Médicos brasileiros e/ou estrangeiros no interior e nas periferias

08/07/2013 12:07

Gregório Grisa

Pensando sobre a forte resistência das entidades representativas da classe médica acerca da proposta do ministério da saúde de lançar edital em busca de médicos brasileiros e/ou estrangeiros para trabalhar no interior do país e nas periferias das metrópoles, me reportei ao tema das cotas nas universidades. Um argumento recorrente é muito similar nas duas questões, qual seja:

"Ações como essas não resolverão, o problemas está na base, tem de se melhorar a infraestrutura, a carreira profissional e se investir maior porcentagem do PIB na educação básica, ou na saúde básica. Essas medidas são eleitoreiras e não atacam a essência do problema". 

Apesar de não conseguir identificar contradição entre medidas como a desse edital e um grande investimento estrutural em saúde, vale dizer repetidamente que uma ação não exclui a outra. O argumento acima, que já se esvaiu no que tange as cotas, se esvazia quando não considera a processualidade do mundo real. Mudanças estruturais que envolvem planejamento e um câmbio até cultural, não ocorrem do dia para a noite, todavia, as doenças sim.

Assim como não podemos dizer para a atual geração de estudantes de ensino público e para as famílias negras para que esperem duas ou três gerações mais para acessarem o ensino superior, pois estamos qualificando a educação básica, é desumano dizer para que as pessoas em busca de tratamento médico agora em milhares de cidades aguardem enquanto se resolve a questão de infraestrutura, plano de carreira e investimento em saúde. 

Há um corporativismo que beira a teimosia nesse caso, apesar da necessária qualificação e valorização dos médicos no Brasil é preciso dizer que essa é a profissão com maior prestígio social que existe, haja vista, a grande disputa para o ingresso em cursos de medicina nas universidades. Esse edital de caráter emergencial irá ser lançado até o fim do ano porque no início de 2013, o governo lançou o segundo edital do Provab para atrair 13 mil médicos na atenção básica – um pedido de prefeitos brasileiros -, mas apenas 3.800 se inscreveram no programa que paga R$ 8 mil mensais aos interessados e oferece especialização. Um professor universitário recém concursado com doutorado não ganha isso. 

Correndo o risco de ser mal compreendido cabe dizer que a elitização é uma característica da medicina no Brasil, nossa cultura encara o curso de medicina como porta para a riqueza, para o sucesso material (acúmulo financeiro) o que todos desejam no modelo de sociedade que vivemos. Com isso não estou falando que médicos são gananciosos por natureza ou generalizando a medicina como uma profissão de soberba, conheço médicos e médicas incríveis e acredito que a maioria dos profissionais são sérios. A medicina privada imersa na lógica do profissional liberal é a regra e não a exceção. 

Diante disso ouvi além de argumentos questionáveis algumas manipulações no que se refere aos dados da saúde pública. Por essa razão vamos aos números. 

- Segundo o Ministério da Saúde, há um déficit acumulado de 54 mil postos de trabalho vagos para os médicos no Brasil nos últimos dez anos. 146 mil postos foram criados enquanto 93,1 mil profissionais se formarão em medicina nesse período. É verdade que há de se expandir as vagas em cursos de medicina e que aqueles que ocupam vagas públicas teriam de dar algum retorno para o SUS depois de formados. 

- Segundo o Ministério da Saúde 1581 cidades não contam com nenhum médico da atenção básica

Argumento falso de que "não faltam médicos do Brasil" não corresponde com a verdade. Faltam sim. Entidades médicas teimam como o IBGE, com o IPEA e afirmam que o governo está desinformado sobre a realidade. Isso não vale comentários. 

Sobre o edital que irá ser aberto em caráter de emergência: Serão 9 mil vagas, serão convocados médicos brasileiros para essas áreas periféricas, onde terão acompanhamento permanente de universidades federais públicas. Somente as vagas não preenchidas por brasileiros serão complementadas por estrangeiros. Dentre os estrangeiros serão priorizados médicos portugueses, espanhóis e argentinos porque nesses países a oferta médica é muito superior ao Brasil. Para atuarem aqui, eles receberão uma licença especial com prazo de três anos de duração. Terão de atuar em local específico – as áreas pobres e periféricas do país. Eles também serão acompanhados por “tutores” de universidades federais e deverão se especializar em saúde da família.

Os médicos brasileiros irão para o interior e periferias como fazem professores, enfermeiros, assistentes sociais também sem condições justas de trabalho e salários degradantes? Mesmo que diante do salário da esmagadora maioria dos trabalhadores brasileiros, os salários oferecidos para médicos não é degradante.  

A saúde é um direito fundamental, e as pessoas pobres desses lugares que faltam médicos tem seus organismos iguais aos nossos e na maioria das vezes mais vulneráveis, os segundos, os minutos passam, mas as dores, a angustia não. Todos queremos mais investimentos para saúde, melhores hospitais e valorização profissional, infelizmente isso demora e enquanto se luta por isso é bom olhar para outras profissões e para aqueles que sempre estiveram sem assistência médica cuja doença e morte naturalizamos como mais uma estatísticas.

Publicado originalmente em: http://gregoriogrisa.blogspot.com.br/2013/07/medicos-brasileiros-eou-estrangeiros-no.html

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Data: 08/07/2013

De: Cíntia Vieira Souto

Assunto: Médicos

Olá:
Meu nome é Cíntia e sou professora de História. Mas fui estudante de medicina por três anos e sou casada com um médico, de modo que conheço esse universo. Achei o teu texto equilibrado, algo raro com respeito a esse tema. Ora os médicos são tratados como mercenários e corporativistas, ora os programas do governo são tidos como forma de implantar o comunismo no Brasil. Na verdade, os dois lados têm alguma razão.
Mas o que eu quero comentar é que o esteriótipo de Medicina como porta para a riqueza que citas no texto está descolado da nossa realidade há uns vinte anos pelo menos. Tenho muita pena dos jovens que dedicam meses, às vezes anos, para passar nos vestibulares concorridos achando que isso irá lhes assegurar um futuro tranquilo e folgado. Aquele médico que abria o consultório particular e esperava vir os pacientes não existe há muito tempo. A medicina atual está monopolizada pelos planos de saúde. São necessários três ou quatro empregos para equilibrar o orçamento. E se trabalha sábado, domingo, feriados, férias. Meu marido faz cirurgias complexas, que exigem visitas antes e depois, com riscos de processo e ganha 200 reais da Unimed. Um cabeleireiro cobra isso por uma escova progressiva...
Há médicos desonestos e dinheiristas (e até criminosos). Costumo dizer que se alguém enriquece com Medicina no Brasil é certo que há falcatrua envolvida, pois medicina honesta não enriquece ninguém.
Com respeito aos médicos estrangeiros, não sou contra. Mas tenho dificuldade de aceitar que eles não revalidem seus diplomas para trabalhar no Brasil. Se eu fosse lecionar história em qualquer outro país, teria que passar por algum processo de avaliação. E, infelizmente, creio que muitos, a menos que sejam obrigados a ficar no interior (o que torna um pouco estranho esse processo de vinda, lembro do caso das judias alemãs ou austríacas que conseguiam asilo na Inglaterra na década de 1930, mas eram obrigadas a trabalhar como empregadas domésticas. Se arrumavam outro emprego, eram deportadas) irão ir para as cidades maiores, onde as condições de trabalho são melhores.
Cordialmente

Cíntia Souto

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Data: 08/07/2013

De: Alan Aragão

Assunto: Re:Médicos

Bem, partilho de sua profissão, mas um argumento seu me pareceu errôneo, observe os níveis da medicina cubana e estrangeira, frente aos nossos níveis de medicina, acredito que nesse caso, eles virão para dar aulas, afinal o nível da nossa medicina é pífio para um país com nossas capacidades, porém apesar de tudo e como professora de história você não pode negar, a saúde, educação e segurança em Cuba estão entre as melhores das Américas, chegando em alguns pontos a bater de frente com a medicina Canadense, portanto, para eles revalidar diploma seria falta de respeito com aqueles médicos que obviamente são melhores, afinal suas condições de ensino em sua terra natal são muito maiores, e quanto a questão da localidade, é correto, afinal nenhum dos filhos da classe média (formado por aqueles que podem passar em um vestibular de medicina) quer abandonar a capital para ir ao centro do problema, ainda que seja um salário defasado é muito melhor que muitos outros trabalhadores que ralam bem mais que médicos.

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Data: 12/07/2013

De: Cíntia Vieira Souto

Assunto: Re:Re:Médicos

Com respeito à revalidação, julgo que médicos tão bem formados não terão dificuldade em revalidar seus diplomas no Brasil.
O mercado de trabalho é regido pela lei da oferta e da procura. Um médico que ganha 10 mil reais para trabalhar em uma pequena cidade do interior do nordeste, pode ganhar o mesmo trabalhando em três ou quatro empregos em uma capital. Na capital, haverá escola para os filhos, por exemplo. E as condições de trabalho: acesso a exames, centro cirúrgicos, etc são melhores. Por que ele irá para o interior, então? Tu vais me dizer que 10 mil reais é um salário bem acima da média para o padrão brasileiro. Eu estaria rindo à toa se ganhasse isso como professora. Mas para médicos, juízes de direito, promotores de justiça é o salário do mercado. Acho injusto que um professor ganhe 1000 reais por mês, mas não acho injusto que um médico ganhe 10 mil. É muito estudo e muita responsabilidade. E te digo, poucos trabalhadores ralam mais do que os médicos.
O que o governo está fazendo importando médicos sem a revalidação para trabalhar no interior é inconstitucional e anti-ético, para dizer o mínimo. Esses médicos serão OBRIGADOS a trabalhar no local designado pelo governo por um salário abaixo da média e em condições de trabalho precárias. O governo NÃO QUER que façam a revalidação, pois isso os manterá PRESOS. Se eles fizeram a prova, poderão trabalhar onde querem, não? É o governo brasileiro tratando cubanos ou outros estrangeiros como pessoas de segunda classe, que aceitam condições que os brasileiros não aceitam. Não é o mesmo que os americanos fazem contratando colombianos, mexicanos, guatemaltecos para fazer os trabalhos que os americanos não querem fazer e ganhando pouco?

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