Liberdade para a mídia, segurança para as ruas

28/02/2013 08:18

Davenir Viganon

Estamos em tempos de liberdade ou de segurança? Sentir-se seguro e sentir-se livre ao mesmo tempo é possível? A história intercala momentos em que se lutou pela liberdade, mas também existem momentos em que a segurança torna-se a prioridade. Zygmunt Bauman, defende existência de uma volatilidade de nosso mundo atual, diferenciando a atual “modernidade Liquida” e a “modernidade Sólida”.

“Virtualmente todo mundo, quer na esquerda ou na direita, assumia que a democracia, quando existia, era para hoje ou amanhã, mas que uma ditadura estava sempre à vista; no limite, o totalitarismo poderia sempre chegar e sacrificar a liberdade em nome da segurança e da estabilidade. De outro lado, como Sennett mostrou, a antiga condição de emprego poderia destruir a criatividade humana, as habilidades humanas, mas construía a vida humana, que podia ser planejada. Tanto os trabalhadores como os donos de fábrica sabiam muito bem que eles iriam se encontrar novamente amanhã, depois de amanhã, no ano seguinte, pois os dois lados dependiam um do outro.

Bem, nada disso existe hoje. Dificilmente um outro tipo de stalinismo voltará, e o pesadelo de hoje não é mais a bota dos soldados esmagando as faces humanas. Temos outros pesadelos. O chão onde piso pode, de repente, se abrir como num terremoto, sem que haja nada no que me segurar. A maioria das pessoas não pode planejar seu futuro por muito tempo adiante. Os acadêmicos são ainda umas das poucas pessoas que têm essa possibilidade. Na maioria dos empregos podemos ser demitidos sem uma palavra de alerta. ”[1]

Em dois pólos temos a liberdade e a segurança. Como diz Bauman abdicou-se a liberdade em troca de segurança, hoje a liberdade eliminou qualquer garantia de um projeto de vida. No Brasil sabe-se bem como é abdicar da liberdade em troca da segurança principalmente entre 1964-85 e a abertura política que findou o regime passou a se inverter a balança para a liberdade, essa moldada pelo neoliberalismo.

Essa “modernidade liquida” é alimentada pela velocidade da comunicação. A mídia moldou-se ao discurso. Em tempos de ditadura a segurança nacional contra o comunismo era prioridade, hoje o discurso é o da liberdade de imprensa. Essa baliza-se na necessidade de que a informação corra livremente pela sociedade para o beneficio desta, ou seja, a liberdade de expressão é tratada como o mesmo que liberdade civil e qualquer traço de regulamentação ou controle desta é estigmatizado como uma tentativa de retorno ao tempos sombrios da censura e do cerceamento total da liberdade. Não surpreende a adesão desse discurso pregado diariamente na televisão, tendo em vista a importância dos meios de comunicação na sociedade. Ao mesmo tempo a população supostamente o maior beneficiado por essa liberdade não tem acesso ela, pois suas demandas e queixas são distorcidas  e influenciadas pelos interesses da própria mídia. Os que desejam se manifestar, seja pela necessidade e/ou  pela consciência, o fazem na rua buscando exercer sua liberdade que é suprimida pela lógica do discurso da liberdade de imprensa.

A liberdade de imprensa gera seus frutos podres para a sociedade. Tal liberdade se manifesta na ampla disseminação do discurso conservador, apoiado e consumido, em diferentes abordagens, para dar conta da multiplicidade de identidades desses tempos. Os discursos que preconizam mais segurança se manifestam desde os obscuros recantos da internet onde se encontram os neonazistas, passando pelos “nostálgicos da ARENA” - neoconservadores que desejam o retorno da ditadura, como Daniel Baptista já nos alertou (O mal que nós fazemos) – até nos programas diários no tele-jornalismo como já abordado no artigo Os seguidores do datenismo e nos fanatismo religioso das neopentecostais.

Liberdade para a mídia...

Em tempos de ditadura, onde a segurança era prioridade, as torturas eram relegadas aos porões e aplicadas pelos militares, à televisão tinha o papel de anestesiar o perigo comunista e exaltar a nação em sua capacidade de combater esse perigo. Hoje a tortura e a repressão é quem garante os pontos de audiência. Os torturados que estrelam o noticiário não são estereotipados pelo aspecto político e sim pelas características econômicas e sociais.

O jornalismo policialesco foca-se no problema da segurança diariamente como prioridade pública, pois a “bandidagem solta na rua” é, segundo o discurso datenista, o que impede de levarmos uma vida digna. Assim justifica-se casos como o da humilhação de um acusado de estupro na Bahia[2], por uma repórter da Band que realiza uma verdadeira tortura psicológica no acusado. O fato do rapaz, um ser humano, ser apenas um acusado que foi detido, não impediu a repórter de tratá-lo como mais um de uma população que é massificada numa coisa só, sejam detidos por acusação ou apenados no sistema penitenciário, resumidos nos termos “bandido” e “vagabundo”. Temos nesse caso um exemplo do comportamento conservador que se vinga de seu algoz. Sua liberdade jornalística serve para reprimir, despertando e fomentando ódio e preconceitos que estereotipam o negro e/ou pobre como agente máximo da falta de segurança que cerceia a liberdade de um tal “cidadão de bem”.

Apelação ao preconceito social estereotipando o indivíduo

A repórter apesar de afastada, pela emissora e ter de responder pela justiça, com certeza encontrará apoiadores para aplaudir sua atitude, da mesma maneira que a emissora permitiu que tudo isso acontecesse a afastou apenas para se livrar de um envolvimento jurídico maior.

O estímulo ao ódio é tão parte do pensamento elitista da emissora e de seus jornalistas que o expoente máximo do jornalismo policialesco do Brasil, José Luiz Datena, justificou crimes hediondos como “falta de deus no coração dessa pessoas”[3]. Nada que já não tenha sido repetido a exaustão pelas neopentecostais que abraçam o discurso proferido nos telejornais ao compartilhar os (pré) conceitos de “bandido”, “vagabundo”.

Aproveitam-se esses pastores, para alinhar “bandidos”, “vagabundos” com “gays”, “comunistas”, “feministas” como fez Silas Malafaia, em entrevista à Marilia Gabriela[4], ao declarar que “ama os homossexuais como ama os banidos”.  Segue-se assim, tanto Datena quanto Malafaia, proferindo frases de efeito que poupam um pensamento mais apurado a população e exaltam valores conservadores.

... segurança para as ruas.

Nossa visão sobre o que acontece fora da realidade virtual é muito pautada sobre o que acontece dentro dela. E cada vez mais é assim, tamanha a dependência da informação que obtemos dos meios mais difundidos, como a TV, o rádio, mas também da internet. Cada vez mais se perdem os espaços exteriores como bens comuns, de reunião e relação do indivíduo com a coletividade onde se estabeleciam relações conversando de perto, olho no olho.

A própria definição de relação social esta sendo resignificada. Como Bauman diz em entrevista, ao falar sobre a internet,

“qual a diferença entre rede e comunidade? A comunidade precede o indivíduo; a rede, ao contrário, é feita e mantida viva por duas atividades diferentes: o conectar e o desconectar. (...) É fácil conectar, fazer amigos, mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar”[5].

Os laços emocionais se tornam efêmeros e rasos, evitando o trauma de se desprender de uma ligação emocional forte, o que explica que muitos abandonem a segurança do casamento ou nem queiram sequer casar-se, preferindo a vida de solteiro, ou que ao invés de levar uma vida de trabalho ordeira, que cada vez menos oferecem garantias de estabilidade, seja mais atraente a vida curta e endinheirada do crime. Ao andar nas ruas, não existe mais o contato olho no olho, às vezes sendo até uma ofensa, uma invasão a privacidade, assim caminhamos pelas nas ruas como numa multidão de solitários.

Liberdade para quem?

Segurança para quem?

A propalada “liberdade de expressão”, tem um significado diferente nas ruas. Andamos por elas como uma passagem de um ponto a outro, encontramos apenas propagandas no caminho. Reduzimos nosso contato visual apenas a elas mesmo quando em espaços de aglomerações, a multidão apenas faz parte da paisagem, pois estamos acompanhados de poucas pessoas, quando não estamos sozinhos. Cada vez mais é comum a expressão,  guri de apartamento, para pessoas conectadas na internet e que não tem desenvoltura ou experiência quando estão em ambientes abertos.

Essas experiências diminuem a utilização dos espaços públicos o que tem consequências bem visíveis. Com a aproximação da copa do mundo no Brasil, acompanhamos um processo de higienização e reorganização dos espaços urbanos em todas as cidades que abrigarão o evento. Em Porto Alegre, a utilização do largo Glenio Peres, na capital gaúcha por empresas privadas, denunciadas em vários artigos aqui (especial: porto-alegre  adotada) e a mais recente ação do prefeito Fortunati ao remover as arvores para a duplicação da Avenida beira-rio[6].

A “liberdade de expressão” que na prática é a liberdade da mídia foi agregada como sinônimo de liberdade civil, buscando tomar o lugar desta como porta-voz das demandas e anseios da população, transferindo o canal de expiação das manifestações populares para os meios de comunicação. Assim se uma manifestação pública, como uma passeata do Movimento dos Sem Terra, por exemplo, não é noticiada não ganha visibilidade suficiente para ser reconhecida como significante. Mesmo quando tal evento é noticiado, a ideologia do partido da mídia, remodela o fato para população, possivelmente alterando a substancia de seu objetivo, agindo contra a idéia inicial do protesto. Assim uma passeata do MST ganha adjetivos de vandalismo, baderna, uma ameaça a segurança. Cria-se assim mais uma justificativa para a repressão da policia nas ruas.

A realidade mostrada pelas mídias e a realidade das ruas, são muitas vezes diametralmente opostas devido ao intenso teor político do discurso da “liberdade de expressão” que dá liberdade para a mídia, mas legitima a repressão nas ruas.

Se para Bauman, nunca cheguemos a um equilíbrio perfeito entre segurança e liberdade ao menos os espaços de mídia, tão importantes atualmente, possam se tornar um espaço mais democratizado onde o questionamento critico tenha espaço. Mas nada disso ocorre sem enfrentamento, nada disso passará na TV, não esperemos que a mídia debata a si mesma para que possamos entende-la.

Notas:

[1] http://www.fronteirasdopensamento.com.br/portal/entrevistas/a-sociedade-liquida-entrevista-com-zygmunt-bauman

[2] http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ministerio-publico-entra-com-acao-contra-reporter-da-band/

[3] http://www.cartacapital.com.br/sociedade/band-e-condenada-por-relacionar-ateus-a-crimes-barbaros/

[4] Link entrevista - www.youtube.com/watch?v=qMnpRdIMAvY

[5] Entrevista ao Fronteiras do pensamento - http://vimeo.com/27702137

[6] http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=487650

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