Julio de Castilhos e Sua Época

05/09/2013 08:56

Rafael Lapuente

Quando se fala de grandes da historiografia gaúcha, nem sempre o nome de Sergio da Costa Franco é relacionado. Injusto. O historiador, geógrafo e advogado, autor de títulos memoráveis como Porto Alegre – Ano a Ano e Porto Alegre: Guia Histórico escreveu obras fantásticas e até mesmo pioneiras sobre história regional e local, em tempos onde a nova história cultural e as tendências sobre a micro história e a história vista de baixo ainda engatinhavam no cenário da historiografia. Costa Franco escreve artigos para jornais sobre fatos históricos desde 1960 e segue na atividade até os dias de hoje, onde semanalmente é visto no Museu Hipólito da Costa consultando acervos da imprensa do século XIX. Todavia, não foi um historiador adotado, à primeira vista, pela academia, embora essa, aos poucos, teve que reconhecer o valor de suas obras.

Sérgio da Costa Franco

Dentre os grandes livros escritos por Sergio da Costa Franco, consta a primeira biografia de fôlego sobre Julio de Castilhos.[1]Julio de Castilhos e sua época traz à tona a formação republicana no Rio Grande do Sul sob as luzes de um dos maiores nomes republicanos da história brasileira. Contextualizando, inicialmente, o meio geográfico onde nascera Castilhos, Costa Franco faz um trabalho onde, à impressão do leitor, fica explícita a influência braudeliana e da segunda geração dos annales. Franco revela, ainda na parte inicial de seu livro, a juventude de Castilhos: Seus primeiros estudos, suas relações familiares, seu primeiro relacionamento amoroso e suas características pessoais – como apelidos de juventude e marcas de sua personalidade, até a saída do governo do estado[2] em 1898, sua indicação e apoio a Borges de Medeiros e a morte prematura do patriarca, em 1903.

Primeira edição da obra

Deve-se constar que, embora a obra biográfica de Castilhos seja muito bem escrita, com forte contextualização do cenário econômico e, principalmente, político dos momentos finais do Império e dos instantes iniciais da República Velha, tanto sob o ponto de vista nacional como das rivalidades latentes no estado, e contando com uma escrita dócil e leve digna de jornalista[3], Sérgio da Costa Franco, na obra, deixa dissimulada uma forte subjetividade na obra, onde tenta, em seu texto, esconder de Castilhos, por exemplo, sua crueldade com os opositores políticos, marcada, por exemplo, na insurreição federalista de 1893 a 1895. Por óbvio que tais atrocidades também são feitas pelos setores gasparistas, porém, Franco falha ao revelar de maneira forte e evidente as crueldades destes e amenizar, ou até mesmo justificar, os atos da ditadura castilhista, a qual utilizava de todos os recursos do estado para a defesa dos interesses do patriarca do estado. No final da obra, Franco (1988, p. 184), exageradamente, compara Castilhos a Maximilien Robbespierre, jacobino da França revolucionária, ressaltando que Julio, ao contrário do jacobino francês, ainda tinha a vantagem de não ter tido “o seu thermidor e que morreu em triunfo”.

A obra de Sérgio da Costa Franco, certamente, não será renegada tão cedo, apesar das pesquisas terem avançado bastante desde a década de 1980 sobre o “patriarca” do Estado que, na visão de historiadores de renome como Mário Maestri, foi um dos governos de maior destaque no estado. Prova disto, a título de exemplo, é que quase todas as pesquisas que o relacionem ou relacionem o movimento republicano e os primeiros momento da política do café com leite no estado, citam a obra de Franco – a título de exemplo, vale ressaltar o livro organizado por GunterAxt, Julio de Castilhos e o Paradoxo Republicano, onde praticamente todos os artigos citaram o livro Julio de Castilhos e sua Época.[4]

Obviamente, todo o heroísmo que fica latente na obra de Costa Franco é cada vez mais desconstruído por estudos recentes, como sua incoerência na campanha abolicionista, onde Castilhos estimulava a alforria aos escravos e possuía um, ao qual não queria se desfazer devido ao alto valor de mercado que possuía um escravo na década de 1880, preferindo Castilhos vende-lo e às escondidas, contradizendo, além da imagem abolicionista, também a figura positivista que carregara consigo, como muito bem trouxe à tona Margaret Bakos. Também a obra Os Crimes da Ditadura – A história contada pelo Dragão de autoria de Rafael Cabeda e Rodolpho Costa e organizada por Coralio Cabeda, GunterAxt e Ricardo Seelig, mostra o “lado ocultado” por Franco da revolta federalista, elucidando a insurreição sob o ponto de vista dos revolucionários ligados aos irmãos Saraiva.

Duas obras sob organização de Gunter Axt

Entretanto, Julio de Castilhos e sua Época é uma obra prima. Isso é indiscutível. É um dos livros que não podem servir como leitura de cabeceira, nem como leitura de ônibus, pois a qualidade da obra coloca a perda do sono ou do ponto de ônibus como muito prováveis.

É leitura altamente recomendável, típica de um dos melhores da historiografia do Rio Grande do Sul, a qual Sergio da Costa Franco, indubitavelmente, se inclui.

Referências

AXT, Gunter (org). Julio de Castilhos e o paradoxo republicano. Porto Alegre: Nova Hera, 2003

______. Os Crimes da Ditadura: A história contada pela dragão. Porto Alegre: Memorial do Ministério Público do Rio Grande do Sul, 2002.

FRANCO, Sérgio da Costa. Julio de Castilhos e sua época. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1988

MAESTRI, Mário. Breve História do Rio Grande do Sul: Da pré história aos dias atuais. Passo Fundo: Editora UPF, 2010.

Notas

[1] A primeira biografia, na verdade, é de Othelo Rosa, em 1912. Entretanto, além do agravante da antiguidade da obra, Rosa era vinculado ao Partido Republicano Rio-grandense, partido fundado por Julio de Castilhos.

[2] À época, chamava-se presidente do estado, mas apenas por fins didáticos, chamaremos aqui de governador.

[3] Costa Franco é jornalista provisionado, sendo que já foi colunista do Correio do Povo durante as décadas de 1960, 1970 e 1980 e da Zero Hora, durante a década de 1980.

[4] Na segunda edição, Franco é enfático ao sinalizar que não imaginava que tal obra atingiria tamanho sucesso e repercussão. Ainda avisa que, embora certas falhas já tivessem sido assinaladas por outros estudiosos, alerta não ter alterado a obra.

 

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