Marxismo e a pós-modernidade (II)

29/07/2014 10:10

Walter Lippold

[leia a primeira parte deste artigo aqui]

A categoria História é uma das mais debatidas entre marxistas e pós-modernistas, Palmer (1999) faz uma defesa do materialismo histórico afirmando que ele é um projeto de radicalização do Esclarecimento Iluminista, rebatendo a ideologia pós-moderna que nega a história como processo e proclama o reino dos “presentes perpétuos”.  Ao condenar as metanarrativas pós-iluministas, os pós-modernistas escondem sob o mesmo manto teorias que diferem muito entre si, “construindo” uma reductio ad absurdum do marxismo para poder criticá-lo como uma “narrativa de subordinação”, deixando de lado o salto-ruptura efetivado no processo de desenvolvimento da teoria marxista, alcunhando este de ser reducionista e economicista. O autor reafirma a importância da categoria classe social para o entendimento da sociedade e defende que o marxismo nunca deixou de lado questões de gênero, raça e “conhecimento-poder”. A defesa do materialismo histórico, de suas categorias, destacando a classe social, faz-se necessária diante da apologética a-histórica – repetida ad nauseam - do “fim da luta de classes”,  “fim das ideologias”, e finalmente, “fim da história”[1]. A a-historicidade de alguns representantes da pós-modernidade é um dos pontos fundamentais desenvolvidos no artigo. Há uma forte tendência em afirmar que a história é um mero encantamento discursivo conjurado do presente, não existe ciência histórica, pois não existe nenhuma objetividade no ato de escrever História. “A teoria em moda postula uma contemporaneidade quase desencarnada e fragmentada como ambiente da história, como acontecendo aparentemente divorciada da causalidade – uma série de ‘presentes perpétuos’.” (PALMER, 1999, p.74)

Ao citarmos a categoria de história, muitas pessoas automaticamente fazem uma analogia com os grandes feitos, as batalhas, e os grandes vultos da humanidade. O historiador é representado como um erudito socado em meio de documentos empoeirados; segundo esta concepção de história, ele deve fazer falar os fatos por si mesmos, ou seja, toda interpretação é puro subjetivismo, não é considerada científica. Esta concepção chama-se positivismo e sua influência na historiografia brasileira foi poderosa, ou melhor, continua sendo. Mas acreditamos que a história não é um turbilhão de nomes, datas e fatos, um álbum de antiguidades pétreas.

Atualmente, dentro do quadro teórico de alguns representantes da pós-modernidade, chega-se ao outro extremo do positivismo: nega-se que é possível compreender o processo histórico, aliás, nem se fala em processo, mas sim em descontinuidade absoluta, em fragmentação, em textualidade fluídica discursiva. A história é incognoscível, tudo é contingente, como diz Paul Veyne: “a história é um romance real”. A História, dentro desta concepção, acaba tornando-se um mero “contar estórias”. Há uma forte tendência em afirmar que a história é um mero encantamento discursivo conjurado do presente, não existe ciência histórica, pois não existe nenhuma objetividade no ato de escrever História. Não há lógica, nem ligações necessárias, reina o relativismo puro: “A teoria em moda postula uma contemporaneidade quase desencarnada e fragmentada como ambiente da história, como acontecendo aparentemente divorciada da causalidade – uma série de ‘presentes perpétuos’.” (PALMER, 1999, p.74).

Ao condenar as metanarrativas pós-iluministas, os pós-modernistas escondem sob o mesmo manto teorias que diferem muito entre si, “construindo”, como já afirmou  Mészáros, uma reductio ad absurdum, uma caricatura do marxismo para poder criticá-lo como uma “narrativa de subordinação”, deixando de lado o salto-ruptura efetivado no processo de desenvolvimento da teoria marxista, alcunhando este de ser reducionista e economicista.

Mas o aspecto que mais aproxima estas teorias é que:

[...] O pós-estruturalismo/pós-modernismo considera a história como a criação de um ou mais autores, uma inovação mágica do passado para servir ao conteúdo discursivo do presente. Assim, o passado só pode ser textualmente criado a partir dos imperativos de um exemplo presente.(PALMER, 1999,  P.77).

Também nos perguntamos se existe uma História Universal, já que muitas vezes, “História Geral” nos manuais escolares significa “História da Europa”. A história não é a priori universal, foi o capital que a tornou um processo que interligou todos os povos do mundo, nunca um modo de produção foi tão totalizante como o capitalista. É a partir desse pressuposto, que o marxismo defende a luta mundial dos produtores, pois somente sob a égide do internacionalismo proletário, será possível a superação do atual modo de reprodução sócio-metabólico.

Quando ao uso ideológico da História, Chesneaux (1995, p.29) afirma que:

As classes dirigentes e o poder de Estado freqüentemente apelam ao passado de modo explícito: a tradição, aí incluídos os seus componentes específicos, a continuidade e a história são invocadas como fundamentos do princípio de sua dominação.

A pós-modernidade ao negar a história, acaba por se tornar apologética da eternização do modus operandi do capital. Ao negar o velho, inventa um novo deslocado do movimento histórico real. O movimento dialético da história é um processo onde se correlacionam elementos da descontinuidade e da continuidade, onde não há espaço para uma metafísica negação absoluta do velho, já que a superação, a síntese, carrega em si elementos de continuidade, agora vinculados com o novo. Um exemplo disso pode ser buscado na figura de Nietzsche – segundo Mészáros, um “homem para todas as estações” – que é um dos “velhos” cultuados pelos pós-modernistas. O que está em questão aqui é que os pós-modernistas também – de certo modo – defendem velhas posições (o irracionalismo niilista e pessimista nietzscheano), articulando-as para novas necessidades. Ao fazerem isso admitem que sua descontinuidade “absoluta” está impregnada de elementos do velho, explicitam as contradições de um “meta-discurso” ligado a uma visão derrotista de uma “velha” esquerda que se travestiu de nova diante do espelho sedutor de um capitalismo que promete o deleite consumista das modas passageiras a todas as “minorias” que quiserem se integrar. Conjuramos por fim um espectro de um passado longínquo com o singelo intuito de finalizar nossos comentários sobre o artigo de Palmer, o espectro de Hegel, que brilhantemente brindou-nos com essas palavras na sua Filosofia do Direito: “É tão absurdo imaginar que uma filosofia possa transcender seu mundo contemporâneo, quanto imaginar que um indivíduo possa ultrapassar sua própria época, saltar sobre o canal de Rhodes”. Façamos das palavras de Esopo – citadas por Marx no O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte – um apelo aos pós-modernistas: Hic Rhodus, hic salta![2]

O surgimento das teorias pós-modernas deve muito à derrota histórica da esquerda mundial, principalmente a marxista, que -atordoada pelos erros internos do comunismo internacional, pela derrota do Movimento Terceiro-mundista que culmina com a Ofensiva da Nova Direita liderada por Reagan e Tatcher e pela ascensão de novas formas de relações de produção e de tecnologias legadas à chamada Revolução Científico-Técnica que levaram à derrocada da experiência socialista soviética – ao se confrontar com a impossibilidade de vencer o sistema, tornou-se extremamente pessimista quanto às perspectivas de superação do atual modo de produção. O capital não tem mais oponente à altura, reinam o pessimismo e o niilismo que reforçam a crença teórica que é impossível compreender a realidade social como totalidade, quando não reina uma negação radical de qualquer pensamento sistemático que leva à exaltação do fragmento e da micropolítica.

O marxismo dogmático podava as possibilidades de análise da realidade que levassem em conta aspectos raciais, étnicos, sexuais, etc. Os movimentos baseados em identidades universais, como a de classe, vão perdendo terreno para os que lutam na arena  da  microfísica do poder, tudo devido a uma decepção pelos rumos tomados pelas revoluções: burocratização, afastamento das classes trabalhadoras, criação de uma aristocracia operária nos países capitalistas, etc...

Na sua forma mais grosseira, esse culto da marginalidade se resumiria no pressuposto simplório de que as minorias eram positivas e as maiorias, opressivas.[...] A base histórica desta forma de pensar seria o fato de que movimentos políticos outrora de massa, centrais e criativos de modo geral não existiam mais. (EAGLETON, 1999, P.24)

Podemos afirmar que para os pós-modernistas existe uma crença de que todo sistema é opressivo em si mesmo e um fetiche da condição do outro que exalta a diferença e condena a identidade. A “esquerda” pós-moderna defende um Pessimismo Libertário que por sua vez, se origina na crença de que o sistema é inatingível e ubíquo, o que finalmente levaria a uma negação de que exista algum sistema.

E então seria um curto passo entre alegar que o sistema é complexo demais e declarar que ele não existe. No período que estamos imaginando, portanto, sem dúvida encontraríamos indivíduos clamando contra o que consideravam como a tirania de uma totalidade social real, enquanto outros estariam demolindo toda a idéia de totalidade e afirmando que ela existia apenas na nossa mente. Não seria difícil interpretar esse fato como, pelo menos em parte, uma compensação, na teoria, para a dificuldade de quebrar a totalidade social na prática. (EAGLETON, 1999, P.25)

Muitas vezes os pós-modernos esquecem que o próprio capitalismo produz auto-superações, “tudo o que é sólido desmancha no ar”, já avisavam Marx e Engels em 1848 citando A Tempestade de Shakespeare.

Divergência, ‘hibridismo’, heterogeneidade, mobilidade incessante são inatas ao modo capitalista de produção –e, portanto, de modo nenhum fenômenos inerentemente radicais. Assim, se estas formas de pensar sabotam o sistema em um nível, reproduzem-lhe a lógica em outro. (EAGLETON, 1999, p.27)

Concordamos com Eagleton (1999, p.30-31) quando este afirma que a grande contradição pós-moderna consiste em negar  

[...]sempre a possibilidade de descrever o mundo como é e, com a mesma freqüência, descobre-se fazendo isso. Transborda de preceitos morais universais – é preferível o pluralismo ao isolacionismo, a diferença à identidade, o outro ao igual – e denuncia todo universalismo como opressivo.

Para compreender o pós-modernismo devemos buscar suas origens, dentro da dialética da continuidade/descontinuidade do devir histórico[3].  Este movimento teórico se alimentou bastante da conjuntura em que foi gerado, ou seja, as décadas de 60 e 70 do Século XX, onde os povos colonizados lutavam por sua independência; onde novas formas de acumulação de capital ascendiam juntamente com as novas tecnologias ligadas à energia atômica, computadores, bio e nanotecnologia, supercondutores, etc; onde o comunismo perdia sua força devido à práticas equivocadas, como a invasão da Hungria e Thecoslováquia, além dos problemas internos da URSS como a burocatização e a cristalização de uma marxismo dogmático e limitado; onde o capital derrotou momentaneamente as força esquerdistas. Grande parte dos pós-modernistas de hoje, eram gramscianos, frankfurteanos e situacionistas de ontem. A crítica e a auto-crítica ao stalinismo, levou alguns a afirmar que as origens deste estava nos textos de Marx. Logo a crítica do stalinismo descambou para a crítica do marxismo em geral, que reforçou a negação do Iluminismo e seus pressupostos de progresso e libertação pela razão.

Marx sempre negou as verdades absolutas, eternas e universais, principalmente no campo social, pois uma concepção dialética da história não se baseia em leis imutáveis universais. As leis só são universais nos limites de um determinado modo de produção pertencente a um espaço e um tempo específicos. Quando Marx fala em leis naturais da sociedade, é no sentido em que a atomização social balizada pela divisão do trabalho, torna os produtores e os capitalistas cegos por um poder criado pelo ser humano, mas que se tornou alheio e estranho principalmente aos trabalhadores: uma lei naturalizada e eternizada pela falta de uma prática revolucionária que ajude na compreensão que esta realidade é transitória! A lei que dita que a sociedade se desenvolve através da luta de classes, só é válida a partir do surgimento da propriedade privada, por exemplo.

Por mais que critiquemos os rumos da Revolução Soviética, temos que admitir que o fim deste Estado Operário foi um baque para as forças de esquerda mundiais, o capital perdeu seu inimigo número 1. A ofensiva contra os direitos trabalhistas tem origem nesta derrocada. Mas o texto de Eagleton permite uma reflexão sobre as vinculações entre a derrota e pessimismo de uma esquerda abalada por não acreditar mais nem em seus próprios  intelectuais, por não acreditar mais na possibilidade de uma prática revolucionária centralizada e universal, caindo na micropolítica, movimentos verdes, étnicos, feministas, etc.  

O capital é uma realidade ubíqua e pervasiva, é um “fractal”  que se reproduz do micro ao macro social, do macro ao micro, que por trás de um aparente caos fragmentário, firma-se uma ordem que dá continuidade à descontinuidade, as “mil mortes do capitalismo”, ou seja, esta perpétua necessidade do capital de transformar tudo à sua volta, exaltando o fugidio, a fragmentação das modas, o passageiro,  e com isso fortalecendo a tônica ideológica de um mundo dominado pelo consumismo. Aqui vemos a conexão das duas faces da modernidade na acepção de Baudelaire: o perpétuo, o eterno em contradição com o fugaz, o fugidio, o efêmero.

Os marxistas não devem, em sua defesa do método dialético, considerar-se viúvos da razão iluminista, que nunca levou em conta que o irracional faz parte do ser humano como o racional, tratando os problemas da humanidade como erros devido a ignorância, a falta de luz. O Homem racional iluminista é um produto da burguesia européia, é um homem alienado, estranhado, que combate dogmas, mas cria outros, que produz racionalidade prenhe de irracionalidade, que buscou dominar a natureza subjugando-a a  uma exploração predatória, que via o progresso como algo inexorável. Esta concepção impregnou a social-democracia pós-Marx, e foi a tônica do debate no seio da II Internacional, mas Benjamim em suas Teses sobre a História, mais precisamente na 13ª Tese afirma o seguite:

A teoria e, mais ainda, a prática da social-democracia foram determinadas por um conceito dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a realidade. Segundo os social-democratas, o progresso era, em primeiro lugar, um progresso da humanidade em si, e não das suas capacidades e conhecimentos. Em segundo lugar, era um processo sem limites, idéia correspondente à da perfectibilidade infinita do gênero humano. Em terceiro lugar, era um processo essencialmente automático, percorrendo, irresistível, uma trajetória em flecha ou em espiral. Cada um desses atributos é controvertido e poderia ser criticado. Mas, para ser rigorosa, a crítica precisa ir além deles e concentrar-se no que lhes é comum. A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homo-gêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.

Esta concepção criticada por Benjamim deságua no utilitarismo irresponsável quanto a natureza. Não leva em conta que as forças produtivas se tornaram destrutivas, e se afoga em um conceito de trabalho que não leva em conta o estranhamento da atividade, suas mediações de segunda ordem. O marxismo não é um fetichismo da tecnologia, um culto ao progresso inexorável, isto só serve a um positivismo travestido de marxismo[4].

Referências

AHMAD, Aijaz. Pós-modernismo e movimentos populares. WOOD, Ellen; FOSTER, John (ORGs). Em Defesa da História: Marxismo e Pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. p.107-122.

BHABHA, Hommi. Interrogando a Identidade: Frantz Fanon e a prerrogativa pós-colonial. In: O Local da Cultura. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1998.

CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábula rasa do passado? . São Paulo: Editora Ática, 1995.

ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. 2ª Ed.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

EAGLETON, Terry. De onde vêm os pós-modernistas? . WOOD, Ellen; FOSTER, John (ORGs). Em Defesa da História: Marxismo e Pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

FANON, Frantz. Racismo e Cultura. Em Defesa da Revolução Africana. Lisboa: Sá da Costa, 1980.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 3 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1996.

IANNI, Octavio. Capitalismo, violência e terrorismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

MALIK, Kenan. O Espelho da Raça: o pós-modernismo e o elogio da diferença.WOOD, Ellen; FOSTER, John (ORGs). Em Defesa da História: Marxismo e Pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. p.123-144

MÉSZÁROS, István.  O Poder da ideologia. São Paulo: Boitempo, 2004.

______. A Educação para além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2005.

______. A teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2006.

PALMER, Bryan. Velhas posições/novas necessidades: história, classe e metanarrativa marxista. WOOD, Ellen; FOSTER, John (ORGs). Em Defesa da História: Marxismo e Pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. p.74-83.

SAID, Edward. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

____________. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

WOOD, E. M. Democracia contra capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2003

Notas

[1] Este “fim da história” anunciado aos quatros cantos do mundo por Fukuyama, é na verdade, a naturalização e eternização ideológica da ordem de reprodução metabólica do capital, que teve um impulso poderoso, após o esfacelamento da “ameaça” soviética, é uma leitura vulgar da “síntese final” hegeliana, que no século XIX, era, para Hegel, o Estado Prussiano daquela época. É claro que Fukuyama é uma entre as diversas faces dos defensores da pós-modernidade, talvez a mais exagerada.

[2]  Certa vez um marujo fanfarrão dentro do navio, afirmou que um dia saltou sobre o Canal de Rodes, e tinha testemunhas, mas seus companheiros responderam-lhe: "Para que é preciso testemunhas? Aqui está Rodes, salta aqui!" ou seja, Hic Rhodus, hic salta! Prova aqui o que você afirma!

[3] “O pós-modernismo conta com várias fontes – o modernismo propriamente dito; o chamado pós-industrialismo; a emergência de novas e vitais forças políticas; o recrudescimento da vanguarda cultural; a penetração da vida cultural pelo formato mercadoria; a diminuição de uma espaço ‘autonômo’ para a arte; o esgotamento de certas ideologias burguesas clássicas; e assim por diante.” (EAGLETON, 1999, p. 29) .

[4] Apesar do tamanho, faz-se necessária a exposição de outra tese de Benjamim sobre a questão do conceito de trabalho ideologizado de alguns “marxistas”:  “O conformismo, que sempre esteve em seu elemento na social-democracia, não condiciona apenas suas táticas políticas, mas também suas idéias econômicas. E uma das causas do seu colapso posterior. Nada foi mais corruptor para a classe operária alemã que a opinião de que ela nadava com a corrente. O desenvolvimento técnico era visto como o declive da corrente, na qual ela supunha estar nadando. Daí só havia um passo para crer que o trabalho industrial, que aparecia sob os traços do progresso técnico, representava uma grande conquista política. A antiga moral protestante do trabalho, secularizada, festejava uma ressurreição na classe trabalhadora alemã. O Programa de Gotha já continha elementos dessa confusão. Nele, o trabalho é definido como "a fonte de toda riqueza e de toda civilização". Pressentindo o pior, Marx replicou que o homem que não possui outra propriedade que a sua força de trabalho está condenado a ser ‘o escravo de outros homens, que se tornaram... proprietários’. Apesar disso, a confusão continuou a propagar-se, e pouco depois Josef Dietzgen anunciava: "O trabalho é o Redentor dos tempos modernos... No aperfeiçoamento... do trabalho reside a riqueza, que agora pode realizar o que não foi realizado por nenhum salvador". Esse conceito de trabalho, típico do marxismo vulgar, não examina a questão de como seus produtos podem beneficiar trabalhadores que deles não dispõem. Seu interesse se dirige apenas aos progressos na dominação da natureza, e não aos retrocessos na organização da sociedade. Já estão visíveis, nessa concepção, os traços tecnocráticos que mais tarde vão aflorar no fascismo. Entre eles, figura uma concepção da natureza que contrasta sinistramente com as utopias socialistas anteriores a março de 1848. O trabalho, como agora compreendido, visa uma exploração da natureza, comparada, com ingênua complacência, à exploração do proletariado. Ao lado dessa concepção positivista, as fantasias de um Fourier, tão ridicularizadas, revelam-se surpreendentemente razoáveis. Segundo Fourier, o trabalho social bem organizado teria entre seus efeitos que quatro luas iluminariam a noite, que o gelo se retiraria dos pólos, que a água marinha deixaria de ser salgada e que os animais predatórios entrariam a serviço do homem. Essas fantasias ilustram um tipo de trabalho que, longe de explorar a natureza, libera as criações que dormem, como virtualidades, em seu ventre. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o conceito complementar de uma natureza, que segundo Dietzgen, ‘está ali, grátis’”.

 

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