Muito além de 5 causas

26/06/2013 11:44

Helen Rotta

Acho que a nossa parte a gente sempre pode fazer. Isso é obrigação.  Fico sempre muito desconfiada ao analisar fatos que acontecem com pouco afastamento temporal e sempre prefiro esperar. Mas penso que o caso merece um esforço da parte dos historiadores em tentar mensurar todos esses movimentos. Já que está na moda “numerar/elencar causas” para ir às ruas manifestar, vou elencar (ou melhor, relembrar) aqui algumas, dando um panorama geral das manifestações e da movimentação que vem se desenhando nas últimas semanas.

- O tensionamento da estrutura que vivemos no Brasil existe a muito tempo. Não, o Brasil não acordou agora. O Brasil vive um histórico de opressão cotidiana, em diversas esferas (as quais nem caberia aqui elencar) que somente tem melhorado nos últimos 10/12 anos. Quer você goste quer não. Se não acredita, apenas recorra as estatísticas e índices: encontrará a resposta. Estamos longe do que se pensa ser o ideal? Certamente. Mas aqui ninguém é ingênuo para achar que, em menos 30 anos - período correspondente a redemocratização - o Brasil viraria de cabeça para baixo e teríamos, magicamente, uma nova história ai, pronta, como um bolo. A história nos ensinou isso: as coisas demandam tempo.

- Sendo assim, existem, é claro, demandas pendentes. Os movimentos sociais estão aí para nos mostrar isso e conduzir a nós e aos partidos, aos apartidários e seja lá quem for, os "suls” (não somente nortes) que devemos seguir. Portanto, amigos, quando pensarem que essa luta surgiu ontem, com as manifestações, pense: na opressão que os negros sofrem desde a escravidão (faz a conta aê), nas mulheres que morrem por todo o Brasil a cada meio minuto, na homofobia, na expropriação do carinha que trabalha limpando a rua pra ti passar, na criança que fabrica o teu All Star bonitão e na modinha, no índio sem terra, no agricultor sem agricultura enquanto o teu primo rico dono da fazenda deixa crescer o mato de 5 hectares no quintal...

- Então, gente, não! Isso não se trata de uma batalha contra a corrupção. Isso não é uma batalha contra o PT. O PT não foi o inventor da corrupção. A Dilma não é o Collor. Essa história de anti-partidarismo a gente já conhece e o Brasil já viveu. A ditadura era contra partidos políticos e instituiu no Brasil o governo mais autoritário, CORRUPTO, violento e anti-popular que nos conhecemos. Pare e pense e relacione. Pondere e não distorça as coisas. Preste a atenção e fique atento as informações, dialogue com elas. Pare e pense na realidade. Busque os fatos na história e ela vai te mostrar as coisas como elas realmente são. E ainda mais importante: não desperdice o seu direito de lutar pela melhoria da vida das pessoas! DAS PESSOAS.

- Já que é assim, organizados em partidos ou não, devemos entender a realidade que vivemos. A minha opinião é partidária, ok. Você não precisa tê-la. Mas apenas saiba que existem organizações e governos que vão prejudicar o Brasil de uma forma que ninguém aqui quer. Eu tenho certeza; Ninguém aqui quer ficar sem ter acesso a bens e serviços que atendam as nossas demandas, para mais ou para menos. Todos queremos o que é nosso por direito. Saúde, educação, acesso a cultura, extermínio da pobreza. Mais consciente ou menos conhecedor das causas sociais, eu afirmo com tranquilidade: Ninguém quer a volta de um governo autoritário.

- Se assim é, fique atento: 

- Se você é contra os partidos, pense: a ditadura também não os quis.

- Se você acha que o atual governo não te contempla: beleza, mas me contento que você pense bem em quem vai querer "colocar" no lugar. Analise o perfil de cada partido que você acha que deve substituir o atual. Leio e pesquise o seu histórico. Pense na sua vida hoje, nas coisas que melhoraram e que ainda vão melhorar (como eu havia dito, tudo demanda tempo) e pondere se essa é a decisão mais sensata a tomar.

- Se você acha que esse movimento é contra a corrupção: não é! esse movimento é pela liberdade, pelas lutas sociais, pelo fim das opressões contra as minorias, pelas pautas dos calados, pelo levantar do povo. Ele é popular e tem demandas MUITO mais importantes do que a corrupção: fome, desemprego, racismo e preconceito, autoritarismo...

- Se você quer participar dos próximos protestos: VENHA! mas entenda que ele é um levantar POPULAR. Trás contigo o MST, os movimentos negros, os movimentos GLBT, os movimentos feministas, os movimentos indigenista, o movimento estudantil, ...

Finalizo dizendo que todo o levante é válido, mas precisamos ter cuidado e não estar só empolgado em fazer parte disso tudo, mas SIM, precisamos entender a realidade e o que motivou tudo isso. Isso não é o hoje. São os anos ecoando. Só é preciso que saibamos o porque ainda podemos - e de que forma - dar vozes aos ecos, ou melhor, GRITAR os ecos.

Imagem: Tarsila do Amaral - Morro da Favela - 1924

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Data: 27/06/2016

De: Ivan

Assunto: Causa e efeito

Texto muito bom. Apenas vou pontuar dentro do meu parco conhecimento, que não creio na tragédia total pintada sobre o governo militar, mas muito menos na propaganda ideológica e oportunista que se faz agora, de que os militares salvaram o nosso Brasil. Concretamente houveram abusos e acertos. No bojo dos partícipes, havia os bem (idealistas que criam estar fazendo o melhor, mesmo não o sendo) e os mal intencionados (civis e militares aproveitadores de ocasião). Mas é passado, e passado utilizamos como referência para viver o presente e tecer o futuro. Concordo plenamente com a questão histórica, e o que lamento em relação ao todo, é ver corporativismo e individualismo, quando na realidade a questão transcende totalmente a esfera pessoal.

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Data: 28/06/2013

De: Elenilton

Assunto: Corrupção

Sim, não foi o PT que inventou a corrupção. Mas entrou muito bem no jogo. E o fato da corrupção ser histórica, não diminui a responsabilidade de quem a pratica.
Dilma não é Collor. Exato. Mas Collor apoia Dilma, assim como Sarney e toda a elite latifundiária, os bancos etc etc.
Então, há muitos motivos para a indignação. E se ela se volta também contra a chamada "esquerda" que está no poder, não há porque ficarmos colocando panos quentes.
Em minha visão, o discurso do "golpe de direita" é ele mesmo um golpe. Um golpe nos movimentos populares que estão na rua (espontâneos, enlouquecidos, confusos...não interessa).

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Data: 27/06/2013

De: hela

Assunto: poética

Que poética essa imagem de Tarsila, não é? Mostra uma favela tão linda e colorida que chega a ser idílica.

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