Marcelo Yuka no Caminho das Setas

12/02/2013 10:00

Diórgenes Pacheco de Lima

Walter Lippold

Porto Alegre, atualmente, é uma cidade onde as atividades culturais devem ser garimpadas incessantemente. “Quase no estilo mosca branca com asas azuis” como dizem alguns colecionadores de vinis quando encontram uma peça rara. Outro ponto importante consiste no fato de que para ter acesso a essas atividades, muitas vezes, faz-se necessário ter um bom lastro cultural. O professor que busca aprofundar o seu conhecimento deve sempre beber na fonte de bons shows, bons filmes, bons livros, teatro, rodas de samba, enfim, manifestações culturais.  Foi numa dessas situações - garimpo-de-livros-nos-sebos - que tomamos contato com o documentário Yuka no Caminho das Setas (2011), pois o CineBancários encontra-se na antiga Rua da Ladeira, atual Gal. Câmara, antro de sebos de livros, inclusive o Ladeira Livros, local onde deixamos boa parte de nossos salários  de professor.

Este documentário, gravando inteiramente no formado digital tem como diretora e roteirista   Daniela Brotiman que possuí uma alta qualificação técnica e  formação sólida na área da montagem de vídeo digital; não foi a toa a premiação no  Festival do Rio de 2011... O contato com Marcelo Yuka se deu através dos interesses comuns relacionados às causas sociais, já que a diretora participa diretamente de projetos ligados a áreas carentes do Rio de Janeiro.

Mais do que um filme de comiseração, Marcelo Yuka no caminho das setas, apresenta um personagem/homem que tenta se reconstruir após a vida desmoronar com todo o peso da tragédia que também a acompanha. Um músico de sucesso de 34 anos de idade, milhares de discos vendidos e de uma hora para outra – com as seqüelas de nove tiros - tem que reaprender a viver. Segundo o próprio Yuka, durante seis anos ele negou-se a fazer fisioterapia e os tratamentos afins, o que atrasou consideravelmente o processo de reabilitação. É interessante frisar que em nenhum momento Yuka faz “terra arrasada” da sua situação e – ao mesmo tempo – não glorifica a sua condição de cadeirante, tanto que várias vezes deixa bem claro que odeia a cadeira de rodas mesmo sabendo que ela é um instrumento necessário de sua vida. Este sentimento, segundo Yuka em seu relato, é a sua esperança de dias melhores que nunca cessou, principalmente na busca de informações sobre a teoria e aplicação das células-tronco.

Outro ponto positivo do documentário é o espectador adentrar naquele espaço mágico que é o estúdio de gravação quando um disco está sendo criado. As influências que permeiam o gosto estético-musical do artista, os arranjos instrumentais e vocais que são mostrados no documentário nos mostram que Yuka não era apenas o letrista da banda, mas sim parte importante do processo de criação de O Rappa.

Sinceramente nós dois, os autores deste texto, nunca tivemos uma relação maior com o trabalho de O Rappa, sabíamos de suas relações com o Movimento Mangue Beat, respeitávamos e apreciávamos suas músicas como Miséria S/A, Todo Camburão tem um pouco de navio negreiro e Minha Alma, mas sentíamos que algo era conflituoso na banda, que existia uma tendência underground, mas sempre balizada por uma forte apelação pop. É uma das contradições da arte no capitalismo, o drama do artista e do contato com o público permeado por uma relação de mercadificação.

A entrevista com o vocalista Falcão deixou claro a nossa desconfiança inicial, nos anos 90, quanto ao caráter político da banda, este engajamento de bandas na luta social sempre causou desconforto no showbusiness, inclusive causando rompimentos. O caso do Rage Against de Machine é emblemático e parece transparecer está lógica. É emblemático que nos início dos anos 2000, a finada revista Bizz apareceu com uma capa onde os membros de O Rappa estavam em posição de sentido e o enfoque era a questão do rock engajado e na referida revista, e na época se fez uma referência ao Rage Against The Machine, o que seria cômico, se não fosse trágico, é que em ambas as bandas os membros tiveram problemas entre si, com a questão do engajamento.  Mészàros explica que a arte no capitalismo está internalizada com o pseudovalor do best-seller e que não há como atingir o público sem estar relacionado com os circuitos de circulação de capital e como já comentamos em palestras e outros escritos, como diria o historiador Hobsbawn, em sua História Social do Jazz, a cultura popular quando se torna anti-comercial demais, é produzida em massa até virar papinha. As tensões dentro da indústria fonográfica acabam trazendo a seguinte e importante questão: o capitalismo lucra também com o engajamento político e com a contracultura? Não estamos aqui no moralismo pequeno-burguês prenhe de cretinismo social onde se pergunta: se são comunistas não podem usar nada produzido no capitalismo. Só estamos chamando a atenção para as relações concretas deste mundo, onde underground e mainstream estão interligados.

Podemos fazer uma analogia com outros casos na história da música nacional e internacional, exemplos como The Who onde Pete Tousend era o principal letrista da banda e por isso ganhava mais grana com os direitos das músicas (porém, ao que consta, Keith Moon, Roger Daltrey e John Entwistle, não se incomodaram com a situação, ao contrário do que aconteceu em  O Rappa, onde Yuka levava uma porcentagem maior devido a produção da letra e musical.

O que falar então de um Bezerra da Silva, que gravava a música de muita gente desconhecida[1], compositores do morro, numa espécie de catalisador musical e não se importava “em perder” dinheiro. Isto nos lembra uma crítica de Jean Chesneaux sobre a necessidade de se pavonear, de ter poder e dinheiro e seu nome nas publicações de livros e outros artefatos culturais, talvez isso tenha a ver com a proposta de anonimato na produção coletiva dos criadores do Projeto Luther Blisset e Wu Ming. Por último, não consideramos tarefa fácil abdicar de um letrista, ou perder um letrista, vide os casos de Legião Urbana e AC/DC que perderam seus principais letristas ou um Titãs pós-saída do Arnaldo Antunes, ousando entrar na seara da MPB, deixamos bem claro, gosto pessoal, um João Bosco (puta músico) que sem  Aldir Blanc perdeu muito em qualidade poética e em crítica social. Exemplos como estes nos mostram que letristas excepcionais não brotam como cogumelos e muito menos caem do céu.

Nota - [1] Ver no youtube “Onde a Coruja Dorme” documentário com Bezerra da Silva em http://youtu.be/ItdIRrJjZUc

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