As Letras rançosas da Veja: patrulha ideológica disfarçada de opinião

11/12/2012 13:33

Davenir Viganon

Temos que lutar contra esse homem que só pensa nele, em ganhar dinheiro, um homem que o capitalismo criou.” - Oscar Niemeyer

O texto de Reinaldo Azevedo,[1] publicado em seu blog da Veja.com, causou profunda indignação ao criticar Oscar Niemeyer (um post no Facebook condenando o texto teve 14 mil compartilhamentos), o famoso arquiteto falecido recentemente. De fato não foi uma critica a obra do arquiteto e sim ao seu posicionamento político. Não se trata apenas de uma opinião, jogada ao vento, mas um posicionamento claramente ideológico da revista Veja, em sua cada vez mais intensiva patrulha ideologia reacionária, que dessa vez se mostrou mais do que de costume, de maneira infeliz, pedante, e inconveniente. Evidenciando a desonestidade intelectual que faz seu leitor girar num circulo fechado, de mentes fechadas.

Em relação ao texto em si, concordo com a afirmação de Azevedo “Um homem não é a sua obra”, por ser uma afirmação óbvia, se “homem” fosse e “obra” de que motivaria o homem a se expressar artisticamente? Mas sua obra reflete o homem, aquele que não conseguimos perceber sem a arte, que não consegue se definir profundamente com as imprecisas ferramentas da linguagem, por isso ele usa a arte, busca nos sentidos que lhe fogem as palavras para mostrar o que ele sente.

Considerar Niemeyer “idiota” por seu posicionamento político é simplesmente cometer um julgamento sumário, baseado em seu próprio filtro ideológico. Sua critica ideológica aos “fasistóides” e “anti-semitas”, nada mais é do que relativizar e mascarar seu alvo principal. Ao se declarar comunista, Niemeyer se posiciona politicamente e o faz isso com muita firmeza e sinceridade. No mais do texto meus amigos é pura ideologia disfarçada de opinião. Mas nem por isso cabe deixar passar sem meu comentário.

Seguindo o texto, o autor acredita que a “boa arte política é sempre reacionária, voltada para o passado. Artistas que se dobram a utopias finalistas se transformam em prosélitos.” Quanto a essa afirmação, guardo ressalvas. Em primeiro lugar, eu admito, não sou muito entendido de Arte, mas a entendo como uma forma de se expressar sem o uso da linguagem, pois essa é muito limitada para exprimir o que o artista quer. Assim se a obra de arte puder ser explicada com palavras, ou seja, conceituada, ela não é uma obra de arte. A conexão entre a obra e o apreciador da obra passa por um canal que não usa a linguagem como interlocutora e sim os sentidos do ser humano.

Entende-se do autor que a arte política deixa de ser “boa”, quando esta é motivada pela utopia. Discordo, pois me pergunto que sentimentos mais profundos o ser humano pode nos provocar que nos façam pensar em um mundo melhor, que não uma utopia? Mas mesmo as características do que Azevedo gosta de sentir com a arte política, “melancolia, desespero e saudosismo”, também pode sentir através de uma arte utópica. Tomemos o próprio exemplo de Niemeyer, em sua “escultura de protesto” (como o próprio define) a “Mão” [2]. A melancolia do que poderia ter sido o nosso continente, o desespero do sofrimento ou um saudosismo pelas experiências revolucionárias. Não quero fazer nenhuma análise da escultura, longe disso, apenas vejo como possível despertar esses sentimentos em uma arte política, as variáveis são tantas as que a arte permite.

Quanto a ver esses “artistas que se dobram a utopias finalistas” como prosélitos, é uma posição típica de quem não se assume como seguidor de uma ideologia, prática comum da Veja. Afinal o reacionário, que faz a “boa arte política” se prende ao passado justamente por doutrinas, que o amarram. Só resta a este produzir uma arte limitada, ao contrário de uma arte utópica que não tem limites, pois a utopia é algo que sempre se segue e sempre se modifica quando nos movimentamos em sua direção.

Deixemos a arte de lado, pois a critica que mais me perturba é ao posicionamento político de Niemeyer. Azevedo diz que “embora deplore as suas escolhas políticas e enxergue em sua trajetória de vida o principal desvio de caráter dos comunistas: o oportunismo nos meios com o totalitarismo no fim”. Rebatemos essa visão com as palavras do próprio Oscar:

 “O que se passou na União Soviética foi um acidente de percurso. Outro dia veio um soviético falar comigo. Perguntei a ele o que ele pensava de Stálin. Ele disse que estava de acordo com tudo o que ele fez. De modo que a idéia não acabou. Está no ar.”

Justo um arquiteto, que não tem “obrigação” de se expressar bem com as palavras, deixa neste dito uma “resposta” ao senhor Azevedo. A visão estreita do colunista da Veja enxerga é oportunismo mas o que temos é uma visão de quem acreditava em uma utopia. Azevedo não passa de um rançoso anti-comunista.

Até em seus elogios o colunista demonstra uma falta de sensibilidade em relação à obra do arquiteto quando diz no seu famigerado texto:

“A Catedral de Brasília, templo de oração projetado por um ateu militante, consegue a síntese perfeita entre o mundo horizontal e igualitário — o espírito do tempo moderno — e o apelo ao divino, à memória cultural que uma igreja, qualquer uma, evoca.”

Seu preconceito com relação ao ateísmo militante é compreensível, pois existem ateus se posicionam de maneira insensível a qualquer menção que fuja do materialismo. Existe uma diferença de um ateu militante de um ateu ortodoxo, este último, nunca colocaria qualquer tijolo para erguer uma igreja. Não é o caso do arquiteto que assinou a Catedral de Brasília. Leonardo Boff mostra um Niemeyer nada ortodoxo:

“Seu comunismo está muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido nos Atos dos Apóstolos nos capítulos 2 e 4. Ai se diz que ‘os cristãos colocavam tudo em comum e que não havia pobres entre eles’. Portanto, não era um comunismo ideológico mas ético e humanitário: compartilhar, viver com sobriedade, como sempre viveu, despojar-se do dinheiro e ajudar a quem precisasse. Tudo deveria ser comum. Perguntado por um jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu coerentemente: ‘Aceitaria se fosse para todo mundo;  não quero a imortalidade só para mim’.”

Azevedo reproduz a idéia de que um comunista e/ou ateu obrigatoriamente tem de ser insensível radicalmente avesso a qualquer coisa do mundo espiritual. Como frisei antes: ranço e insensibilidade para arte. Quem possui essas características deveria ficar na mesa de bar e vomitar suas opiniões apenas para os pobres ouvidos de quem se animar a fazê-lo.

Mas enfim o que se pode dizer de um texto extremamente opinativo e calunioso como o de Azevedo é que qualquer um pode se expressar, mas deve estar preparado para criticas em torno do que declara. Elas não faltaram, mas sua reação foi tão rançosa quanto o texto:

“É uma tolice. Também fiz um texto assim que o Michael Jackson morreu. Existe, no país, uma cultura de quando a pessoa morre a conduta dela torna-se impoluta. Não se pode fazer críticas. Não é assim na vida e não pode ser assim na morte”.[3]   

Pois bem, concordo que não devemos ficar exaltando os mortos e bajular cadáveres. Mas ficar criticando os mortos, ainda mais desta maneira escrota, também é o outro lado dessa moeda que não deve ser cultivado. Em primeiro lugar é muito oportunismo, (será que Azevedo sofre da falta de caráter dos comunistas?) não é a primeira vez que Azevedo tenta emplacar suas baboseiras, já que publicou quase a mesma coisa quando Niemeyer completou 99 anos. Em segundo que emitir julgamentos sobre os mortos, sejam criticas ou até exaltações é bastante inconveniente, apesar de apenas a segunda ser socialmente aceito.

O autor se sente incomodando por sua opinião ser considerada a opinião da Editora Abril ou da Revista Veja e acrescenta que não sabe “o que a Veja vai escrever sobre o Niemeyer. Se vão dar ou não ênfase ao lado comunista dele”[4]. Ora, um texto execrando um comunista, por ser comunista publicado em uma revista que sempre execrou comunistas por serem comunistas.

Os mortos não querem saber a nossa opinião sobre eles, ou se querem não precisam acessar a Veja.com para saber. A morte de conhecidos é sempre um evento para a mídia brasileira e ainda não amadureceu. Pelo contrário é cruelmente monopolizada, elitizada e no que depender de textos como o de Azevedo só tende a piorar.

Leia mais

O que é Beleza. DUARTE JR. João-Francisco. Brasilhense.

Arte e política, arte política ou política da arte? - http://www.sul21.com.br/jornal/2012/06/arte-e-politica-arte-politica-ou-politica-da-arte/

O comunismo ético de Oscar Niemeyer - http://www.socialistamorena.com.br/oscar-niemeyer-1907-2012-comunista/


[2] Feita em homenagem ao livro “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano.

[3] “Foi um texto banal”, diz Reinaldo Azevedo sobre “metade idiota” de Niemeyer

http://portal.comunique-se.com.br/index.php/editorias/17-destaque-home/70367-foi-um-texto-banal-diz-reinaldo-azevedo-sobre-metade-idiota-de-niemeyer.html

[4] Idem

 

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