Noticia e mídia no Brasil (XVI): Internet para emancipação ou para reprodução do capitalismo?

22/10/2013 12:27

Davenir Viganon

A internet é a mídia que trouxe, e ainda traz, as mais recentes e impactantes transformações na nossa sociedade. Muitos dizem que se trata de uma quarta fase revolução industrial outros de um aperfeiçoamento da terceira. Independente disso, desde a invenção dos computadores, e toda teconolgia que ele suporta, originou-se muitos questionamentos sobre seus impactos na sociedade desde a cultura cyberpunk que explorou, por exemplo, na literatura de William Gibson e Philip K. Dick, as preocupações com o futuro da humanidade imaginando-o como caótico e distópico, até as redes sociais, geridas por empresas capitalistas, que se mostram como portadores de uma integração entre os seres humanos como nunca antes possível. Nessa integração as noticias entram num fluxo tão veloz, instantâneo mesmo, que torna muito perceptível a diferença entre os que já nasceram acostumados a essa velocidade e aqueles que tiveram de se adaptar a ela.

Entre os aparelhos ideológicos do capitalismo que tiveram de se adaptar-se a essa tecnologia está a mídia. Pelo Brasil atualmente fazer parte de um mundo pós-colonial as tecnologias de prensa demoraram a se consolidar no país, o rádio e a televisão demoraram bem menos, e os computadores menos ainda. É um salto gigantesco de um país onde o livro era um pecado para uma avalanche diária de informação.

Quando um novo veículo de informação surge na sociedade, as mídias tradicionais, e seus donos, tem de se adaptar a elas sair da sua “zona de conforto” e englobá-las aos seus dominios. O rádio nos anos 30 tomou um lugar de centralidade no lar do brasileiro, mas teve de se reinventar a medida que a televisão tomava o seu lugar, hoje é um veículo de comunicação individualizado. A internet teve um impacto muito maior e é perceptivel quando reparamos no modo que as midias tradicionais tiveram de se adaptar a velocidade e a interatividade da internet e como a propria tem se relacionado com os oligopólios da informação no Brasil.

A internet no jornal, na rádio e na TV

Os jornais impressos tiveram de se popularizar, para atender a uma população que ainda acessa a internet precariamente - cabe salientar que apesar de toda a facilidade que se tem para o acesso a internet, sua distribuição de qualidade de conexão é muito desigual. Esses jornais não apenas mudaram a sua linguagem mas também adotaram um aspécto mais colorido e intuitivo para “competir” com os layouts dos websites. De uma maneira geral a prórpia informação nos jornais está também “contaminada” pela influencia das redes sociais. A repercussão das noticias é cada vez mais medidas em “curtidas” e “visualizações” nas redes sociais.

Nos telejornais podemos encontrar alguns detalhes sutis da tentativa de se adaptar a internet. Obviamente sabemos que as redações são informatizadas e que a noticia apresentada flui por esse meio, mas no que vemos na telinha durante a apresentação é uma tentativa dos apresentadores de se mostrar como “informatizados”, com teclados, notebooks, tablets e até aquelas telas de toque com as quais vemos muitos jornalistas tarimbados se atrapalharem ao tentar manusea-los.

Mas voltando a noticia em si ainda não temos tantas menções vinculadas a internet. É uma tendencia a evitar-se em falar dela e das redes sociais que virou explicitamente politica de empresa no caso da decisão da Rede Globo[1] em não utilizar mais os nomes “Facebook”, “Google”, “Twitter” para referir-se as redes sociais sob a alegação de não fazer propaganda gratuita. Essa atitude evidencia uma fraqueza pela qual as receitas dessas empresas tem passado atualmente.

Mas não podemos esquecer que os programas de entretenimento utilizam muito a internet. Vemos isso nas leituras de mensagens pelos apresentadores ou quando elas aparecem em uma barra inferior da tela (escolhidas? inventadas?), buscam dar uma sensação de que o telespectador pode interfirir no programa. Essa ilusão é levada ao extremo em reality shows com os quais os telespetadores acreditam que decidem os rumos do programa votando em “paredões” enquanto depositam suas moedinhas no cofrinho da emissora.

Nos programas de rádio, a adaptação parece ser melhor digerida. Como é um veículo individualizado - como a própria internet -, os rádiojornais transmitem a noticia muitas vezes lendo as telas de computador. Os programas de entrevistas, rodas de conversa, são alimentadas pelos pitacos do público nas páginas dos programas nas redes sociais, para que a conversa nunca esfrie.

Sem essas adaptações, mesmo quando realizadas a contragosto, os veículos estão fadados a inutilidade. Não nos interessa fazer prognósticos para o futuro, nem vamos anunciar um fim das velhas midias, mas que em no momento temos uma crise pelas quais as empresas consolidadas que operam revistas, jornais e TV tem de se reinventar ou encolher é evidente[2].

Se essas empresas estão perdendo algo, alguém está ganhando. Apesar dessas mesmas empresas estarem presentes na internet, tendo seus sites com altos indices de acesso, como a Globo.com, elas não estão totalmente no controle da informação.

Jornal, rádio e TV na internet

A internet também adaptou as velhas mídias para si. Temos as “rádios” na internet que transmitem o áudio pela rede sem utilizar as ondas de rádio, programas de TV na internet que também não depende das faixas destinadas ao sinal de televisão para disponibilizar-se ao público e versões digitais de jornais que dispensam o papel. Com a vantagem de poder deixar comentários sobre o que viu/ouviu/leu no próprio site. Esses programas são adaptações dos meios tradicionais ao meio eletrônico, mas que podem ser feitas e distribuídas por qualquer um. Obviamente que o nome das empresas tradicionais tem um peso enorme, mas ao menos não é necessário obter uma concessão pública para abrir um canal no youtube ou um programa de “rádio” na web que pode se ouvido, gravado e passado adiante como um arquivo de som, entre outras facilidades.

Mas mesmo esses formatos não são capazes de disseminar com tanta velocidade e ganhar repercussão sem as redes sociais. Elas se tornaram uma frente importante no esforço de democratizar a mídia, por que facilitam o acesso à informação e também a produção de informação (eis o nosso site como exemplo) que se oferece como alternativa a mídia tradicional. Mas nem tudo são flores. As redes sociais fazem a informação circular freneticamente, o que atrapalha a qualidade da informação que se recebe, acarretando na perda de credibilidade do que lemos/vemos/ouvimos. Focando agora no Facebook, os usuários moldam como acessam a cada clique formando padrões em seu perfil. Em troca dessa torrente de informação com a qual interagimos, curtindo, postando, comentando, etc. fornecemos muitas informações nossas e esta é a grande jogada. Tornamo-nos assim a mercadoria pelos quais os anunciantes é que são os clientes do senhor Zuckeberg.

Crise da mídia no Brasil?

É possível falar que a mídia como se molda no país está em crise? Por um lado temos editoras como a Abril que ameaçam fechar publicações como a Playboy, jornais que se popularizaram tomando lugar nas vendas dos jornais tradicionais com demissões desses jornais como na Folha de São Paulo[3], as mídias eletrônicas ganhando um espaço que dificilmente conseguiriam com poucos recursos, Emissoras de TV com a Record fazendo um limpa nos grandes salários, a baixa audiência da Globo, o eterno campeão na modalidade, mas por outro lado o poder econômico e politico que essa mídia possui e a quem ela dá voz ainda está firme. Os governos progressistas não constituíram ameaça ao domínio dos oligopólios no Brasil.

Os protestos de junho inseriram o Brasil na rota de manifestações que coincidem não apenas pelo teor de “falta de representatividade”, mas também pelo uso das redes sociais como veículos dessa indignação.

Apesar de toda essa importância dada as redes sociais, e das facilidades promovidas por ela a uma mídia alternativa contra-hegemônica, a grande e velha mídia mostrou todo o seu poder ao conseguir impor seu discurso à massa de manifestantes recém-acordados. Deixando apenas uma minoria, consciente e ativa, com a questão da democratização da mídia em sua pauta.

A internet que dispomos não serve a cidadania. Apesar de suas possibilidades tecnológicas, tem se prestado mais a manutenção do sistema capitalista, como pode ser percebido nas manifestações de junho.

O futuro desta pauta está sendo decidido a cada ato - dentro e fora da internet - que temos presenciado em todo o país, pois a cobertura falaciosa e tendenciosa que a grande mídia tem nos oferecido, possui mais chance de ser desmascarada quanto mais pessoas participarem in loco ao fato noticiado por ela.

***

O debate está longe de se encerrar com o fim desta série e espero que esta breve recapitulação histórica da mídia em nosso país, desde a proibição do livro no período colonial até a velocidade da internet, sirva para que se possa entender de modo processual a noticia e quem noticia em nosso país.

Notas

 

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