impresso no estrangeiro e o primeiro jornal impresso no Brasil era sobre o estrangeiro. O motivo era a censura, que até 1821, proibia publicações não-régias. Uma vez liberadas essas adotaram um caráter extremamente doutrinário e moral visando modelar a opinião pública de maneira bastante direta. A exemplo d’A Estrella do Sul, jornal da província do Rio grande do Sul:

 “O principal objetivo do A Estrella do Sul é esclarecer nossos concidadãos acerca de seus direitos e deveres; infundir-lhes o amor à virtude, ensinando as máximas de uma moral pura; propagar doutrinas úteis, dirigir a opinião pública, sustentar a obra da independência; e defender o Governo, enquanto for conduzido pelo bem da pátria (A Estrella do Sul, Alegrete, 4/3/1843)”[2]

Em meio a essas imprensas mais representativas surgiam os pasquins. Eram pequenos jornais criados por iniciativas individuais, de cunho político acentuado numa linguagem considerada muitas vezes ofensiva. Os pasquinheiros sofriam retaliações que iam desde atentados a bala até a destruição de seus equipamentos em manifestações. Contudo, dificilmente desistiam, pois estavam conscientes que sua mensagem estava sendo passada.

Além das publicações oficiais e dos pasquins havia jornais de cunho “partidário” [3]. Durante o Império, os jornais (contra e a favor do governo) declaravam abertamente suas intenções políticas e eram bastante transparentes em relação aos seus objetivos.

Na medida em que os partidos políticos se consolidam, o jornal se incorpora a sua organização como veículo de opiniões sobre os assuntos de interesse, o que incluíam textos sobre economia, voltados sempre para os setores abastados da sociedade. Mas nem por isso o jornal deixou de ser precário.

A renda dos jornais no século XIX era mínima e sua situação era de constante fragilidade material devido à dependência de assinantes e anúncios para se manter. Sendo um dos fatores que impedia crescimento e difusão deste meio na sociedade da época. Entre os anúncios, além de produtos comercializados na cidade, anunciava-se também compra e venda de escravos, como no Correio Paulistano de 9/05/1880 onde dizia: “Escravos. Na Rua da Consolação, 72, há 38 peças para vender... todos bonitas peças. Vende-se barato para liquidar”[4].

A quantidade de títulos existentes era grande, mas eram de pequena tiragem, e sua estrutura física era muito diminuta, havia uma forte concorrência disputavam um pequeno público e poucos anunciantes. Nessas condições os jornais não conseguiam se manter por muito tempo. Exceto os jornais partidários, pois faziam parte da estrutura do partido, logo, o caráter oneroso era pouco importante frente à função política do mesmo.

O Império Brasileiro conteve violentamente todas as revoltas e manteve a unidade de seu território, mas entrou em um declínio, com as restrições ao tráfico negreiro (meados do século em diante), que restringia sua economia escravista e pela emergência de uma classe de produtores, que em São Paulo assentava-se sobre o café. Essa assume cada vez mais características capitalistas burguesas, exigindo cada vez mais controle o político do país.

Nesse contexto os jornais debatiam entre as causas abolicionistas e escravistas. Em seus escritos o fim da escravidão não se apresentava como uma questão humanitária, com uma autonomia do escravo, longe disso. Mas defendendo os interesses de dois modelos, entre os senhores detentores de escravos e a nobreza; militares e plantadores de café aburguesados de São Paulo. Tratava-se de uma frente importante de disputa entre o modelo escravista e aristocrático contra o capitalista e burguês. Quando da proclamação os jornais publicaram apenas uma frase: “Viva a república”.

 

O apoio dos jornais à República: A capa d’O Estado de São Paulo, na época, chamado de A Província de São Paulo[5]

A política, mais do que aquilo que foi evidenciado pelos filósofos gregos como a arte do bem governar, nos países de tradição colonial, como é o caso do Brasil, torna-se a arte do bem dominar. E a dominação prescreve uma infinidade de procedimentos, dentre eles a capacidade de determinar a visão, o entendimento das massas, ou seja, de fazer com que aquilo que se acredita numa perspectiva política, torne-se o certo para os demais. E a imprensa nesse sentido, tornou-se o carro chefe da pulverização das perspectivas políticas dominantes; eram os jornais e demais publicações os responsáveis por transmitir ao povo idéias e visões a respeito de infinitos temas (dentre eles a já citada questão da escravidão).

Existiam tantos jornais, quanto fossem possíveis haver diferentes grupos políticos disputando o poder. E seus meios de comunicação serviam a seus interesses, buscando na disseminação destes a possibilidade de arregimentar as massas à seus interesses. Cada notícia, cada editorial, cada linha nos jornais era escrita pensando em uma forma de parecer atrativo ao leitor e ao mesmo tempo degradar os demais adversários.

O crescimento urbano do período da República Velha acabou por esvaziar os jornais partidários, outra causa foi o advento de um novo tipo de jornal, mais adequado ao capitalismo que estava se arraigando no país com a Era Vargas.

Referências

PINTO, Virgílio Noya. Comunicação e cultura brasileira. Ática, São Paulo, 1986.

RUDIGER, Francisco. Tendências do Jornalismo. UFRGS. Porto Alegre, 1993.

http://historiadaimprensanobrasil.blogspot.com.br

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Notas

[1] http://plugcitarios.com/2012/09/204-anos-do-primeiro-jornal-impresso-no-brasil/

[2] Apud. RUDIGER, Francisco. Tendências do Jornalismo. UFRGS. Porto Alegre, 1993.

[3] A referência a partidos políticos está entre áspas, pois sua formação como conhecemos hoje, em agremiações estava em formação, mas desde aquela época os jornais já eram usados como disseminadores de suas doutrinas.

[4] http://historiadaimprensanobrasil.blogspot.com.br

[5] http://antoniocavalcantefilho.blogspot.com/2010_11_01_archive.html

 

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