Notícia e mídia no Brasil (IX): O divórcio da Televisão com a ditadura

16/07/2013 08:49

Davenir Viganon

Contar a história da mídia televisiva no período de abertura, sem contar a história da Rede Globo é impossível. A emissora de Roberto Marinho cresceu junto com o regime em intima aliança, acumulou considerável poder enquanto o dos militares se desgastava. Mas não pensemos que ditadura findou por conta de pressões da sociedade civil, apesar dos protestos e de outras manifestações terem sido muito importantes, todo o processo foi conduzido pelos militares e civis no poder. Essa passagem do bastão de poder foi lenta, segura e gradual.  Iniciou com uma “distensão política” do regime sob o governo Geisel, que procurou desmontar o aparelho repressivo do estado e continuou com uma “política de abertura” do governo Figueiredo que procurou dar seguimento e aprofundar a transição, despertando a ira de uma extrema-direita que chegou a apelar para o terrorismo, como o caso da bomba no RioCentro[1]. Os militares não estavam promovendo uma volta aos quartéis e sim uma retirada da política de dentro dos quartéis.

Atentado a bomba no rio-centro[2]

A maior preocupação dos militares durante o período de transição era que o modelo de governo que ocuparia o espaço deixado por eles não aderisse a qualquer projeto desenvolvimentista similar ao que haviam derrubado em 1964. Assim uma democracia-liberal se encaixou como o caminho político mais agradável aos conservadores. Ainda quando a política partidária era organizada em dois partidos - ARENA e o MDB - o segundo já acumulava um aumento continuo de votos desde 1966, venceu todas as eleições ao senado federal e as assembléias estaduais desde 1974 e na câmara de deputados desde 1978. Em 1985 já como PMDB, Tancredo vence, mas não assume por falecimento, sendo José Sarney empossado como presidente de transição, de um regime militar mais civil, mas ainda autoritário, que cada vez mais liberalizava a economia enquanto lidava com graves problemas econômicos, principalmente a inflação galopante que sobrevivia a cada plano econômico criado para conte-lo.

Nesse ínterim temos uma significativa guinada nas relações da Rede Globo, até então “porta-voz não oficial” do regime, com os militares. O período de transição evidenciou o fato da Rede Globo procurar estar sempre ao lado de quem governasse. O documentário “Muito além do cidadão Kane”, mostra que o primeiro presidente civil do regime militar, Tancredo Neves, havia se reunido com Antonio Carlos Magalhães (ACM) e Roberto Marinho dono da Rede Globo para um “almoço”. Apesar da morte de Tancredo, antes de tomar posse, seu vice José Sarney nomeou ACM para o cargo de Ministro das Comunicações. Ambos, Sarney e ACM, já eram donos de filiais da Rede Globo. O favorecimento político molda as práticas jornalísticas e explica os casos polêmicos envolvendo a emissora.

Protestos do ABC

Entre os muitos protestos que aconteciam pelo país, se destaca a greve promovida pelo movimento sindical do ABC paulista, importante região industrial, liderado por Luis Inácio Lula da Silva que aconteceu no ano de 1979. A cobertura dos protestos foi extremamente desfavorável aos manifestantes, segundo o relato de Lula ao documentário, tanto ele quanto o representante dos patrões foram entrevistados, mas foi exibida apenas a entrevista do segundo e a noticia não mostrou qualquer declaração de nenhuma liderança sindical. O episódio mostra o comportamento padrão em relação aos protestos em que, quando não silencia, distorce as demandas dos movimentos sociais.

Lula na greve de 1979[3]

Boicote a Brizola no Rio de Janeiro

Outro fato que mostrou a influência da emissora na política foi o caso do boicote a candidatura de Brizola ao Governo do Estado do Rio de Janeiro. A Rede Globo promoveu uma manipulação dos institutos de pesquisa que deram por certa a derrota do candidato gaúcho. Usando um sistema de contagem paralela de votos, a globo esperava manipular o pleito. A resposta de Brizola não tardou, ele convocou a imprensa internacional e conseguiu um o direito de resposta. No final Brizola vence Moreira Franco, candidato dos militares, por 4 pontos percentuais de vantagem.

Diretas Já

A campanha pelas “Diretas Já”, que ocorram em 1984, foi um movimento que agregou diversos setores da sociedade, contrários ao regime, entre elas lideranças sindicais, artísticas, civis, jornalísticas e estudantis. Entre os políticos Ulysses Guimarães ganhou notoriedade e o apelido de “Senhor Diretas”. Além dele Tancredo Neves, Franco Montoro, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Lula e Mário Covas entre outros.

A pressão popular foi enorme, mas a cobertura jornalística da Rede Globo foi tímida só iniciou quando esta já acontecia há 90 dias. Quando já não era possível ignorar as manifestações, foi noticiado falsamente como se fosse uma festa de comemoração pelo aniversário da cidade.[4]

 “O movimento pelas diretas foi além das organizações partidárias, convertendo-se em quase unanimidade nacional. Milhões de pessoas encheram ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro, com um entusiasmo raramente visto no país. A campanha das “diretas já” expressava ao mesmo tempo a vitalidade da manifestação popular e a dificuldade dos partidos para exprimir reivindicações. A população punha todas as suas esperanças nas diretas: a expectativa de uma representação autêntica, mas também a resolução de muitos problemas (salário baixo, segurança, inflação) que apenas a eleição direta de um presidente da República não poderia solucionar.” [5]

A Rede Globo estava cautelosa quanto a deixar o apoio aos militares. E seu posicionamento, evidenciado nos casos citados, deixa evidente que compartilhava da idéia de transição lenta e segura, ou seja, sem participação popular como no movimento das "diretas". Mas quando se mostrou inevitável ignorar, o movimento ganhou uma cobertura fantasiosa, e quando a implantação da democracia no Brasil se mostrou impossível de evitar, até mesmo para o poder de Marinho é que chega à hora de mudar o discurso e favorecer novos atores políticos, no caso os alinhados com o neoliberalismo.

Diretas já![6]

O divórcio foi amigável, reposicionou o discurso da empresa que se colocaria a partir daquele momento como vitima da censura do governo militar, mas esconde o fato de ela própria exercer uma censura econômica, pautada em seus próprios interesses políticos. A Rede Globo se adaptou melhor ao discurso neoliberal, pois poderia exercer melhor sua posição política sem um poder moderador estatal. Função essa que exerce até hoje.

Referências

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2000.

GUARESCHI, Pedrinho A. Mídia e democracia.

RUDIGER, Francisco. Tendências do Jornalismo. UFRGS. Porto Alegre, 1993.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_globo_e_a_ditadura_militar

http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1121

http://monografias.brasilescola.com/historia/a-cobertura-rede-globo-sobre-movimento-diretas-ja-choque-versoes.htm

Beyond Citzen Kane (Muito além do Cidadão Kane). Documentário

Notas

[1] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2000. P. 505.

[2] http://www.comunistas.spruz.com/pt/Entenda-o-que-foi-o-Atentado-do-Riocentro/blog.htm

[3] http://sorjulio1.blogspot.com.br/2011/05/o-dia-do-trabalhador.html

[4] Ver o vídeo www.youtube.com/watch?v=R5oKmanJF0w

[5] Fausto. P. 509

[6] http://cafehistoria.ning.com/photo/1980410:Photo:821?xg_source=activity

 

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