Fanon explica (ou Fanon o médico com cara de garçom)

30/08/2013 14:45

Walter Lippold

O médico psiquiatra Dr. Frantz Fanon em certo momento de sua vida decidiu largar a Clínica de Blida-Joinville na Argélia para adentrar nas fileiras da Frente de Libertação Nacional. Segundo sua visão, o mundo colonial gerava uma sócio-patologia que não podia ser curada individualmente. Somente uma ação radical e coletiva poderia melhorar a situação psiquiátrica dos argelinos. Partiu de uma visão ontogenética para uma filogenética. Era um médico de verdade. Sou professor e sei que algumas profissões ainda possuem uma carga de voluntarismo, beirando uma vida de asceta, não sou monge e nem os médicos devem ser. Mas possuímos responsabilidades com o povo brasileiro e tenho certeza que nenhum professor se negaria a receber R$ 10.000 por mês para trabalhar nos sertões deste Brasil.

Fanon trabalhou com os estereótipos que povoam o (in)consciente coletivo de sociedades racistas: a dicotomia entre o branco e o negro que também se manifestava na publicidade, no cinema e na literatura. Em suas obras, algumas vezes, relatou sobre como ocorria um tratamento diferenciado ministrado pelo médico europeu nas colônias quanto ao branco europeu - ou pied-noir - e ao norte-africano: ocorria uma infantilização na linguagem usada pelo médico para o colonizado. “Tá doendo aqui?”. Já com o europeu: “O que trouxe o senhor ao meu consultório?” Foucault fala em biopoder, fala do poder da medicina, de como o corpo sofre estes poderes.

O médico-branco-de-branco, asséptico, bem apresentado, com boa aparência. Este boa aparência tem longa data nos estudos sobre racismo no Brasil: Fanon explica... uma das manifestações de uma sociedade racista é a criação de uma beleza branca e de uma feiúra negra, árabe ou indígena. A vítima do racismo estético epidermaliza em si mesmo esta inferioridade ideológica, quer fugir de si mesmo, quer alisar o cabelo, se vestir como o europeu, falar como o europeu, dentro das normas corretas da língua do europeu. O branco colonizador encarna com toda força o racismo colonial: é uma necessidade ideológica do colonialismo. “Lá na Europa eles defendem direitos humanos porque não sabem que estes primitivos só conhecem a linguagem da força.” Este é o pensamento do pied-noir, do branco pé sujo. No Brasil o branco é considerado pelos racistas europeus como lixo branco (white-trash), brancos sujos, degenerados biocultulralmente pelo sol e pela mestiçagem. Somos uma sociedade pós-colonial ou ainda empreendemos um colonialismo interno? Penso que os dois concomitantemente. Neste trecho de Pele Negra, Máscaras Brancas Fanon (1967, p. 189, tradução minha) diz:

Pretidão, escuridão, sombras, noite, os labirintos da Terra, profundezas abismais, denegrir a reputação de alguém; e do outro lado, o olhar brilhante da inocência, a pomba branca da paz, mágica, luz celestial. Uma magnífica criança loira – quanta paz há nesta , quanta alegria, e acima de tudo quanta esperança! Não há comparação com uma magnífica criança preta[...] Na Europa, e isto deve ser dito, em todo país civilizado e civilizador, o Negro é o símbolo do pecado. O arquétipo dos valores mais baixos é representado pelo Negro.

Eu vi rodando no facebook um meme com o Dr. Freud com os dizeres: “Nem Freud explica os médicos brasileiros”. Não sei se eram exatamente estas palavras ipsis litteris. Posso garantir que Fanon explica a atitude de médicos e da jornalista golfando gritos histéricos e trazendo à tona o ódio racial encarnado nas classes abastadas brasileiras. “Escravos, escravos!” Médicas com cara de empregada, segundo a arrependida e mal-interpretada jornalista que circulou nas redes nesta semana. Negros na universidade, negros médicos, chega! “Voltem para a cozinha do R.U.!” dizia um pixo na parede da UFRGS no dia da votação sobre o ingresso por cotas.

O racismo vai além dos ecos ideológicos, ele está calcado em uma estrutura material de diferenciação através de constructos sociais nomeados de raças que filtram no acesso a divisão social do trabalho. Os pós-modernos preferem chamar de “teias” ou “redes” mas prefiro ser fanoniano, no sentido mais materialista possível, colocar as coisas em seus devidos lugares como afirmou Fanon. O racismo não é fruto da ignorância ou da falta de educação, pelo contrário, nos círculos mais educados e pós-graduados é que vemos o ódio racial destilado em manifestações como a dos médicos em Fortaleza. Sim, temos um fenômeno político de ódio ao povo cubano devido a sua escolha histórica pela revolução. Mas podemos negar que “escravos, escravos”, não tem uma conotação extremamente racista, um racismo perverso e hipócrita que nunca se assume. “Eu fui mal interpretada.” Quando acusado de racismo – devido a uma piada, ou injúria racial - a primeira coisa que o brasileiro racista faz é dizer que é brincadeira, é humor. No humor cabe tudo e tudo é liberado, quem crítica é o “chato politicamente correto”, é a feminazi, o negro recalcado que vê racismo em tudo. Neste ato vergonhoso médicos cearenses e a jornalista Michelini Borges destilam o velho desejo dos senhores de separar o homo faber do homo sapiens, o trabalho manual do trabalho intelectual: intento sempre sonhado pelos cães de guarda ideológicos das elites escravistas até a classe burguesa; desde Aristóteles e sua teoria de escravidão natural, passando pelos baluartes do escravismo colonial e chegando até o trabalhador-bovino da administração científica de Taylor. Mas quem respira a contra-hegemonia de Gramsci sabe bem que todos os humanos são intelectuais, mas alguns tem a função de intelectual na sociedade.

Referências:
FANON, Frantz. Black Skin, White Masks. New York: Groove Press, 1967.

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