Lá de novo e aqui outra vez: Da Ucrânia, hegemonia, BRICS e as eleições no Brasil

23/09/2014 19:47

Marcos Belmonte

A Ucrânia é um estado de profunda significância para a história atual da Europa e para a suas principais instituições. Não é exatamente por causa de seu crescimento real (0,36%) e PIB nominal (175.5 bilhões de dólares[1]) para a contribuição para a robustez econômica do velho mundo - apesar de ter sua importância para tal e ser mais um voto nas resoluções na esfera da ONU visando interesses regionais. A Ucrânia também é de significativa importância para a região eurasiana que, junto a Síria, Turquia e Iraque, se estabilizados com estados nacionais fortes e coesos, corresponderiam a um possante propulsor da economia mundial nos próximos dois séculos. A história recente da Ucrânia está intimamente ligada à da Rússia, visto que, ela surgiu, enquanto novo país do desmembramento da URSS em 1992. Segundo Vizentini (1999), as repúblicas federadas aproveitaram a crise para proclamar sua independência e apropriar-se do patrimônio da União localizado em seu território. Portanto, parte importante da riqueza ucraniana é em virtude dela ter sido parte da URSS – vide a conhecida “glória naval russa” no porto de Sevastopol -, não à toa, grande contingente de sua população é descendente e/ou “falante de russo”. Não à toa, também, é que parte considerável dessa população apoiar e votar no candidato a presidência com fortes ligações com a Rússia de Putin, Yanukovych que, longe de ser um exemplo de virtude, fora eleito democraticamente, mas criminosamente deposto num golpe de estado que colocara o fantoche da OTAN e EUA, Petro Poroshenko. Mas o que cabe ressaltar é a predominância da etnia e/ou cultura russa em parte do território ucraniano, praticamente, dividindo o país, fruto da implosão da URSS e que deixou imensos problemas que, ainda hoje, são causadores de crises, como o golpe de 2013.

Do desmembramento da URSS surgiram quinze novos países. Estes novos estados nacionais conservaram as mesmas fronteiras administrativas da era soviética, o que implicou problemas gigantescos com relação à infra-estrutura, transporte, economia e minorias étnicas. Enquanto, em algumas Repúblicas, os nacionalistas anticomunistas assumiram o poder, em outras, antigos dirigentes locais do PUCS assumiram as bandeiras do nacionalismo e/ou adaptaram-se ao emergente regime das máfias (Ásia Central, Ucrânia e Bielorússia), utilizando a independência como forma de sobrevivência, já que o poder central desaparecera. Quanto ao problema étnico, é preciso assinalar que, além da existência histórica de minorias dentro de cada República, houve durante a industrialização soviética consideráveis fluxos migratórios, especialmente de russos. Assim, devido às novas fronteiras, milhões de pessoas foram transformadas em estrangeiros, sendo o problema mais grave o dos russos, cujo percentual em algumas repúblicas (...), quase igualava o dos nacionais, gerando complexos problemas políticos. (VIZENTINI, 1999, p.55-56)  

A divisão étnica e linguística ucraniana acentuam os confrontos dentro do estado.

Mas cabe falar que a Ucrânia faz parte da Europa, mas não da zona do euro, nem da União Europeia e, muito menos da OTAN – Apesar de ter tido status de Conselho de Segurança brevemente quando da implosão da URSS por questões nucleares -. Existem diferenças brutais entre cada uma dessas “instituições” de caráter político-econômico, mas não cabe a esse artigo analisá-las com a devida minúcia. O podemos ressaltar são dois pontos importantes: Não sendo a Ucrânia parte da Zona do Euro, isso significa que ela não adota a moeda Euro como sua e nem em suas negociações; e, não sendo parte da União Europeia, ela não dispõe de condições contratuais para receber os possíveis “auxílios” intra-grupo nem oferecer em contrapartida, de maneira legal, seu país para o estabelecimento de estruturas que representem a UE; como Bruxelas, que guarda a sede central da instituição; como a Alemanha, que guarda o BE e etc. A Europa também é o maior importador e exportador de produtos para e da Ucrânia, mas a Rússia é seu maior parceiro individual. Em 2012, 55,8% do total das exportações ucranianas foram para países da Europa, ao ponto que 25,7% do total do mesmo período fora para a Rússia. Também em 2012, 71,2% das importações ucranianas fora de países europeus, ao ponto que a Rússia importara 32,4% e a China 9,3%[2]. É importante notar que Europa, enquanto grupo de países, tem significativo peso na balança comercial ucraniana, posto que a Rússia, enquanto parceiro individual, fica com uma importância secundária nesse quesito, mas, no âmbito do abastecimento energético, essa relação sofre forte revés.

A rota do gás russo para a Europa tem como principal afluente a Ucrânia.

Em torno de 70% do gás natural que abastece a Europa vem da Rússia, onde, imensa parte desse, passa pela Ucrânia. Seguindo essa linha de raciocínio, a Rússia é o mais importante parceiro energético da Europa e suas instituições, tendo a Ucrânia reduzida a apenas uma rota de passagem para os europeus se abastecerem do gás russo e não virarem picolé com seu inverno brutal. Outro possível fornecedor de gás para a salvação europeia seria os EUA – “dono” da UE -, mas, como não há possibilidade nem viabilidade da constituição de uma pipeline atlântica, esse ouro seria transportado via barco, o que, na mais otimista das hipóteses, triplicaria o preço do gás, em comparação ao preço e a estrutura segura russa. Imaginem que tipo de prejuízo essa transação significaria para o PIB da Europa coletiva e individualmente.   

Á esq. o transporte oneroso via embarcação e à dir. a segurança da via terrestre[3].

O golpe de estado que colocara Poroshenko no poder mexeu com todas as estruturas da política ucraniana. Aliados de Yanukovych dentro do governo foram perseguidos e, não longe do corriqueiro, foram agredidos por uma parcela da população que deu substância para o golpe. Grande parte dessa massa golpista dizia-se contra a corrupção do governo pró Moscou – que de fato existia – só que também, essa mesma, era composta de russofóbicos nazifascistas financiados por ONGs e pela CIA e respaldada o tempo todo pela mídia europeia. Mas o golpe não fora completado plenamente. Poroshenko e seu exército, as tropas Ukies e mercenários disponibilizados pelos EUA e NATO depararam-se com importantes resistências em Maidan e Odessa. A perseguição aos descendentes de russos e falantes de russo varria a Ucrânia de maneira brutal. A Criméia tem a maioria da população ligada à Rússia e, com medo das tropas Ukies e do exército de Poroshenko, realizou um referendo onde em torno de 96% da sua população votou à favor da anexação da península à Rússia. Vladmir Putin, com grande interesse político, econômico e estratégico, anexou a Criméia á Rússia, o que proporcionou grandes vantagens para seus habitantes e, repito, porque a Rússia, apesar de querer a paz na região, tinha interesses em jogo.

Como sempre digo, a Rússia não quer nem precisa da Ucrânia. O que a Rússia quer é uma Ucrânia estável, neutra e próspera, e não porque Putin e o resto do pessoal do Kremlin sejam santos ou ucranófolos, mas porque, simplesmente, consideram o melhor interesse da Rússia. O que a Rússia queria e do que realmente precisava, a Rússia já obteve: a Criméia. [4]

Os exércitos ucranianos – prevendo sua aniquilação completa – não atacaram a Criméia, mas foram com força para as regiões que fazem fronteira com a Rússia, como Lugansk e Donetsk. Essas localidades são umas das mais industrializadas da Ucrânia. Essas regiões não pretendem ter suas populações aniquiladas pelos Ukies e apresentam como proposta tornarem-se federações independentes e autonomia para manterem seus negócios com a Rússia, em detrimento da UE, que é a preferida do governo golpista de Kiev. Poroshenko não quer só ligar-se a UE no nível econômico, tornando-se parte da zona do euro, mas sim, quer vincular-se a UE, que, longe de ser uma atitude visando o bem-estar do povo ucraniano, trata-se de pegar empréstimos junto ao FMI e BE e fazer seu país sofrer com a austeridade que trucidou o estado grego, mas, em verdade, Petro é uma marionete dos euroburocratas, da NATO e EUA que desejam a completa desarmonia entre Rússia e Europa – e isso significa romper o vínculo energético.

O Atlântico Norte usa o sentimento da Guerra fria para evitar sua decadência autodeflagrada em 2008 rompendo com o pacto de 1997, onde a OTAN comprometera-se com a Rússia em não colocar bases em suas fronteiras ocidentais, o que também significa na Ucrânia. A marionete Poroshenko representa parte da população ucraniana que deseja essa vinculação com a União Europeia, onde, a massa imagina que terá a sua disposição as ditas benesses prometidas pela instituição, porém, Poroshenko e a própria UE são cientes que o que acontecerá é que o patrimônio ucraniano será obliterado e distribuído para empresas privadas e estados sanguessugas e o aparelho estatal da Ucrânia sofrerá sério enxugamento, demissões mil e toda ordem de austeridade; ao mesmo tempo em que seu presidente golpista russofóbico encherá os bolsos com negociatas inerentes aos presidentes que adotaram tais medidas em seus países e passará a alimentar seu povo desempregado com chocolate tendo seus ukies nazis na coleira. Concomitante, os euroburocratas, reacionários, liderados pelo belicoso e ignóbil Rasmussen – grande parceiro de Tony Blair, David Cameron e de todo tipo de poodle inglês – e os Estados Unidos de Obama, John Kerry, Hilary Clinton, McCaine e outros cowboys brutos dessa laia, realizam o que sempre desejaram e com os meios corruptos corriqueiros: colocam bases da OTAN nas fronteiras ocidentais russas (desejo) quebrando o acordo OTAN-Rússia de 1997 (meio corrupto). Mas para quem pensa que esse sentimento anti-Rússia personalizado na figura de Vladmir Putin é simples ranço da Guerra fria, não é. As raízes são mais profundas. Trata-se de uma agenda para mantimento de uma hegemonia que, como tal, não liga para milhares de mortos ucranianos. Esses, não tem importância alguma. Estão no meio do caminho somente. Não é nada pessoal.

A turma anglo-nazi-sionista que atropela quem estiver na frente.[5]

Não é novidade que Washington está cheia de saudosos dos tempos que eles e seus políticos anglo-sionistas belicosos faziam o que queriam com o Kremlin dos idos do covarde Gorbachev e do bêbado do Yeltsin, mas, o que eles tem agora como desafio é um presidente que se tornou um estorvo porque desafia o ímpeto infantil do – eu quero e pronto e vou fazer! – que vagava livre ciente de seu poderio inquestionável. Putin é um conservador em muitos aspectos, mas tem se demonstrado um exímio estadista no xadrez das relações internacionais. Ele não faz isso se valendo de nenhum milagre, mas, sim, fazendo o que os EUA esqueceram-se: obedecendo leis e tratados internacionais. Postou-se de maneira correta na resolução da crise da Síria impedindo que Obama invadisse aquele estado; dá suporte político e apoio ao fim da contenda sobre o plano nuclear iraniano junto ao P5+1; declarou que faria o possível para acabar com o embargo à Cuba; demonstrou apoio aos palestinos e exortou Israel para que acabe com o massacre/genocídio; e, tem agido como estadista sério e esperto na crise da Ucrânia defendendo interesses, russos, ucranianos e europeus com, não raras, belas jogadas de xadrez[6] deixando Washington e seus cowboys com caras de bobos. Mas é o que dá colocar gente séria, como Putin e Lavrov, contra insossos, como Obama e Kerry. Isso tudo tem um nome: Declínio de uma Era.

Não há como negar que o império excepcionalmente informal dos EUA, sem colônias de ocupação, expandiu-se por todo o globo durante e depois da 2° Guerra Mundial. Fez o que fez, porque foi poupado da horrenda e imensa perda de vidas, da devastação material e da ruína econômica que se abateram sobre as grandes potências beligerantes, aliados e eixo. Para completar, o “complexo industrial-militar” sempre em expansão, disparou do dia para noite, o poder circunstancial e momentaneamente único, marcial, econômico e soft, da Pax Americana. Mas agora, o peculiar império americano já ultrapassou o momento do apogeu. Seus tendões econômicos, fiscais, sociais, cívicos e culturais estão seriamente desgastados. Ao mesmo tempo, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e Irã reclamam seu lugar no concerto das potências mundiais (...)[7]

O que mantém os EUA e sua hegemonia mundial pós Guerra Fria é o sistema de Bretton Woods. Quando negociações entre nações deixam de utilizar o dólar como meio[8], isso afeta frontalmente os EUA. É o que Irã e Rússia andam realizando em suas negociações. O mesmo Irã que seria a fonte principal da sonhada pipeline Nabuco (e suas variações de projeto) e desafeto norte-americano desde os tempos do golpe contra Mossadegh e de Israel desde os anos iniciais pós Revolução Iraniana. Aliás, seguindo essa trilha energética, Nabuco e o Ramo-Sul, ou seja, Irã e Rússia, são os agentes que poderiam abastecer a Europa de gás pelos próximos 100 ou 200 anos[9], o que significaria que os EUA perderiam seu principal aliado e sustentáculo significativo de seu sistema. Isso que nem falamos da China e sua parceria com Moscou e Teerã. Agora enrolem esses fatos num pacote de declínio da hegemonia dos EUA, afronta à Bretton Woods, ódio ao Irã Revolucionário, mais ódio ainda à Rússia, Nabuco e Ramo-sul como alternativa mais viável para Europa, negociações internacionais sem o uso do dólar... Baseado nisso é que podemos ver o porquê os EUA partiram o Afeganistão, Iraque Síria, Ucrânia, ao mesmo tempo em que coopta estados como a Turquia, Arábia Saudita, Kuwait e etc. É a tentativa de manter sua hegemonia. É uma agenda. As pessoas que estão no meio do caminho não importam. Elas só estão no meio do caminho.

Dentro do século XX, a Rússia tem sido grande adversária dos EUA e atualmente – não sei se propositadamente ou por conjuntura – ainda é vista como tal e poderoso parceiro da potencia mundial que mais cresce no planeta, a China. Esses fatores já seriam suficientes para os EUA e seus lacaios de toda ordem mundo a fora para declararem, de maneira subterrânea, “guerra” contra a Rússia e seus parceiros. Diga-se de passagem, o que não falta no ocidente são políticos adestrados e mídias pró EUA atacando Rússia e seus parceiros com todo o tipo de disparate[10][11] que precisam ser frequentemente confrontados e desmentidos[12][13][14]. Agora ponham essa afronta junto à uma afronta político-econômica institucionalizada em oposição à OTAN, EUA e seus braços institucionais, e eu estou falando dos BRICS e seu NBD. É nesse ponto que os novos rumos do planeta e a Ucrânia chegam com peso ao Brasil.

Fazendo uma breve analogia, a Ucrânia não tem todo esse peso econômico? Em 2013, o volume corrente final da nossa balança comercial com esse estado foi de 791.111,298 milhões de dólares. É um volume pequeno se em comparação com a União Europeia, que no mesmo período foi de 98.519.446,701 bilhões de dólares, ou seja, a Ucrânia representa 0,8% do volume corrente do Brasil com a UE. Até abril de 2014 esses volumes estão em 102.565,584 milhões de dólares com a Ucrânia e 28.229.015,145 bilhões de dólares com a UE. Na série histórica, desde o ano 2000, o pico econômico entre Brasília-Kiev chegara a 1.090.760,314 bilhões de dólares, mas mesmo assim representou pouco mais de 1% das nossas relações com a UE. Em janeiro de 2014, dentre os principais produtos que o Brasil importa da Ucrânia estão: hulha antracita, não aglomerada; ligas de aço; medicamentos contendo insulina, em doses; recipientes de ferro/aço, a frio; pigmentos tipo rutilo, com dióxido/titânio ≥ 80% seco; pneus novos para automóveis de passageiros e etc. Já os produtos de maior exportação para Ucrânia são: café solúvel, mesmo descafeinado; minérios de manganês; carne de suínos congeladas; tripas de bovino, frescas, refrigeradas, congeladas, salgadas defumadas; fumo não manufaturado; ferroniobio; línguas de bovino congeladas; aparelhos para pulverizar pulgicidas, inseticidas e etc; carne desossada de bovino congelada; policloreto de vinila, plastificado em forma primária e etc[15].

Baseado nesses números, o Brasil não entraria em colapso se por acaso a Ucrânia fosse implodida hoje para que os Estados Unidos, NATO e suas instituições e lacaios aplacassem sua sede de domínio e cumprimento de seus objetivos? Eu arrisco a dizer que não imediatamente. Novamente terei atribuir um lugar de menor citação ao estado ucraniano, mas não por desconsiderá-lo, mas, sim, para colocá-lo dentro de um contexto mais abrangente no qual tentarei inserir nosso país e todo esse imbróglio internacional. O que conseguimos perceber é que os conflitos na Ucrânia não tem nada a ver com a Ucrânia. Mas essa posição de impotência não é exclusividade desse estado, antes, pelo contrário, todos os países que não estiverem estruturados de maneira coesa e com economia e aparelho estatal poderosos, bem como com uma situação geoestratégica favorável está a mercê de interesses maiores. Todos podem ser esmagados caso não tiverem meios para estancar, desviar ou combater a agenda da hegemonia do atlântico norte. Claro que esse país pode alinhar-se com a hegemonia e ser estuprado e roubado e para sempre ser um joquete subserviente sem meios nem brio para tornar-se o capitão do próprio destino e tentar acabar com as mazelas de séculos de capitalismo predador. A Ucrânia do golpista Poroshenko preferiu a segunda opção.

A Rússia representa a parcela dos estados nacionais que almejam a primeira alternativa de maneira que estancam – livrando-se das interferências e amarras políticas e econômicas da hegemonia -, desviam – evitando que ecloda uma guerra e obedecendo as recomendações das cartas da ONU e outras regulações internacionais -, e combatendo – com o estabelecimento de nova alternativa para os rumos do mundo político e econômico com os BRICS, o NBD e as propostas de um mundo de ordem multipolar. Não quer dizer que a Rússia chegue a ser uma superpotência que se põe como alternativa para a hegemonia dos EUA. Na proposta de um mundo multipolar, da qual a Rússia faz parte, ela é mais um membro dentre outros. Seu protagonismo está muito mais no sentimento anti-Rússia, anti-Putin e da loucura macarthista anticomunista anacrônica que a hegemonia em decadência escolheu como “rosto” de seu adversário, mais conhecido como mundo multipolar como a nova ordem mundial. E o atual teatro desse mais novo conflito é a Ucrânia. Com referência à situação de convulsão ucraniana, o BRICS – talvez o maior e mais coeso grupo representante dessa nova ordem, onde se encaixam também a Unasul e o G77 – se manifestou quando da VI Cúpula do grupo acorrida em Fortaleza e Brasília:

Expressamos nossa profunda preocupação com a situação na Ucrânia. Clamamos por um diálogo abrangente, pelo declínio das tensões no conflito e pela moderação de todos os atores envolvidos, com vistas a encontrar solução política pacífica, em plena conformidade com a Carta das Nações Unidas e com direitos humanos e liberdades fundamentais universalmente reconhecidos.[16]

O BRICS é composto de nações que pleiteiam um mundo onde os desígnios das cartas sejam obedecidos e respeitados por todos seus estados signatários. Sua proposta de mundo passa pela pacificação e resolução de todos os conflitos atuais buscando fortalecer os estados para que relações fortes possam ser estruturadas. Há profunda preocupação com essas contendas[17]. Já a hegemonia atual do atlântico norte fomenta e provoca esses mesmos conflitos para tirar vantagens egoístas e manter sua agenda. São duas propostas de mundo completamente distintas. Não é à toa que atacam a Rússia com toda espécie de acusação infundada; não à toa acusam a China de cercear a liberdade de seu povo; não à toa a Índia recebe a visita da pasta da Secretaria de Estado dos EUA; não à toa o Brasil é atacado pela grande mídia e subestimado por órgãos ligados à hegemonia, como a Standard & Poor, Goldman and Sachs, the economist e etc., anunciando que o deus mercado não está confiante com o país que não lhe oferece mais em sacrifício seus tesouros nacionais e, portanto, deve ter o tal “risco Brasil” aumentado. Os BRICS estão frequentemente sob ataque porque representam a noção de mundo multipolar e o declínio de Bretton Woods[18]. Desestabilizar e enfraquecer – política e economicamente - os estados dos BRICS – e todo o estado ou grupo contrário a hegemonia – faz parte da estratégia para mantimento da agenda da atual [des]ordem em declínio. E é aí que voltamos para Ucrânia.

O que os BRICS tem a ver com a Ucrânia?

Sim. A Ucrânia tem peso significativo para o Brasil. A Ucrânia é o teatro de um confronto de ordens mundiais, onde, o Brasil, via BRICS, está intimamente vinculado ao destino dos ucranianos, crimeanos russos, novorussos e as populações de Lugansk e Donetsk e etc. A postura do atual governo brasileiro corresponde a postura de uma nação que almeja um  mundo diferente do até então estabelecido, capitaneado por EUA, OTAN, UE e demais grupos afinados com os desígnios dos mesmos. O mundo multipolar com os BRICS (e o NBD), MERCOSUL, Unasul, Celac, G77 e etc., fortalecido nos últimos 12 anos de governo petista é frequentemente atacado pela grande mídia e partidos de oposição do centro para a direita, visto sua histórica subserviência aos mandos e desmandos dos EUA, OTAN e etc.

O NBD é talvez a maior afronta à Bretton Woods e motivo de repulsa da hegemonia atual.

A oposição psdbista com seu candidato moribundo Aécio Neves almeja repetir o governo de seu antecessor e mentor FHC que afundou o país em dívidas com a hegemonia. A candidata do PSB – que de socialista só possui a legenda -, Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, que se diz representante da “nova política” é uma completa farsa obscurantista, entreguista de direita que flerta visivelmente com a extrema-direita, mas que ganhou notoriedade nas eleições passadas com a bandeira de ecologista e com sua história humilde, e hoje é sustentada pelo voto dos evangélicos, pela geração que se afastou da política e que tem conhecimento quase nulo sobre os meandros da mesma, pelos chamados “antipetes” e é apoiada por indivíduos absolutamente conservadores e reacionários, tais como: Marco Feliciano, Bolsonaro, Silas Malafaia e etc., e de um grupo golpista saudoso dos 21 anos de ditadura e maior barreira para as investigações da Comissão da Verdade que é o Clube Militar. Ela apresentou seu plano de governo feito às pressas, com inúmeros plágios, e que sofre mudanças conforme pressão de seus aliados e/ou mentores, tais como Malafaia (no âmbito dos assuntos de gênero) e o clube de milicos golpistas (no assunto revisão da Lei da Anistia). Fora o fato de ser bancada e plenamente influenciada por uma banqueira que fez o aspecto econômico do plano de governo de Marina dando autonomia para o BC, o que para uma mente mediana evidencia um equívoco alucinante, brutal e profundamente contra a nação brasileira.

As propostas políticas desses dois opositores são nocivas para o futuro brasileiro, futuro do MERCOSUL, futuro dos BRICS e todos os planos que esses representam. Suas políticas externas são amplamente pró hegemonia almejando estreitamento de laços com os EUA, UE e todos os parceiros desses e concordam e/ou calam-se com situações como o massacre/genocídio de palestinos por Israel e fazem coro do anti-Putin, anti-Rússia e etc. Sendo mais direto: Aécio Neves e Marina Silva estão intimamente vinculados a Ordem Mundial vigente e ao status quo assassino e espoliador. Aécio é mais sincero e compreendido nesses termos; mas Marina Silva quer empurrar uma “Nova Política” para o povo brasileiro que ela aprendeu com George Soros, que por acaso é um propagador de táticas e modus operanti para mantimento dos privilégios da nata da hegemonia atual e que forma governantes para esse intento. Não à toa Tony Blair é membro dessa chamada “nova política”. O mesmo Tony Blair que junto a Bill Clinton guiou FHC rumo ao endividamento do Brasil. O mesmo Tony Blair que, junto a Hillary Clinton, Rasmussem, John Kerry, David Cameron, John McCaine e Obama promovem os conflitos no Oriente Médio, Eurásia e, novamente, com Poroshenko e seus Ukies nazifacistas, na Ucrânia, acusando Putin de ser a origem de todo o mau do mundo. A oposição à direita está em sincronia com o caos atual e contra a nova lógica estruturada no BRICS e demais estados, baseados em economias fortes e políticas similares e posturas internacionais bastante – quase inteiramente – sincronizadas, como no repúdio aos conflitos que se iniciaram em Kiev e hoje estão nas fronteiras ocidentais russas. Olha a Ucrânia aí de novo.

Soros (C) fez sua aluna Marina para o Brasil à maneira que Aécio foi feito por FHC

Os votantes de Aécio são descaradamente a favor das políticas da direita. Os votantes de Marina Silva são uma massa amorfa de religiosos obscutantistas, dos despolitizados sem ciência dos mais básicos conceitos políticos, daqueles que acreditam ser ela uma ambientalista engajada (sic) próxima de Chico Mendes (sic sic) e dos estúpidos “antipetes”. Ambos tem posturas para o Brasil completamente diferente da postura do atual governo que tem compromisso e projeto e protagonismo na constituição de uma Nova Ordem Mundial baseada no multipolarismo e contra a hegemonia do sistema em decadência. O que está se decidindo nessa eleição extrapola os limites geográficos brasileiros, pois vai até a Palestina, África, Ásia e a Ucrânia e etc. Utilizando táticas desesperadas e terroristas pró-hegemonia, há até similaridades nos ataques e nos fracassos também, como a mídia atacando Putin com a queda do voo da malasya airlines com seu MH17, e no Brasil, a mídia atacando o governo do PT no caso Pasadena e etc. Em Kiev a hegemonia colocou seu fantoche entreguista. Como será com Brasília? Veremos em outubro. Para finalizar: Sim. Toda a turbulência da Ucrânia gerada pelo conflito de dois projetos para o futuro do mundo, também está nas eleições do Brasil.

Fontes

VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. Os dez anos que abalaram o século 20: a política internacional de 1989 a 1999. Porta Alegre: Novo Século, 1999.

www.desenvolvimento.gov.br

www.brasilglobalnet.gov.br:arquivos/indicadoreseconomicos/inducrania.pdf

http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/notas-a-imprensa/vi-cupula-brics-declaracao-de-fortaleza

http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2014/08/05/russia-abre-fronteira-para-mais-de-400-militares-ucranianos/

http://port.pravda.ru/busines/05-08-2014/37133-assessor_putin-0/

http://redecastorphoto.blogspot.com.br/

http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_08_05/Acusacoes-infundadas-como-a-OTAN-manipula-opini-o-publica-2124/

http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_08_03/OTAN-diz-dispor-de-dados-confirmando-culpa-de-mil-cias-na-queda-do-Boeing-malaio-0808/

http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_08_06/Russia-tem-provas-de-emprego-de-bombas-de-fosforo-no-sudeste-da-Ucrania-1501/

http://redecastorphoto.blogspot.com.br/

http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2014/08/05/russia-desmascara-farsa-das-imagens-da-ucrania-sobre-queda-do-boeing-777/

http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/notas-a-imprensa/vi-cupula-brics-declaracao-de-fortaleza

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Brics-um-ensaio-de-Bretton-Woods-no-Ceara-/6/31380

http://port.pravda.ru/mundo/09-09-2014/37295-novorussia_confederada-0/

Notas

[1] Dados referentes ao ano de 2013 e a confecção dos relatórios foi realizada pelo Ministério das Relações Exteriores – MRE -; Departamento de Promoção Comercial e Investimentos – DPR -; e a Divisão de Inteligência Comercial – DIC. Acesso aos documentos em 01/08/2014

[2] Ibid.

[3] Os dois exemplos são da empresa russa Gazprom, mas, a intenção é demonstrar as opções de transporte de gás que a Europa teria se continuasse com o gás russo – seguro numa pipeline que gera uma cadeia de dividendos conforme os países que passa – ou, a onerosa via através de embarcações dos EUA – que demandaria uma infindável quantidade de embarcações atravessando o atlântico, sujeito às tempestades e toda ordem de sinistro via mar, as taxas que geraria para os próprios países que consumissem esse produto e o encarecimento do mesmo em virtude de todas as tarifas decorrentes do processo e etc. De uma maneira simples, a via russa é segura e rentável; já a via norte-americana é instável e onerosa.

[4] Trecho do artigo Novorússia: independente, associada ou (com)federada? que é bastante esclarecedor sobre os conflitos que chegaram a fronteira ocidental russa. Disponível em http://port.pravda.ru/mundo/09-09-2014/37295-novorussia_confederada-0/ Acesso em 11/09/14.

[5] De cima para baixo e da esquerda para a direita: John Kerry, Hillary Clinton, Tony Blair, David Cameron, John McCaine, Rasmussen, Barack Obama e Petro Poroshenko.

[6] Rússia abre fronteira para mais de 400 militares ucranianos. Artigo disponível em http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2014/08/05/russia-abre-fronteira-para-mais-de-400-militares-ucranianos/

[7] Ucrânia, o imbróglio, e o declínio do império norte-americano.  Artigo retirado de http://portPravda.ru  em 29/04/2014.

[8] Assessor de Putin propõe "Aliança Antidólar" – Artigo disponível em http://port.pravda.ru/busines/05-08-2014/37133-assessor_putin-0/

[9] Essa ideia foi retirada de um artigo da http://redecastorphoto.blogspot.com.br/ que, no momento, não lembro o autor.

[10] “Sei, mas não vou dizer” – a esta afirmação infantil pode ser reduzida a declaração do secretário-geral da OTAN sobre a queda do Boeing 777 da Malaysia Airlines na Ucrânia. Em entrevista à edição francesa Midi Livre, Anders Fogh Rasmussen afirmou conhecer tudo sobre a queda da aeronave: são culpados os rebeldes apoiados pela Rússia (...)”  – Trecho do artigo Acusações infundadas: como a OTAN manipula a opinião pública. Retirado de http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_08_05/Acusacoes-infundadas-como-a-OTAN-manipula-opini-o-publica-2124/

[11] O secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, disse em entrevista à publicação francesa Midi Libre que dispõe de várias informações que apontam para a culpa de milícias no acidente do avião malaio sobre a Ucrânia. - Trecho do artigo OTAN diz dispor de dados confirmando culpa de milícias na queda do Boeing malaio. Retirado de http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_08_03/OTAN-diz-dispor-de-dados-confirmando-culpa-de-mil-cias-na-queda-do-Boeing-malaio-0808/

[12] A Rússia dispõe de provas de emprego de bombas de fósforo contra a população civil do sudeste da Ucrânia, informou Vladimir Markin, representante oficial do Comité de Investigação da Rússia. – Trecho do artigo Rússia tem provas de emprego de bombas de fósforo no sudeste da Ucrânia. Retirado de http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_08_06/Russia-tem-provas-de-emprego-de-bombas-de-fosforo-no-sudeste-da-Ucrania-1501/

[14]  “As imagens apresentadas pela Ucrânia foram tiradas muito mais tarde do que as russas e, além disso, elas não poderiam ter sido captadas pelos satélites ucranianos que, àquela altura do dia 17 de julho, não sobrevoavam o local da queda do Boeing 777 da Malaysia Airlines.” – Trecho retirado do artigo Rússia desmascara farsa das imagens da Ucrânia sobre queda do Boeing 777. Disponível na íntegra em http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2014/08/05/russia-desmascara-farsa-das-imagens-da-ucrania-sobre-queda-do-boeing-777/

[15] Todos os dados retirados do estudo do Ministério do Desenvolvimento – Secretaria de Comércio Exterior. Acesso em 01/08/14

[16] Quadragésimo quarto ponto da Declaração de Fortaleza. Disponível em http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/notas-a-imprensa/vi-cupula-brics-declaracao-de-fortaleza

[17] 29. Louvamos os esforços feitos pelas Nações Unidas, União Africana (UA), Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre outros, em apoiar a realização de eleições legislativas e presidencial na Guiné-Bissau, pavimentando o caminho para o retorno à democracia constitucional no país. Reconhecemos a importância de se promover a estabilidade política de longo prazo na Guiné-Bissau, o que abrange necessariamente medidas para reduzir a insegurança alimentar e para avançar a reforma abrangente do setor de segurança, conforme proposto pela Configuração Guiné-Bissau da Comissão de Consolidação da Paz das Nações Unidas. Da mesma forma, saudamos também os esforços das Nações Unidas, da UA e da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) em apoiar as eleições legislativas e presidencial em Madagascar, auxiliando no retorno da democracia constitucional no país. / 30. Louvamos os esforços da comunidade internacional no enfrentamento da instabilidade na África por meio do engajamento com e da coordenação da UA e de seu Conselho de Paz e Segurança. Expressamos nossa profunda preocupação com a deterioração da segurança e da situação humanitária na África Ocidental. Conclamamos todas as partes envolvidas nesses conflitos a cessar hostilidades, exercer moderação e se engajar em diálogo para garantir o retorno da paz e da estabilidade. Entretanto, notamos, igualmente, o progresso que tem sido feito em áreas da região para enfrentar desafios políticos e de segurança. / 31. Expressamos igualmente nossa preocupação com a situação das mulheres e crianças de Chibok sequestradas e clamamos pelo fim dos contínuos atos de terrorismo perpetrados pelo Boko Haram. – Pontos da Declaração de Fortaleza.

[18] “O economista Paulo Nogueira Batista Jr, diretor executivo do Brasil e de mais dez países no FMI, costuma dizer que se tudo der certo na Cúpula de líderes dos Brics, que se reúne nesta terça-feira, em Fortaleza, a capital cearense passará à história como um ensaio de Bretton Woods do século XXI.” – Trecho do artigo Brics: um ensaio de Bretton Woods no Ceará?. Retirado de http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Brics-um-ensaio-de-Bretton-Woods-no-Ceara-/6/31380

 

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Comentários: Lá de novo e aqui outra vez: Da Ucrânia, hegemonia, BRICS e as eleições no Brasil

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