Movimento do Passe Livre, outros agregados e as possíveis consequências

21/06/2013 12:17

Alex Menez

Durante essas últimas semanas a sociedade brasileira tem sido sacudida de sua monotonia cotidiana por uma série de passeatas, em algumas das principais capitais do país. Este movimento alguns afirmam ter a sua origem nos protestos contra o aumento das passagens em Porto Alegre, que começaram desde o inicio do ano. Entretanto, sem nos determos na analise da gênese destes movimentos, preferimos outro caminho, vamos buscar entender a constituição em si dos movimentos e, as suas possíveis implicações a curto e médio prazo para a sociedade brasileira.

Em primeiro lugar nunca antes na história da nossa terceira era republicana foi marcada por movimentos com um volume tão alto de manifestantes, e também, ocorrendo de forma simultânea em diversas capitais do país. Apesar de que algumas pessoas possam lembrar-se do movimento – caricato da Rede Globo – em 1992 “exigindo” o impechament do presidente Collor de Melo. Dessa forma, passemos então a próxima questão. Quem são os indivíduos que fazem parte desses atuais movimentos de massa?

Fonte: http://www.pirikart.com.br/image/53331393870

Na capital do estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, os movimentos contrários ao aumento das passagens foram sempre organizados por jovens estudantes. Estes, que por sua vez, possuíam as mais diferentes formas de pensamento político. Porém, o que faz estes – realmente muito – jovens com as mais diferentes visões de mundo ter algo em comum? O elemento de coesão entre eles era o protesto contra o aumento da passagem do transporte coletivo predominante em Porto Alegre, o ônibus.

Estes indivíduos, desde os “jovens” militantes que almejam ingressar na carreira política através de um longo caminho de militância partidária, fazendo parte dos Diretórios Acadêmicos das escolas e universidades, eram os principais organizadores desses movimentos. E também, para dar volume contavam com a presença de alguns jovens, sem qualquer interesse político, ou concepção de conhecimento social. A não ser a contrariedade ao aumento da passagem de ônibus. Sendo assim, estes movimentos até então contavam com poucos adeptos, com isso o único resultado que obtinham era o aborrecimento dos inocentes motoristas. Que por sua vez, eram prejudicados com a paralisação do transito e assim a perda de algumas horas de suas importantes tarefas cotidianas. Em suma, além do aborrecimento dos nobres motoristas, estes protestos não obtinham qualquer apoio da população local. Além de ouvirem a costumeira frase: “eles não tem nada para fazer? Vão trabalhar vagabundos”.

O que mudou? O grande aumento dos manifestantes, que passaram de umas poucas dezenas para os milhares. Apesar das estimativas contabilizadas pelos policiais militares variarem, entre cerca de 5 mil a 10 mil, ou mais manifestantes. (Neste ponto abro um parêntese. Eu sempre quis saber como é feita a somatória dos indivíduos de uma manifestação, será que a policia pede para todos levantarem as mãos e conta um por um, ou distribuem fichas com a sua respectiva numeração. Algo que depois pode ser utilizado de forma prática pelos pacíficos homens da lei: “manifestante 4.357 dirija-se a portaria para a terapia com o cassetete”). Ou também, podemos ver as imagens dos grandes conglomerados humanos, através dos imparciais meios de comunicação (o que seria das nossas vidas sem essa caixa mágica conhecida como televisão. Ou também, como me ilude que eu gosto). Outra modificação foi em relação aos adeptos destes movimentos. Apesar dos jovens ainda figurarem como maioria, os protestos também passaram a contar com indivíduos de várias faixas etárias. Inclusive, com a nobre raça dos artistas de televisão (principalmente da Rede Globo), estes seres quase divinos em que suas existências consistem na tarefa de nos trazer alegria e exemplos de vida aos nossos tristes corações.

E quanto ao imaginário político dos manifestantes? Mudou? Obviamente que mudou, mas a mudança ocorreu para um aumento da desfragmentação do imaginário político de seus membros. E o objetivo a ser alcançado? Bom este também foi alterado, antes o que as manifestações almejavam era redução da passagem. Porém, atualmente os manifestantes protestam por diferentes mudanças. Desde a critica a copa do mundo no Brasil, até o alto preço da manicure. Talvez, existam alguns manifestantes protestando contra a regulamentação trabalhista das empregadas domésticas.

Estes protestos não constituem qualquer programa político de mudança social, sendo assim, podemos ver que as manifestações estão caracterizadas como “queixas” ao Estado brasileiro. Sendo mais pontual, a atual gestão partidária desse Estado. A partir disso podemos também afirmar que os manifestantes adotaram o imaginário coletivo da mídia-conservadora e da classe média. Onde o que impede o “crescimento” do Brasil e, também é a principal mazela dos nossos males é a corrupção do aparelho burocrático estatal. Sem esquecer é claro – segundo estes grupos conservadores – da alta carga tributária que onera o bolso dos contribuintes. Dessa forma, estes protestos que em sua gênese não tinham qualquer base política coerente de transformação social, cresceram de tamanho e incorporaram o discurso conservador da classe média brasileira. Bem como as suas principais queixas. Portanto, o que vemos – ironicamente – em nosso país é um movimento conservador, onde a principal classe protestante é a classe média. Esta que não deseja nenhuma mudança radical, e que apenas obtenha novamente a sua ferramenta de felicidade.

Por que a classe média conservadora aderiu aos protestos? E qual é essa ferramenta de felicidade tão importante para a classe media? Bom, as duas perguntas possuem a mesma resposta, pois a classe media aderiu aos protestos devido a um único motivo, a perda no poder de consumo.

No final do mandato do presidente Lula e durante o mandato da presidenta Dilma o plano adotado para a sobrevivência da economia brasileira frente a crise mundial chegou ao seu limite. Quando estourou a crise mundial não se tinha ideia das proporções a que esta chegaria, sendo assim ela foi subestimada pela junta governativa, porém logo foi elaborada uma estratégia para que a crise não afetasse tanto ao Brasil. Essa medida que funcionou perfeitamente durante um curto espaço de tempo, foi o incremento do mercado interno através do incentivo a indústria automotiva brasileira. Devido a isso a economia brasileira não declinou durante a crise e, o crescimento do PIB continuou no mesmo patamar. Entretanto, o que vemos atualmente é o limite desta medida, pois o crescimento do mercado interno brasileiro não gerou um aumento real dos salários. E para piorar a situação estamos passando por uma inflação dos produtos. Obviamente que não é nada comparado aos anos pré-real, porém se pensarmos no poder de compra que chegamos a ter chega há assustar um pouco. Então se ainda não temos uma crise de fato e, a situação não é tão desesperadora quanto a algumas décadas atrás, por que afinal estão ocorrendo os protestos?

Bom, segundo o sociólogo Ricardo Antunes as revindicações não ocorrem em momentos de crise, pois a população tem medo e se fecha em seu sofrimento. Sendo assim, as revindicações ocorrem em momentos que são favoráveis aos protestos. Portanto, nossa atual conjuntura é favorável às manifestações que estão ocorrendo, pois não temos uma crise real, o que vem ocorrendo na verdade é uma diminuição na capacidade de compra de mercadorias pela classe média brasileira. Chegamos ao ponto do entendimento à adesão da classe média as manifestações. A ferramenta de felicidade deste agrupamento social é o alto consumo de mercadorias – na maioria superfulos – e o gozo da felicidade ocorre em seus templos de prazer conhecidos como shopping center’s. Portanto, se para a sobrevivência da economia brasileira houve uma política de crescimento do mercado interno nacional, e assim facilitação do crédito para todas as faixas etárias, inclusive aos aposentados que até então eram marginalizados do desfrute do orgasmo da compra. Entretanto, quando temos a estagnação desta medida, a inflação dos produtos e, também a perda do valor real dos salários, ocorre o que vemos atualmente. Ou seja, o grande descontentamento deste grupo social, que tem por único objetivo de vida a felicidade através do consumo e a perspectiva de ascensão social.

Quem é o culpado do fim desse curto período de felicidade? Obviamente que é o governo e sua corrupta máquina burocrática. Como dissemos anteriormente esse imaginário político é adotado pela mídia conservadora, e assim abraçado de corpo e alma pela classe média. Em suma, os protestos que sacodem o país tem como base o discurso vazio que a raiz de todo o mal é a corrupção dos governantes.

O real problema da sociedade brasileira não é esse, na verdade a corrupção é um simples sintoma do nosso verdadeiro problema. Este que remonta aos remotos tempos da colonização e, que foi crescendo historicamente até chegar ao seu ápice no que vemos hoje. O verdadeiro problema do Brasil se resume a uma única palavra: desigualdade.

As mazelas da nossa sociedade têm a sua gênese na desigualdade social, isto é um problema histórico. O nosso país é extremamente desigual entre os seus grupos sociais, pois em uma mesma localidade podemos ver um agrupamento de indivíduos muitos ricos e bem ao lado uma favela. E o que separa esses dois grupos é um fosso – social – que se torna cada vez mais profundo. Os manifestantes reclamam das condições do Brasil em relação à educação, saúde, transportes, violência, corrupção, etc. Porém, como disse tudo isso são sintomas de um mal maior, a desigualdade social. Desta forma, essas ondas de protestam causam medo pelo seu discurso sem qualquer base de transformação social e, principalmente por incorporarem o discurso midiático do “mal” do Brasil. E também, a falta de percepção do entendimento que o problema de nossa sociedade esta na desigualdade entre os diferentes grupos sociais.

Concluindo, quais serão as possíveis consequências desses movimentos conservadores? Em primeiro lugar, o governo petista vai sofrer um forte abalo, e assim propiciar um possível crescimento dos setores conservadores oposicionistas. Digo DEM e PSDB. Nunca houve um momento tão propicio no atual governo petista para um forte ataque dos partidos oposicionistas. Desta forma, se o carro chefe da oposição-conservadora – ironicamente – é a corrupção, este discurso pode ser facilmente angariado por ela e, assim aumentar as chances de vitória nas próximas eleições. Em segundo lugar, as reformas sociais podem ser paralisadas e, também pode haver um retrocesso dos investimentos visando o fim da desigualdade social brasileira. Pois, em um momento como este, o processo da reforma tributária que a anos está parado no congresso, tende a ser queimado e esquecido. Pois, um aumento da carga tributária, principalmente onerando os mais ricos vai contra a exigência dos manifestantes. Além do mais, estes mais privilegiados podem aderir ao protesto – como alguns já estão fazendo. Não seria interessante ver Eike Batista de mãos dadas com o populacho cantando o hino brasileiro?

Em terceiro lugar e a mais importante, o que existe é uma incógnita, pois não temos ainda capacidade de entender as consequências dessa onda de manifestação. Entretanto, a falta de um programa político coerente e, assim uma revindicação não por mudança, mas que deseje uma verdadeira revolução social. E acima de tudo, o discurso vazio, conservador e individualista que predomina nessa massa de protestos é algo extremamente preocupante e que causa medo.

Apesar de tudo do que falei até aqui, eu gostaria muito de estar absolutamente errado. E que a partir de agora ocorresse uma grande revolução social em nosso país. Pois, desejo o fim da desigualdade social, desejo o fim do racismo, machismo e da homofobia. Desejo o fim da idolatria a um jovem que não tem nada a dizer, a não ser que possui uma extrema coordenação motora nas pernas. Desejo a valorização dos professores, que as escolas públicas tenham um alto nível educacional, que as crianças em vez de discutiram bobagens em seus mundinhos cada vez mais individualistas, passem a discutir sobre mudanças sociais que farão quando forem adultas. Desejo a fraternidade da sociedade brasileira. Desejo o fim do consumo, da política do crescimento econômico e de todas as consequências que isso trás consigo. Por fim, desejaria ser apenas mais uma pessoa ingênua.

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