Linha aérea França-Mali: plantando bombas para colher urânio

22/01/2013 08:13

Davenir Viganon

Um fator fundamental no cenário africano habita aquelas terras desde as grandes navegações, quando se olhou para a África com a cobiça dos pioneiros na exploração do continente: os interesses econômicos, representados pelas empresas europeias.

A intervenção francesa ao Mali, não consiste em si numa novidade, é apenas uma de muitas exercidas por países europeus sobre africanos. Em 2012, pode-se acompanhar a intervenção da mesma França na Líbia. O envio de armas, soldados e de toda a tecnologia bélica de ponta sempre são no sentido Europa-África. Mesmo antes dos aviões serem usados para a guerra, já havia europeus dominando o continente.

riquezas naturais do país

Um histórico de invasões

Depois de um inicial respeito pelas formações políticas da África, durante as grandes navegações, onde continente africano era ocupado por imponentes impérios e reinos, esses foram sucumbidos por uma invasão sistemática, onde os países do continente europeu buscavam expandir seus respectivos impérios coloniais. Os africanos sofreram com a famosa tática do “dividir para conquistar”. As formações políticas africanas, mais dóceis aos ditames europeus, eram aliadas para sobrepujar as restantes. O ápice dessa invasão foi a Conferencia de Berlim, onde foi feita a chamada partilha da África. Com o campo político livre e sob controle, as companhias puderam explorar as riquezas naturais do continente com lucros significativos.

À medida que se intensificam as relações entre África e Europa, o continente africano historicamente foi privado de sua autonomia política. A dinâmica das ações no continente, durante o século XX, foi marcada pelo neo-colonialismo. Muitas lutas se seguiram principalmente nos anos 50, 60 a 70 em busca de afirmação e soberania dos Estados. A independentização dos países na África veio muitas vezes com subsídios, armamentos estrangeiros e assim se mantinham no poder. O campo socialista buscava apoio na região, fornecia armas para grupos que se alinhavam com a esquerda, o que promovia choques com os apoiados pelo lado Ocidental. Findada a URSS, houve um novo arranjo político no continente, seguido de mais guerras. Mas a linha de raciocínio continua a mesma: onde houver regimes que sejam cooperativos com as potências Ocidentais serão apoiados por elas. Os ditadores transformam-se em estadistas, as democracias são consideradas vitórias da civilização, mas ambos não titubeiam ao utilizar a força.

Noticiário sobre a África

A política africana é complexa aos olhos acostumados ao noticiário europeizado. Recebemos noticias somente de conflitos armados da África, como se apenas disso se compusesse a política no continente. A notícia “França invade Mali” remete mais ao pólo europeu que o africano. Mesmo que ainda não tenhamos aprendido a ver a África a partir de seu próprio desenvolvimento e acompanhemos as noticias com o olhar europeu, isto não priva a mídia de contradições gritantes dentro de sua própria lógica eurocêntrica de noticiar.

O tom reinante é de tragédia iminente ao tal país africano que pareceu surgir repentinamente no mapa. Da mídia tradicional, não poderíamos esperar outra coisa. Generaliza-se a política externa do mundo islâmico, fazendo-nos acreditar que todas as vertentes religiosas são radicais como a Al-Qaeda. Esquece-se do poço de conservadorismo que é a Arábia Saudita e rotula-se o Irã de ligações com a Al-Qaeda, quando na verdade são inimigos declarados. Daí para apontar-se o dedo à África e dizer “aqui tem terroristas!” e “a Al Qaeda está aqui!” e temos legitimação para uma invasão no melhor estilo Bush filho.

Não fugindo as generalizações a Carta Capital, mostrou seu apoio claro e a falta de critica ao noticiar a invasão francesa ao Mali[1]. Em seu site a CC noticiou a invasão com ares de Bush em sua “guerra ao terror”. Tente ler a noticia trocando “França” por “Estados Unidos” e “Mali” por “Afeganistão” que o resultado é parecido.

A reportagem esquece a histórica política (neo) colonialista francesa na África, num amaciamento da atual política francesa para o continente, que moralmente foi preservada. Mas como o silêncio sempre fala o mais importante, as corporações empresariais francesas, que são sempre as maiores interessadas nesses conflitos, simplesmente foram esquecidas, um silêncio esperado e concretizado por publicações tradicionais, mas que aguardava-se uma critica mais severa da CC. Ao invés disso ressalta-se a questão “humanitária”, que convenientemente salta de um quadro de profundo esquecimento, por parte da Europa, a prioridade com direito a envio de soldados ao país.  Como se “enviar soldados” ao país possa ser considerado ajuda humanitária.

o "humanitarismo" francês estampado no rosto do soldado

E o urânio?

A questão política é elevada à causa única do conflito entre rebeldes e governo no Mali. A linha aérea que despeja bombas as cidades malinesas, serve aos interesses da indústria bélica e petrolífera francesa. A Dassault, que anda desesperada para vender seus aviões de caça Rafale, encontra mais um conflito (a Libia também serviu de vitrine aos jatos) com os rebeldes islâmicos. É o teatro perfeito.

Mas o principal são os recursos naturais recém descobertos, justo na região principal dos rebeldes, o norte do país. O petróleo explorado pela Total e o urânio pela Areva são estratégicos, principalmente o ultimo, para França onde ¾ da energia consumida é de matriz nuclear.

Em nosso noticiário, de uma maneira geral, evaporou-se a influência e os interesses das companhias francesas no conflito.  Quem estava esperando que o “socialista” Hollande fosse fazer uma política em relação à África diferente de seu predecessor deu com os burros n’água. Na época das eleições presidenciais da França, ficou clara a posição da mídia tradicional e de algumas alternativas em relação às últimas eleições francesas, uma torcendo pelo conservador Sarkosy, e a outra por Hollande, o “socialista”. Mas seria pura ingenuidade ver Hollande como um bravo paladino do socialismo.

Em épocas de crise econômica, nada como reafirmar velhas políticas para com a África. Como numa bola de neve os tuaregues e outros grupos voltam a perturbar os franceses e a escalada da guerra parece inevitável, talvez até preferível. Não importa quantas bombas se plantem em território malinês, enquanto se colher o urânio, os franceses continuarão tranquilos bebendo nos cafés de Paris. 

Leia mais:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/a-franca-ataca-a-al-qaeda-no-mali/

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/01/130116_mali_franca_bg.shtml

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/01/130115_mail_quemequem_bg.shtml

http://correiodobrasil.com.br/destaque-do-dia/ouro-e-uranio-servem-como-pano-de-fundo-a-invasao-francesa-no-mali/570746/

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21514

http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=1173

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21513

Imagens

soldado - http://f.i.uol.com.br/folha/mundo/images/13020245.jpeg ; mapa - http://correiodobrasil.com.br/wp-content/uploads/2013/01/mali-franca2.jpg

Nota

 

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