Música com os olhos, uma Sinestesia Problemática

26/10/2013 09:56

Luiz Oliveira

A sociedade ocidental encontra-se tão absurdamente viciada no sentido da visão que procurou de maneiras distintas, interpretar visualmente tudo aquilo que era até outrem analisado por outros sentidos, criando sempre sinestesias forçadas e obrigatórias, para ter, de alguma forma, uma assimilação do material, comunicar-se linguisticamente.

Poderia tranquilamente abordar essa questão referindo-me ao olhar (visão) para a comida como objeto de qualificação do gosto (paladar) entre outros exemplos de inversão e mescla de sentidos, mas prefiro ater-me a sobreposição do sentido visual para com o auditivo (que é o mecanismo ocorrente em música, nosso objeto maior de estudo aqui).

Um virtuoso (ou aspirante a) se dá por necessidades sonoro-musicais ou por meros deslumbramentos visuais? Parece-me haver um conflito muito claro entre possíveis respostas para este dilema, uns (certamente influenciados pelo pensamento freudiano) chegariam a cogitar uma questão fálica como sendo uma alternativa para se requerer tamanhas destrezas na prática com o instrumento (aqui se faria uma analogia entre o falo e o instrumento musical), mas penso não ser muito oportuno me envolver intensamente na explicitação psicológica detalhada desta teoria freudiana aplicada a prática musical.

Outros trariam a questão da necessidade de desenvolvimentos rítmicos, melódicos e harmônicos, o que a própria arte em um sentido mais pleno, requer enquanto evolução humana na construção da cultura, uma transformação que ocasiona o seu ápice e declínio em uma divisão sutil.

Outros ainda aceitariam a concepção que abordo e julgo como a mais coerente, a de uma sinestesia forçada e dependente de um sentido específico (a visão) para entendimento do material (a arte, a cultura, a vida) em detrimento dos demais sentidos.
Esta última concordância (assim como as demais argumentações, de alguma maneira) explicam uma série de casos equivocados, de supostos virtuosismos (músico) e supostos gostos musicais (ouvinte) adquiridos através de leituras visuais (como isto não é entendido de maneira ambígua?!) do utensílio cultural, o que ocasiona todo um mercado musical (produtor) viciado e tendencioso neste tipo de selo de qualidade que não é propriamente musical e que engrandece praticantes da música que seriam completamente abomináveis se fossem criterizados exclusivamente por parâmetros auditivos, sendo categorizados como não musicais e excessivamente mecânicos (o que para as áreas humanas é um caminho na contramão).

Esse tipo de assimilação se dá de maneira recorrente quando se busca adjetivar determinados elementos na música, um som “encorpado”, “com brilho”, “aveludado”, são terminologias que costumeiramente são utilizadas para designar sentidos outros (tato, visão, paladar), mas que são apropriadas para questões sonoras, essa escassez de termos auditivos para adjetivar sons se dá pelo vício visual, construção educacional e social que vem se desenvolvendo e criando olhos absolutos e ouvidos descartáveis, que forçou um sentido (o óculos é produto dessa utilização exacerbada).  

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