Medo elitista (parte I) - dos Porongos ao Carandirú

22/11/2012 08:09

Davenir Viganon

O medo é argumento da vítima que reagiu em sua prórpia defesa. O medo é a justificativa para iniciar uma ofensiva armada, para defender um páis, um império e se no transcorrer dessa defesa um massacre acontecer é efeito colateral, “antes eles que nós”. O medo é usado como discurso de classe, ou seja, busca defender seus próprios interesses e privilégios. Nessa dita defesa a vida humana tem seu valor rebaixado.

As Guerras Púnicas e a “Guerra ao Terror”

As Guerras Púnicas movidas por Roma contra Cartago tinham nos seus reais interesses expandir o Império Romano por todo o mar Mediterrâneo, no qual dividia com Cartago. O medo é a justificativa para iniciar uma guerra de defesa pelos romanos contra os cartagineses. É sabido que a historiografia romana era extremamente ufanista, exaltava as glórias de Roma e negava seu expansionismo, logo as suas guerras eram sempre de guerras de defesa e o apoio popular era conseguido instigando o medo na população de um anvanço de Cartago sobre o Roma. O resultado das guerras púnicas foi desastroso para Cartago: A cidade-estado foi varrida do mapa, os sobreviventes foram escravisados e suas terras cobertas de sal para que nada mais crescesse no local. 

Encontramos esse mesmo argumento usado pelo então presidente norte-americano George W. Bush para invadir e manter campanhas militares em dois países: Iraque e o Afeganistão. A expressão “Guerra ao Terror” é a sintese de sua guerra ao medo. Sabemos que o real interesse norte-americano era abir mercados consumidores e áreas para a proliferação do capital, que vão desde McDonalds até o controle da produção nacional de petróleo. O medo é manipulado frente à população pela xenofobia já presente no ar da população branca estadunidense, contra as etinas árabes e/ou muçulmanas em geral. Mesmo não tendo convencido toda a população, a guerra iniciou mesmo assim, o sangue volta a manchar a terra.

Massacre como solução

Em terras tupiniquins, o medo também leva os seres humanos a comenterem massacres. Estes se tornam legitimados por boa parte da população por conta do medo. Temos exemplos disso tanto no passado distante e quanto no passado remoto. No Brasil Imperial a violência para reprimir revoltas era uma prática usual e A Batalha dos Porongos não foge dessa regra, ela ocorreu no Rio Grande do Sul em 1844.

Essa foi a última batalha da Revolução Farroupilha que se desenrolou na curva do Arroio Porongos. Apesar de ter sido travada por soldados de ambos os lados, a palavra massacre tavlez seja a mais apropriada, pois mais de 100 homens desarmados (apenas armados de facões contra uma cavalaria) morreram tentando se defender. Há uma controvérsia historiográfica relacionada a quem foram as vitimas dessa batalha despertada recentemente por uma nova pesquisa na área.

Para o MTG - Movimento Tradicionalista Gaúcho e para o Movimento Negro, as vitimas da Batalha dos Porongos foram os Lançeiros Negros com a sutil diferença que para os MTG os lançeiros se defenderam com suas lanças e bravamente lutaram até a morte, uma visão romanceada do acontecido e para o Movimento Negro alerta para o caratér de traição, por parte dos farroupilhas, uma visão que visa construir uma identidade afro-gaúcha[1].

Até para muitas fontes da historiografia mais recente, ainda veem dessa forma, mesmo sem todo o romantismo do Movimento Tradicionalista, já apontam que a entrada de escravos para o contigente farroupilha se dava por recrutamento dos negros entre os senhores, muitas vezes para lutarem em seu lugar. Mas mesmo essas fontes não desmentem a informação de que foram os Lanceiros Negros as vitimas de Porongos. Outra tese bastante recente, trazida por Juremir Machado da Silva em seu História regional da Infâmia, que foi abordada recentemente em nosso site (LINK) desmente que foram os lançeiros as verdadeiras vitimas do massacre. Como já apontado com base na leitura da obra, os mortos eram na sua maioria pertencentes aos Corpos de Infantaria e Caçadores, onde apesar da maioria ser negra, haviam também mestiços, brancos e índios. Controvérsias a parte o que interessa dessa discussão é que com a derrota farroupilha - com o armisticio em vigor - os líderes farroupilhas não deram a tão prometida alforria aos seus soldados negros.

A questão da abolição dos escravos era de crucial importancia para os acordos que deram fim ao conflito, afinal restava a promessa feita aos escravos que lutaram com os farroupilhas e também o desejo de terminar o conflito no qual não podiam continuar mais. Obviamente a corda pendeu para o lado mais fraco e eliminar esses soldados foi uma das opções. O resultado do conflito foi uma rendição dos farroupilhas que recolocou o Rio Grande do Sul novamente na órbita do Império, mas não se tratou de uma pressão imperial que determinou que o massacre acontecesse.

O pensamento escravista do Império, não era o ponto de divergencia com os farrapos, pois esses também em sua grande maioria eram escravistas, vide que o aclamado Bento Gonçalves quando faleceu possuia por volta de 40 escravos. Lembremos também que a abolição veio apenas em 1888 - décadas depois do fim da guerra - e quando aconteceu, foi para criar um mercado consumidor (afinal escravo não compra) e não como uma concretude de qualquer luta pela emancipação dos negros apoiada por alguma classe politica e/ou intelectual. A resistência por parte dos escravos era uma realidade constante, seja por revoltas, fugas ou pela solidariedades contruidas eles[2]. Em nosso país o escravo era além de cosificado, tinha para a sociedade sua condição naturalizada.

A atitude farroupilha em relação aos mortos em Porongos, se dava por conta da sociedade que não desejava um negro, que fosse livre e em pé de igualdade de direitos a um branco. Acrescente o fato desses negros serem soldados, armados e experientes, e sem mais um discurso que os fizessem lutar pelos interesses farroupilhas, que era “liberdade” que daria a abolição. Isso foi o suficiente para implantar o medo na sociedade civil branca resguardada por um exército recém derrotado. Está feito o estado de medo que argumentou o massacre. O medo branco se expressou de maneira mais cruel no massacre. Mas ninguém foi julgado? o caro leitor pode me perguntar e minha resposta é sim. David Canabarro foi julgado por um tribunal militar mas o processo infelizmente foi arquivado pelo Marechal Osório. Ficou para uma próxima vez!

Carandirú, um massacre contemporâneo

Coincidencia ou não o Rio Grande do Sul, palco da batalha dos Porongos, é uma das áreas mais xenófobas do país, mas não fica distante de São Paulo onde occorreu o Massacre do Carandirú. O presidio paulista foi palco do maior massacre do sistema carcerário que se tem noticia no país, e sabe se lá onde no mundo ocorreu um massacre onde tantos presos foram dizimandos de uma unica vez. Foram 111 homens mortos. O medo foi mais uma vez o argumento para o massacre.

O massacre ou chacina era para ser uma operação de contenção de uma rebelião no pavilhão 9 do presisdio que descambou no banho de sangue, comandado pelo Coronel Ubiratan. Ao contrário de Canabarro, Ubiratan foi julgado e condenado a centenas de anos de prisão. Mas como a história insiste em se repetir como diria Marx “a primeira vez como tagédia e a segunda como farsa” o coronel em seu recurso foi julgado por um tribunal “especial” que o absolveu, infelizmente não deu de novo!

E quanto a nossa sociedade? Ela está diferente, afinal a escravidão acabou! Por que comparar detentos a escravos? Claro, claro, que as coisas mudaram mas nem tanto assim! A nossa sociedade pode não se sustentar mais pela mão-de-obra escrava, mas ainda reproduzimos essas relações entre nós. Os escravos pré-1888 não sumiram do mapa eles são a grande parte dos proletários de hoje. O medo da população branca contra os escravos da época do império ainda está presente hoje no medo dos habitantes da favela, “coincidentemente” em sua grande maioria negros.

Grande parte da população acolheu calorosamente o Massacre do Carandirú, ao menos o suficiente para eleger o Coronel Ubiratan - que era um condenado por 111 mortes - ao cargo de Deputado Estadual em SP. Se perguntar para qualquer um se deseja menos violência nas ruas quase todos diram sim! Mas muitos desses concordam que “bandido bom é bandido morto”. O fato é que a estigma do “bandido” (aquele que só é bom quando morto) ainda impera na sociedade. Além de naturalizado é  perfeitamente comum repetir esse discurso. Os condenados pela justiça convivem eternamente com o estigma, e o fato de estar na cadeia ou já ter saido, pouco muda sua condição, é como uma tatuagem.

Em breve, numa segunda parte, seguiremos com a análise focando nas manifestações atuais de preconceitos, que são herança desse pensamento elitista baseado no medo.

Leia mais

Os Farrapos no cinema: uma contra análise da história gaúcha

MAESTRI, Mário. O Escravo Gaúcho: Resistência e Trabalho. Porto Alegre, Ed. da UFRGS

MATTOSO, Kátia. Ser escravo no Brasil.

MENDES. Maria Norma. Roma Republicana.

 


[1] Segundo a análise de Walter Lippold em seu artigo Os Farrapos no Cinema: Uma contra-análise da História Gaúcha que pode ser encontrada No site d’o Fato e a História aqui (link).

[2] A obra de Kátia Mattoso, Ser escravo no Brasil, esmiúça com muita competência a condição do escravo em nosso país.

 

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