Limites e possibilidades do Cyber-ativismo - Dispersão política organizada ou organização política dispersa?

06/02/2013 08:22

Alex Oestreich

Nos últimos dois anos, algumas imagens tornaram-se lugar comum nas analises e nas publicações que tratam do tema CYBER-ATIVISMO (ou ciber-ativismo). A primavera árabe, símbolo mais distinto da organização popular contemporânea, teve em ferramentas como Twitter e Facebook, a possibilidade de organizar-se espalhar notícias e sensibilizar o mundo todo através da ação massiva de seus propagadores. Outros exemplos podem ser encontrados na ação de varias manifestações, que quase instantaneamente a partir do ocorrido no mundo árabe despontaram na mídia internacional, como as ações dos estadunidenses do Occupy Wallstreet, ou os indignados na Espanha e Portugal. Mas talvez o símbolo mais destacado dessa nova onda de protestos, inaugurada quase que simultaneamente, seja a máscara de Guy Fawkes; ícone que caracteriza as ações do coletivo anonymous.

Seriam estes exemplos a prova que atesta o nascimento de uma nova cultura da contestação, mais adequada a nova realidade inaugurada com a popularização do acesso à internet? Ou estamos diante de um fenômeno efêmero?

O ativismo na internet

Até a internet se tornar um fenômeno global, capaz de incidir nas diversas instancias da vida social, passaram-se muitos anos. Da mesma forma, a questão do ativismo digital, passou por uma infinidade de fases, que resultaram no que conhecemos hoje. Sabe-se portanto, que a forma com que as sociedades e os grupos se relacionam com a internet está intimamente ligada com a forma pela qual esta se integrou à esfera. De uma mera ferramenta militar, até sua implementação como rede integrada para distribuição de materiais acadêmicos entre os cientistas que trabalhavam no CERN, a internet sempre esteve associada a um privilegio de controle de informação por instituições de poder e de conhecimento.

Foi também um cientista do CERN que a nomeou como internet e foi o responsável pela ampliação do acesso dessa rede a usuários fora do circulo restrito até então. Ainda que houvesse a ampliação do acesso, durante muito tempo a internet e os computadores eram privilégios das universidades e de meia dúzia de aficionados por eletrônica. Com a popularização dos PC devido ao surgimento de empresas como Macintosh e IBM/Microsoft, foi-se paulatinamente ampliando o acesso a internet através do uso de computadores pessoais, neste sentido novas formas de interação e de utilidade para a rede foram sendo dadas pelos usuários que ao redor do mundo passavam a se familiarizar com esse fenômeno ainda muito novo.

Podemos afirmar, com certa margem de certeza, que o ativismo digital começa a dar seus primeiros passos na década de 1990 com a ação de alguns indivíduos oportunistas. Tais indivíduos, não tinham posições político-partidárias definidas, ou relação com qualquer vertente política tradicional. Eram entusiastas de ideais utópicos de liberdade associados a áreas específicas, mais precisamente suas áreas de atuação. Neste contexto temos o surgimento de ataques de hackers, criação de softwares de compartilhamento P2P, distribuição e invasão de bancos de dados governamentais e etc. Na década de 90 veremos o surgimento de ataques a setores chave da administração estadunidense e liberação de diversas teorias conspiratórias a respeito de temas diversos, temos ainda a polêmica do Netscape – primeiro software de compartilhamento de músicas P2P, e precursor dos processos e litígios por direitos autorais na internet. Aos poucos, foram sendo verificados os limites e possibilidades da utilização da rede para ações políticas.

Na atualidade, a ampliação do acesso a internet beira a universalização, ainda que com toda certeza possamos afirmar que uma gama muito grande de pessoas ao redor do mundo sequer sabem o que é um computador... Com o surgimento das redes sociais, aliada a essa conjuntura de ampliação de acesso à rede, houve uma mudança drástica na forma como as sociedades se comunicam e se relacionam. Novas formas associação política surgiram, fruto dessa nova conjuntura politico-tecnológica e por se tratar de um fenômeno ainda muito novo, carece de estudos mais aprofundados em relação a essa dinâmica. Não é por acaso que nos últimos anos, temos o aparecimento de diversas manifestações ao redor do mundo, tendo as redes sociais como principal mecanismo de organização, porém para além desse contexto de evolução digital, existe um contexto de evolução da sociabilidade que interfere diretamente na forma pela qual as populações – em especial os jovens – têm militado. Um exemplo característico dessa nova organização política é o coletivo Anonymous.

Anonymous, o ativismo da dispersão

O que seria o coletivo anonymous? Um grupo hacker, adolescentes entediados ou simples trolls? Na verdade a resposta para esses questionamentos é somente uma: tudo isso junto. O coletivo que passou a se denominar anonymous a partir de 2008, é um conjunto de outros tantos coletivos interdependentes, capazes de mobilizações instantâneas e efetivas. São o resultado da atual conjuntura internacional no ambiente on-line. Desde 2011, passaram a ser influentes meios de agregação social e responsáveis diretos pelas chamadas ao protesto em diversos lugares do globo, incluindo os países árabes e os E.U.A. A sua maneira, passaram a criticar uma estrutura governamental que é diametralmente oposta aquilo que pregam: horizontalidade politica e ação coordenada por grupos sem líderes.

Fruto de uma nova conjuntura politica descentralizada e ativa no ambiente virtual, tal mobilização causa medo e espanto nos meios políticos tradicionais, que não sabem como estabelecer contato com estes grupos. A falta de um uma organização politica estruturada por meio de líderes, ou mesmo de representantes formais, aliada a inexistência de reivindicações concretas faz com que estes coletivos temporários passem a ser conhecidos como “swarms” (enxames).[1] Os enxames são compostos por indivíduos independentes, que utilizam ferramentas e canais comuns de comunicação, como por exemplo o site www.4chan.org. O 4chan é um fórum aberto ao publico, onde pode-se encontrar de tudo, de tudo mesmo!! Não há critério para seleção de posts, textos, imagens, artigos e etc. tudo que é postado alí depende da audiência alcançada para continuar existindo. A vantagem de sites como este é que o conteúdo não é guardado, os tópicos com menos visualizações vão sendo derrubados para o final da lista e em determinado período, deletados. Lá por exemplo, pode-se postar uma chamada para um ataque massivo a algum site, se a ideia interessar, um grande números de pessoas pode no horário determinado atacar o site de algum órgão governamental e tirá-lo do ar. A desvantagem desse tipo de fórum, é que impede a criação de uma memória coletiva, favorece o esquecimento. Pois tudo aquilo que não se repete cai no esquecimento.

Essa cooperação espontânea e efêmera segue algumas regras gerais como a necessidade de existência de três fatores chave para mobilização. Estes fatores foram elencados pelo especialista em mídias sociais Clay Shirky[2] como: Uma promessa que se resume ao motivo gerador da mobilização, ferramentas que são disponibilizadas on-line, como softwares de ataque digital (ex: LOIC) e um acordo que defina as condições de agregação entre os membros. Porém, essas três características mesmo juntas não seriam suficientemente fortes para garantir a continuidade da coesão em torno desses grupos, já que da mesma forma que se montam rapidamente, se desfazem. Uma vez que não existem líderes, como ocorre a identificação dos membros em um universo tão disperso e efêmero? È preciso haver um ícone, um símbolo que garanta o reconhecimento entre os partidários, e neste sentido o Anonymous conseguiu magistralmente esse reconhecimento através da imagem do rebelde católico Guy Fawkes. A mascara do rebelde oitocentista, torna-se um símbolo que faz com que mesmo dispersos, os integrantes do coletivo se reconheçam.

Primavera árabe, Occupy Wall Street, Indignados e sua relação com as mídias sociais

As redes sociais são sem dúvida uma constante na vida de uma quantidade muito grande de pessoas ao redor do globo na atualidade, além de uma mera forma de relacionamento on-line, as redes sociais tem se tornado ferramenta política na mão daqueles que não possuem acesso aos canais formas de representação política. Mas qual o papel das redes sociais em movimentos como o Occupy Wallstreet, os indignados e na primavera árabe?

Ao argumentar sobre a relação que estas ferramentas tiveram na organização e continuidade do movimentos ao redor do mundo, se utiliza como base a premissa de que as redes sociais foram importantes pois favoreceram a disponibilização de informações – verdades – até então ocultas. Ou seja, foram os possibilitadores de consciência, para tomada de posição do povo em relação a sua situação em que se encontrava.

Occupy Wall Street - Este veio a tona devido ao recrudescimento da situação financeira e ao desemprego altíssimo gerado em função da crise financeira. Os principais argumentos eram que a culpa de tal situação vinha da ação de banqueiros e da bolsa de valores que faziam dinheiro com o sofrimento da população, “somos os 99%” era o slogan principal dos manifestantes. O facebook foi uma ferramenta fundamental na organização das manifestações, pois através da criação de eventos com data e hora marcada puderam organizar-se em grandes grupos que tinham alvos prioritários, como a própria Wallstreet e demais locais como a sede de alguns bancos. Ao mesmo tempo, imagens e vídeos de todo o processo, incluindo as manifestações de repressão violentas, eram colocados on-line e simultaneamente a sua gravação. A quantidade de informação e imagens do processo é assustadora; A organização rápida, efetiva e a transmissão dos acontecimentos, assustaram as grandes emissoras de TV, que não souberam o que fazer, não havia tempo para maquiar a realidade sem parecer ridículos frente a realidade dispersa nas redes sociais. Limitaram-se apenas a ignorar os acontecimentos, transmitindo a sua programação normal, até que não havia mais possibilidade de ignorar tal fenômeno. Da mesma forma as forças de coerção precisaram de um tempo considerável para entender e “tratar” da situação.

Indguinados - Da mesma forma que o fenômeno do Occupy, os Indiguinados na Espanha e Portugal se organizaram através da utilização do facebook. De modo que apenas alternaram os locais de protesto. Vitimas também de um recessão causada pela crise financeira, escolheram como locais de protesto, praças e grandes locais de convivência e transito. Através das redes sociais, faziam a organização e a veiculação de informações, fotos e vídeos na rede.

Primavera Árabe - O caso mais emblemático dessa nova série de ativismo social com base nas redes sociais é sem dúvida a primavera árabe. Tendo o Egito como epicentro, mas alastrando-se a demais países do oriente como Tunísia, Síra entre outros. As manifestações foram muito além do que seus congêneres Euro-estadunidenses, pois conseguiram desestabilizar governos e acabar com ditaduras.

No caso específico do Egito, as redes sociais foram as ferramentas fundamentais para a eclosão da série de manifestações que derrubaram o antigo ditador Hosni Mubarak do alto de seus mais de 30 anos de ditadura apoiada pelo ocidente. Porém nesse país, as redes sociais tomaram uma outra orientação e tiveram duas funções básicas: despertaram a conscientização popular, despertando o potencial revolucionário latente das massas e ainda, foram responsáveis pela organização das manifestações.

Primeiramente, através de uma campanha massiva de disponibilização de imagens, vídeos e principalmente textos[3] a população em geral, foi se conscientizando a respeito dos desvios e desmandos da ditadura, foram ainda evidenciados a situação lamentável em que vivia boa parte da população. Catalisando assim o potencial de indignação do povo egípcio e arregimentando muitos simpatizantes ao redor do mundo; o Twitter foi importante nesse contexto, já que ao atingir diversas vezes os trading topics mundiais, as mensagens de critica ao governo, chamaram atenção do mundo para situação local. Num segundo momento, em que já havia possibilidade de mobilização, os blogueiros e demais figuras influentes nas redes sociais, propuseram o início das manifestações na Praça Tahir, levando milhões de pessoas às ruas, o resto da história já sabemos.

O mais importante disso tudo é que a maioria das imagens, vídeos e informações que foram repassadas entre os egípcios, e que da mesma forma, chegaram ao mundo. Vieram das redes sociais, não das grandes redes de TV e conglomerados comunicação. Devido a isso, em muitos países como a Síria e obviamente o Egito, temendo o potencial mobilizador das redes sociais, os governantes cortaram o acesso a internet ao longo do processo. Mas já não se podia mais deter o povo.

Limites e possibilidades

Ao verificar o papel ocupado pelas redes sociais no processo de gestação, articulação e veiculação dos resultados nas manifestações ocorridas ao redor do mundo, podemos concluir que estas foram fundamentais como formas de expressão das massas que não possuem canais formais de representação. A ação de coletivos, como o Anonymous, mostra que socialmente houve uma alteração considerável na forma pelas quais as pessoas se socializam e se organizam politicamente na atualidade. Porém, há que se ter em mente, que como toda a forma de organização precedente, as atuais possuem pontos positivos, capazes de alavancar todo o aparato de contestação. Como da mesma forma, possuem pontos negativos, capazes de implodir qualquer movimento.

Positivamente podemos elencar algumas características como: A possibilidade de organização rápida, a descentralização e horizontalização do movimento, bem como a efetividade de suas ações. Seja na ação dos swarms, ou mesmo nas praticas politicas grupais verificadas, vemos a lógica da dispersão de ideias. Isso é muito importante uma vez, que não existe coesão entre a maioria dos indivíduos, uma sucessão fluida de conceitos e ideias serve ao proposito de organizar mesmo aqueles que não concordem com a totalidade de um discurso. Por não haver lideranças políticas monolíticas nem centralizadoras, podemos verificação a adoção de discursos mais radicais e até curiosos como “pirataria é liberdade” utilizada pelo anonymous; são expressões que qualquer liderança política formal teria medo de assumir, pois poderia se descredibilizar frente aos demais concorrente. Ações descentralizadas e esporádicas tem a vantagem de arregimentar todo um potencial latente e contestador de massas que geralmente se entediam com facilidade em mobilizações tradicionais.

Negativamente, há alguns pontos fundamentais que devem ser evidenciados. O principal deles é a falta de um discurso coeso em torno de alguma demanda fundamental. A organização dos coletivos e das manifestações atuais, se ganha pelo lado da descentralização um grande numero de adeptos, perde de outro, no tocante a mudanças reais. Por não possuir um discurso coeso, são poucas as possibilidades de modificação da realidade. A dispersão de ideias impede que haja a sistematização de algo concreto. A diversidade de discursos contestatórios ao mesmo tempo em que é uma vantagem, acaba por torna-se uma desvantagem; A falta de líderes, impede que haja um canal de comunicação com as autoridades e representantes do poder instituído, passando a impressão de anarquia e desorganização, muitas vezes interpretadas como atos de rebeldia e rechaçados com força. Exemplo preocupante é o do próprio Egito, que após a derrubada do ditador Mubarak do poder, viu se dissolver a coesão entre os blogueiros e “lideranças” on-line. Não tendo mais um inimigo em comum para atacar, passaram a competir entre sí por poder político, sendo ultrapassados por um grupo organizado, a irmandade muçulmana.

Cabe daqui para frente, com os exemplos dados por estes grupos e pelo poder da informação e da organização popular dado pelas redes sociais, ampliar a área de atuação dos protestos, mas ao mesmo tempo criar uma organicidade contestatória capaz de fornecer bases para que após a chegada ao objetivo original, possam ser possibilitadas mudanças reais em favor das necessidades manifestadas.

Notas

[1] Para entender melhor a questão da organização e ação dos swarms, ver o artigo de Rick Falkvinge – swarmwise: what is a swarm? <http://falkvinge.net/2011/08/01/swarmwise-what-is-a-swarm/>

[2] No livro here comes everybody: the power of organizing without organizations.

[3] visto que o Egito tem uma cena política contestatória é viabilizada pela ação de blogueiros.

 

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