Luciano, Neymar e bananas

30/04/2014 10:38

Daniel Baptista

O gesto de Daniel Alves ao devorar a banana arremessada por um torcedor do Villareal foi no mínimo surpreende, um tapa na cara de todo racista europeu. No entanto o gesto de Neymar e de Luciano Huck e sua trupe é no mínimo patética ou então, lamentável. O próprio Daniel Alves já declarou que sua intenção era retribuir um gesto negativo, com um positivo. Pois bem, seu gesto na luta contra o racismo é válido e inédito, ficará eternizada entre muitos outros “causos” futebolísticos.

Por outro lado, o que merece repúdio é a camiseta lançada por Luciano Huck (sim, aquele que é amigo do Aécio) que convenhamos, não passa de uma cópia barata da capa do LP do Velvet Underground, é que deve ser rechaçada, execrada e torçamos para que ele tenha um prejuízo imenso com as suas camisetas antirracistas. Até consigo imaginar ele no improvável Caldeirão: “loucura, loucura loucuraaa... adquira já a sua camiseta ‘somos todos macacos’ e engaje-se na luta contra o racismo...”. Os tempos em que vivemos na era do mercado absoluto, do simulacro, da futilidade e da leviandade, torna qualquer luta e causa em um produto! Um produto que é absorvido por aqueles que detêm a cultura de massa, ressignificando-o e largando ao populi, mascarando desta forma o problema estrutural que é o racismo não somente em nossa sociedade, mas também no mundo inteiro. Usá-lo como fonte para obter renda é tão agressivo quanto colocar pigmeus em circo de horrores do século XIX, sem querer cair em anacronismos. As políticas segregacionistas que permeiam a história em suas diferentes épocas e locais (EUA, Brasil, África do Sul...) são oriundas de uma cultura dominante que se estabeleceram em variados espaços com particularidades condicionantes na época em que foram gestadas e reproduzidas. Sim, é herança cultural, herdamos essa mazela que foi fundamental para estabelecer a nossa contemporaneidade e ele existe sim - o racismo - quer você queira ou não. Dizer que racismo não existe porque você não o vê é o mesmo que dizer que a radiação não existe porque você não a enxerga. Vou desenhar, palavras do grande Carlos Moore:

Dito de outra maneira: o racismo é uma recuperação cultural de um conjunto de comportamentos agressivos, violentos e egoístas cuja finalidade é a estruturação de sistemas de gestão dos recursos em termos racialmente monopolistas.

Quando se vê figuras lamentáveis como Luciano Huck, aderindo a uma luta que sempre foi genuinamente negra, dos oprimidos, dos historicamente marginalizados, temos necessariamente neste caso um monopólio do mesmo fenótipo opressor, que ao absorver e incorporar estas demandas torna legitima a ideia de que “um branco está dizendo que luta contra o racismo, agora sim podemos lutar contra”, algo que há anos os movimentos negros denunciavam em suas pautas - sobre o racismo nosso de cada dia - que sempre era rechaçado como coisa de paranóicos e gente que vê problema em tudo. Ao ser lançado no mainstream pela mesma classe que detém este mesmo mainstream (olhem quem cozinha nas novelas) torna-se válido e esvazia a problemática profundamente, não levando-a com a seriedade que ela merece. Para ilustrar melhor estas linhas tortas, deixo uma passagem de A sociedade do espetáculo de Guy Debord:

O consumo espetacular que conserva a antiga cultura congelada, compreendendo nela a repetição remendada de suas manifestações negativas, torna-se abertamente no aspecto cultural o que ele implicitamente é na sua totalidade: a comunicação do incomunicável.

Portanto jamais o gesto do bom samaritano Luciano Huck ocultará mais ainda o que é visto e que insiste-se em não ver.

E o Neymar, bom... Neymar é o mesmo cara que disse que não é negro [1] , creio que não precisa de mais explicações.

Portanto não me venham com esse golpe baixo de que somos todos macacos (diga isso a Tinga, Grafite, Márcio chagas de Freitas e tantos outros que no anonimato sofrem vivem essa miséria humana diariamente), buscando cooptar todas as lutas antirracistas e colocando-as em uma tigela de universalidade eurocêntrica. Buscar o igual no diferente, a diferença na igualdade, este é o nosso desafio. Continuemos a lutar por isso.

Nota
[1]
 http://jornalggn.com.br/noticia/neymar-diz-que-nunca-sofreu-racismo-porque-nao-e-preto

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