Ex my love: se botar teu ideal na vitrine não vai valer R$1,99

02/10/2012 19:56

Daniel Baptista

É o poder de transformação, de nova roupagem que a mídia eletrônica dá o tudo que compõe a sociedade. Para Karl Marx o capital transforma tudo em mercadoria, inclusive as pessoas e os sentimentos, o que dirá então da sua mão de obra. O que era renegado anteriormente hoje é visto como rentável e vantajoso. Certa vez me disseram que, nós estudantes de história (e acredito que os demais alunos de cursos de ciências humanas também) somos uns chatos que vemos defeito e maldade em tudo. Bem, acho que essa pessoa tem razão na percepção dela, mas é necessário fazermos um exercício para vermos as vigas do prédio, não apenas o seu aspecto externo. Não fizeram isso com os prédios do Copacabana Palace II lembram? A aparência esconde a verdadeira essência.

No mundo do capital, ninguém entra para perder dinheiro, muito menos para libertar e contestar, tornam necessário o que é supérfluo e te empurram coisas que as vezes você se pergunta: “preciso mesmo disso?” sinto isso quando estou prestes a comprar algo, comprei uma camisa no mês passado e sai da loja com um sentimento de “porque comprei isso?” é por essas atitudes que minhas roupas e tênis estão usados e maltratados pelo tempo, por isso tenho um aspecto de mendigo. Mas chega de falar de minha vida pessoal e vamos ao que interessa.

Como disse antes a pessoa acima, que vê como divertida a novela globalque acabou semana passada, “Cheias de charme” e não via problema nenhum nela, eu a via e a entendia como um elemento que rompe com a unidade de um grupo, no caso o grupo das empregadas domésticas. Lembram que as empregadas conquistaram o direito de ter o gibi assinado com férias, décimo terceiro, licença maternidade, etc. há pouco tempo não é? E as dondocas o que fizeram? Chiaram lembram? “Ai, saírá muito caro para o meu orçamento assinar a carteira da Maria... vou ter que parar de beber champagne da Möet & Chandon que custa R$220 para repassar para ela?” é verdade... como a Vera Loyola vai alimentar os seus cachorros agora que ela vai ter dar a ração importada da Bélgica para a Maria? Mas com reclamações e chiliques a parte, as empregadas domésticas venceram por nocaute. Se não bastasse isso a pouco tempo atrás, não lembro a data, o Globo Repórter mostrou uma reportagem de uma empregada doméstica que comprou sua casa própria. Se não bastassem isso o Fantástico a algumas semanas atrás tinha o concurso da “empregada mais charmosa do Brasil” agora sim, creio que quem está lendo essas linhas sabe aonde quero chegar.

Glamourizar uma profissão ou uma atitude ou até mesmo um hábito é um dos truques da mídia gestada e criada para promover o capitalismo e os  produtos dos donos dos meios de produção. Lembram do cigarro associado  as estrelas de Hollywood nas décadas de 1940 na fase de ouro do cinema? Agora você não precisa almejar uma vida melhor, basta você limpar meu banheiro sem o gibi assinado que em trinta anos você terá a sua casa própria. Quantas mulheres influenciadas pela novela ou pelo concurso do Fantástico pensam “ser empregada não é tão ruim...”  e digo isso não como forma de discriminar quem limpa casa ou executa o serviço braçal. Pelo contrário. Quem executa é quem produz a riqueza, porém não fica com ela. E para conter uma organização de um grupo – nesse caso foi o das empregadas domésticas – nada melhor que mostrar as “vantagens” da profissão sem precisar de mais nada na vida. Na ficção Global as empregadas formaram um grupo musical que as possibilitou de enriquecer. Quem sabe, não acontece isso comigo? Pode pensar Maria, até porque essa cooptação já é clássica na sociedade, há tempos. A cultura novelística e noveleira faz parte da família brasileira. Se projetar na ficção é interação que subliminarmente reproduzimos na sociedade, na vida real.

“Qualquer telespectador pode chegar facilmente a uma constatação. A realidade das novelas é bem mais bela que a minha rua, da minha cidade, enfim a do meu país. Os ricos adormecem em suas mordomias e os pobres não são tão miseráveis. É a cultura Zona Sul.” (RAMOS, 1986 pag. 59)

Por meio dela podemos estabelecer valores, padrões, comportamentos, etc. Formamos a nossa opinião através da máquina de fazer louco, e ninguém, - absolutamente ninguém - está isento disso, desça deste pedestal achando que com você isso não acontece. Experimente ver um filme de ação mesmo sabendo o que vai acontecer no final, você socará o braço da poltrona quando ver o mocinho apanhando antes do glorioso final.

Nada melhor que antes de criminalizar e desarticular um movimento trazê-lo para a sua esfera de influência, maquiando-o para fazer com que ele seja original e produto da emissora. Afinal nas novelas ricos e pobres convivem harmoniosamente e a possibilidade de ascender socialmente é possível. E o pior é que esse instrumento é poderosíssimo e não violento. Desarticula-se um movimento e oferecem algo híbrido em troca, lembramos que essa fórmula elegeu um presidente. Você pode até ter achado graça na historieta Global, rir com as trapalhadas e anedotas, o horário das 19h está programado para esse tipo de história, mas lembre-se que nada é de graça ou sem intenção quando falamos de relações sociais através da mídia televisiva. Lembramos que: “A realidade é construída socialmente. A comunicação consegue criar, construir uma camada superior, simbólica, baseada em sinais e convenções, que passam a ser a Realidade, o que realmente interessa.” (RAMOS, 1986 pag. 9). E sinto em constatar que a internet está nessa onda também. O mestre Igor Moreira disse em uma de suas palestras: “... aí você tem um país em que metade da população é de analfabetos funcionais, e com o avanço e o acesso a internet que é uma imensa lata de lixo, está feito o estrago...”

Leia mais

RAMOS, Roberto. Grã-finos na Globo: Cultura e merchandising nas novelas.

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