Movimentações reais e picuinhas virtuais

13/11/2012 08:26

Davenir Viganon

O Fato e a História se comunica com seu público através dos bits trafegados pela internet. Não raras vezes procuro discutir não apenas com vocês leitores, mas também com meus colegas e amigos, a importância, a dimensão, a validade deste meio. Como meio de mídia alternativa a que se propõem, discutir a mídia (os meios de comunicação de massa) é importantíssimo para a nossa autocrítica e interação saudável com o leitor. Se alguma linha publicada neste site soar agressiva, é por que você é tão humano quanto eu, mas que isso não deixe de ser um convite constante ao debate. Debatendo nos edificamos, mas apenas se fizermos o mínimo para isso, que é manter a mente aberta, para então buscar aprender tanto quanto querer ensinar. O que se mostra muito difícil quando falamos de redes sociais. Estas se integraram tão rapidamente na nossa sociedade que ainda não sabemos explorá-la de maneira eficiente.

Enquanto existem movimentações reais acontecendo pelo mundo também existem pessoas com certa noção do sistema que nos cerca, se manifestando através das redes sociais fazendo verdadeiras picuinhas virtuais, parecendo cachorros correndo atrás do próprio rabo, assombrados pelas sombras do passado. Apesar desse uso negativo da internet, ainda mantenho a talvez ingênua esperança de podemos utilizá-la como instrumento auxiliar de mudanças. Isso me motiva a escrever essas linhas na esperança de que leiam e reflitam sobre elas.

Para os brasileiros que se informam pelos meios alternativos de mídia, conhecem de maneira mais clara, o conteúdo dos protestos e movimentações que tem abalado o mundo, engatilhadas na crise de 2008. Refiro-me aos movimentos Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, os riots ingleses, os protestos na Grécia, Espanha, Portugal, contra as imposições do capital financeiro, no Chile por educação superior gratuita (o que não deixa de ser uma luta contra o mesmo capital que rege com mão de ferro o ensino superior no Chile), as conquistas na remota Islândia, a primavera Árabe que também se agrega ao cenário. Em cada um desses locais os protestos - mesmo que não tenham em suas reivindicações causas globais e sim regionais - são de certa forma reflexos da crise estrutural do capitalismo, que coloca em aberto o futuro do sistema capitalista, seja para seu fim ou para o esgotamento de mais uma etapa.

Para quem se informa nos veículos tradicionais de mídia, restam saber apenas que o mundo está cada vez mais caótico, a violência está cada vez mais prendendo o cidadão de bem dentro de suas casas em suas grades altas e em seus carros obtidos com IPI baixo. Que esse negócio de cotas é polêmico, mas que pelo menos os mensaleiros foram presos, que o último capítulo da novela abalou com o país. Infelizmente em sua grande maioria, nem sabem o porquê dos protestos, não tem idéia clara, nem aprofundada do significado das palavras “capitalismo”, “comunismo”, “liberalismo”, “mercado financeiro”, entre outras. Muitas vezes se orgulham de não saber e não se envolver com política. Isso sem falar no futebol, que está intrinsecamente ligado a todas essas questões. Vide a luta pelos espaços públicos (assunto debatido no site). E para os que (quando) viram alguma noticia sobre os protestos receberam motivos a mais para apoiar a ordem. Habito cultivado pela mídia nacional não perdido com o fim da ditadura nos anos 1980.

A internet teve papel importante nesses movimentos, como ferramenta que facilitou a mobilização dos protestos, como um interlocutor das vozes destoantes que não tem espaço da mídia tradicional. No Brasil existem muitas dessas vozes, ou seja, que sabem da existência de uma mídia formadora e não informadora, sabe com maior ou menor profundidade o significado por trás das palavras “capitalismo”, “comunismo”, “liberalismo”, “mercado financeiro”, mesmo que não haja um consenso sobre elas. Essas vozes destoantes desejam mudança social, no sistema econômico, e a partir de suas vivências, leituras e práticas se alinham as correntes de pensamento de esquerda.

É com muita preocupação, decepção ou irritação, (dependendo do dia!) é que vejo a internet, sendo extremamente inutilizada como ferramenta de mudança. Lendo nas redes sociais como são discutidos temas históricos (como bom historiador que sou!) me pergunto: Será que não aprendemos nada com a História? Qual deve ser a nossa relação com ela?

Basta jogar o assunto “Revolução Russa” no ar e temos uma grande possibilidade de acender o estopim para o debate mais inútil que tenho lido (e também ouvido) na internet (e fora também!): Stalin ou Trotsky? quem foi o melhor? quem foi o mais querido? quem foi o mais bonito? Quem foi o mais relevante para a história e para a Revolução Russa? Quem seguiu com mais coerência o legado de Lênin? Me abisma a quantidade de respostas prontas como se fosse automáticas para a pergunta. 

Em primeiro lugar eu me nego a responder a tais perguntas, afinal estou levantando justamente a inutilidade de uma resposta final a estas questões e principalmente a maneira como tem sido feito o debate entorno disso. O uso de rótulos extraídos do período deturpa o pensamento critico a ser feito sobre qualquer um deles. Assim o antagonismo criado em torno e suas figuras cria um círculo vicioso que impede de enxergar algo para além.

Os rótulos que envolvem a esquerda são muitas vezes impostos de modo pejorativo, pela propaganda anticomunista, se agregando também o discurso contra as cotas, contra o aborto, contra a descriminalização da maconha, que é distribuída pela mídia e assimilada pela maioria. Outro tipo de rotulação é também o auto-imposto como certas vezes vemos naqueles que se declaram Maoístas, Leninistas, Guevaristas, Castristas, etc. Nada de errado em ler, pesquisar e buscar colocar em prática alguma dessas linhas de pensamento, muito pelo contrário, o problema é transformar isso numa barreira que desune de outros marxistas.

Por fim e mais comum é aquele rótulo que convenientemente se impõem aos outros. Basta que alguém se declare marxista-leninista ou Stalinista, por exemplo, faz com que o sujeito tenha de responder por paredões, por ter matado Trotsky ou ainda se alguém coloca uma fotinho de Trotsky que seja, já começam a dizer, “lá vem os Troskos”, “furador de revolução”. Se segue então uma série de rotulações em que são destacadas somente as piores características de cada um. De repente Stalin e Trostsky viram um Gre-nal da história (ou Ba-vi, Fla-flu, escolham!), Fica a pergunta: Por que se discute Revolução Russa como se fosse futebol?

Pois é exatamente essa relação que mantém com a questão histórica. Os debates Stalin/Trotsky costumam ficar muito parecidos com os debates de rádio sobre futebol: muita paixão e pouca reflexão. A constante necessidade de estar certo, as rotulações dos que te desagradam, o estudo direcionado apenas para provar o que o outro está errado, são infantilidades que fazem com que se diminua a quantidade de discussões saudáveis dentro da esquerda.

Stálin e Trotsky já estão mortos, por isso não precisam de defesa pelos seus atos e escritos. Tanto eles como outros nomes destacados da Revolução Russa e de outras revoluções e insurreições nos servem para dar lições, para que não se repitam seus erros e para que isso aconteça precisamos admiti-los com sinceridade e buscar uma solução própria, aqui mesmo Brasil, para os problemas e a História pode ser muito útil para isso.

Ao buscar soluções não implica em obter respostas prontas e imediatas por isso minha critica a esse tipo de debate. O orgulho que impede sequer admitir nossas duvidas e externá-las, nos torna agressivo frente às dúvidas que deveriam ser salutares para nós. Zlavoj Zizek é muito feliz ao expor em seu artigo, O violento silêncio de um novo começo, a crítica à busca imediata de respostas:

“Portanto não devemos ficar aterrorizados pela eterna questão ‘mas o que eles querem?’. Recorde que esta é a questão arquetípica dirigida por um mestre masculino a uma mulher histérica: ‘todos esses seus lamentos e reclamações – você ao menos sabe o que realmente quer?’. No sentido psicanalítico, os protestos são efetivamente um ato histórico, provocando o mestre, minando sua autoridade, e a questão ‘o que você quer?’ procura exatamente impedir a resposta a questão verdadeira. Seu ponto é: ’fale nos meus termos ou cale-se’”[1].

O alvo de Zizek era a dominação dos “1% sobre os 99%”, mas o mecanismo de negação da dúvida é o mesmo. Sem intencionar, ao dar respostas prontas a tudo, caímos no erro grosseiro de passar uma lixa grossa nos questionamentos, colocando um rótulo que visa degradar o sujeito. Sendo que as próprias idéias que nessas picuinhas são expostas tão firmemente, sem esboçar dúvidas, que elas mesmas foram consideradas questionamentos histéricos quando formuladas!

Impressiono-me ao ver que por detrás das teclas do computador, essas questões se desumanizam, esquecem que “são as pessoas que tem as respostas, elas só não conhecem as perguntas para as quais tem (ou melhor são) as respostas[2]

É frustrante saber que apesar da internet ser usada para facilitar as movimentações populares mundo afora, ainda vejo pessoas que tem certo conhecimento sobre o sistema ficarem presas em picuinhas medíocres sobre a Revolução Russa. Essas picuinhas fruto dessa incapacidade de se desgarrar do passado já foram abordadas pelo próprio Marx no “18 brumário”. Atentemos então para o inicio do primeiro capítulo da obra:

"Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Caussidière por Danton, Louis Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845-1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma caricatura ocorre nas circunstâncias que acompanham a segunda edição do Dezoito Brumário!

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente como a república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma, traduz sempre as palavras deste idioma para sua língua natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar para o passado e esquecer sua própria língua no emprego da nova, terá assimilado o espírito desta última e poderá produzir livremente nela. O exame dessas conjurações de mortos da história do mundo revela de pronto uma diferença marcante. Camile Desmoulins, Danton, Robespierre, Saint-Just, Napoleão, os heróis, os partidos e as massas da velha Revolução Francesa, desempenharam a tarefa de sua época, a tarefa de libertar e instaurar a moderna sociedade burguesa, em trajes romanos e com frases romanas. Os primeiros reduziram a pedaços a base feudal e deceparam as cabeças feudais que sobre ela haviam crescido."[3]

Os que se agarram nas picuinhas esquecem que enquanto as pessoas vivas se movimentam para mudar o mundo, eles próprios preferem discutir sobre pessoas mortas e sendo governado cada vez mais e mais por elas.

Leia mais

ZIZEK, Slavoj. O violento Silêncio de um novo começo. In. Vários autores. Occupy. Movimentos de protesto que tomaram as ruas. Boitempo, 2012.

MARX, Karl. O 18 de Brumário de Louis Bonaparte.

 

Notas

[1] ZIZEK, Slavoj. O violento Silêncio de um novo começo. In. Vários autores. Occupy. Movimentos de protesto que tomaram as ruas. Boitempo, 2012. p.23

[2] Idem.p.25

[3] MARX, Karl. O 18 de Brumário de Louis Bonaparte. http://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/notas.htm#(N7) – Acesso em 3/11/2012.

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