Notícia e mídia no Brasil (I)

14/05/2013 10:48

Davenir Viganon e Alex Oestreich

“Se na comunicação cotidiana a ambiguidade é excluída e na estética é proposital, nas comunicações de massa a ambigüidade, ainda que ignorada, está sempre presente.” - Umberto Eco

Democratizar a mídia é um dos passos essenciais para um futuro melhor do nosso país. Enquanto outras nações da América Latina já iniciaram esse caminho, como a Argentina, Equador e Uruguai, o Brasil carece urgentemente de uma mídia mais pluralizada e democrática. Uma das frentes dessa luta se encontra na disseminação de mídias alternativas e através dos diversos formatos que a tecnologia nos oferece como sites, blogs, rádios comunitárias. Elas lutam ao seu modo contra a conjuntura atual das comunicações de massa no país. Uma mídia alternativa independente não apenas denuncia os donos do poder, mas também oferece caminhos, abre debates com o público e discute a si mesma.

Discutir a mídia e abrir esse debate para o público contribui para uma tomada de consciência da sociedade. Comecemos perguntando o que representa a mídia para nossa sociedade? Como ela influencia nosso país? Partimos da idéia de que a mídia está entre o fato e a população fazendo, como o nome diz, uma mediação entre esses dois elementos. O jornal nada mais é do que seu suporte, assim como o rádio, a televisão e internet. Quem te conta o que acontece pelo mundo, não está alheio a este, nem está sozinho. Em nosso país os grandes veículos de mídia se declaram imparciais, isentos de interesses, o que leva a opinião pública a crer que a informação transmitida por eles é a única e totalmente impoluta de influências políticas e econômicas. Toda escolha demanda uma tomada de posição, tomar partido de algo é fazer política, mesmo que não sejamos filiados a um partido político. Ao escolher a notícia não se faz diferente. Os grandes meios de comunicação não nos permitem fazer essas distinções. Organizados em grandes oligopólios de comunicação tais grupos, monopolizam a informação em todos os seus suportes; mas também são politicamente engajados na manutenção de seu poder e isso interfere diretamente no trabalho de noticiar fatos. A informação que você é transmitida todo dia no rádio, jornal, televisão e internet nem sempre significa conhecimento sobre o que se passa na sociedade. É uma seleção feita previamente, que pelas suas características conjunturais e estruturais serve aos propósitos dos patrões donos do negócio. Assim, a mídia tem o poder de escolher as pautas e direcionar o debate no sentido que mais lhe favorece.

Acabamos de te dar um novo conhecimento, mas é necessário refletir sobre ele e o que se pode fazer a respeito. Através de uma série de textos, vamos fazer procurar traçar um quadro de como a chamada imprensa se estabeleceu e se desenvolveu no país, influenciando e sendo influenciada pelos processos políticos decorridos, se modificando ao longo da história, escrevendo-a, não apenas noticiando-a, em suas linhas, mas também entre elas. Também pretendemos apontar alguns caminhos alternativos, pois existem alternativas que lutam pela democratização da mídia, mostrando que a sociedade não está em sua totalidade coberta pelo véu denso da informação homogênea.

Antes da imprensa havia a colônia

A imprensa só chega ao Brasil em 1808, com a vinda da família real. Mas antes de abordar esse período cabe fazer algumas considerações a cerca da comunicação no Brasil antes da entrada da imprensa. No Brasil já havia comunicação, pois segundo Noya Pinto, ela não está separada da cultura.

Passada algumas décadas da chegada dos portugueses em 1500, foi implantada efetivamente uma colônia nas terras descobertas na América. Depois do fracasso em escravizar os nativos, o negro africano possibilita a existência de uma colônia lucrativa para a coroa portuguesa.

Por definição, uma colônia não serve a outro propósito senão enriquecer a metrópole. Para a preservação desse propósito, a coroa portuguesa impede qualquer comunicação entre as suas áreas coloniais e com outras quaisquer. O objetivo é evitar a influencia de outros impérios europeus e de qualquer intenção autonomista dentro da colônia. Assim ficava impossibilitada qualquer pretensão de se ter uma imprensa em terras verde amarelas.

Mesmo sem um sistema que fizesse circular a informação, era necessário um mínimo de comunicação para a empresa de colonização. Os jesuítas, em sua dominação sobre os índios, sincretizando os dogmas cristãos com a cultura nativa, utilizava uma elite de índios aculturados para administrar as missões – unidade de produção – cabendo aos padres apenas fiscalizar esse trabalho circulando entre as missões.

No ciclo do açúcar, a colônia imprimiu um ritmo forte a terra e uma utilização mais proveitosa para a coroa. Sendo no ciclo do ouro, que começa a haver uma conexão entre as regiões da colônia, pela necessidade de abastecimento (sobretudo alimentar) das regiões auríferas, voltadas principalmente para as Minas Gerais.

 

Tropeiros das Minas gerais - Debret[1]

As cidades opulentas do ouro e as outras áreas urbanizadas cultivam uma comunicação mutua através das rotas de tropeiros que

“nas suas viagens constantes, traçava verdadeiras teias de comunicações entre as cidades, as vilas e os povoados e, ao mesmo tempo, era o emissário oficial, o correio e o transmissor de noticias. Era o intermediário de negócios, o agente bancário, o portador de bilhetes e de recados, o aviador de encomendas e de receitas.” [2]    

Mas antes de qualquer via legal, já circulava uma imprensa clandestina, disseminando panfletos em épocas de revoltas como as ocorridas em Minas, Bahia e Pernambuco. Na conjura baiana, por exemplo, já circulava o seguinte panfleto:

“Animai-vos Povo Bahiense, que está para chegar o tempo feliz de nossa liberdade; o tempo em que todos seremos irmãos; o tempo em que seremos iguais” [3]

A influência dos ideais da Revolução francesa se faz evidente, mas seriam atenuados pela inesperada chegada da família real portuguesa ao Brasil.

Próxima Parte

Referências

PINTO, Virgílio Noya. Comunicação e cultura brasileira. Ática, São Paulo, 1986.

RUDIGER, Francisco. Tendências do Jornalismo. UFRGS. Porto Alegre, 1993.

Notas

[1] http://www.asminasgerais.com.br/zona%20da%20mata/Biblioteca/Personagens/Tropeiros/Tropei0001.html

[2] PINTO, Virgílio Noya. Comunicação e cultura brasileira. Atica, São Paulo, 1986. P.19

[3] Idem. P.23

 

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