Enquanto isso a burguesia bate palmas

23/10/2012 12:15

Davenir Viganon

Que a esquerda nacional é fragmentada isso não é novidade. Parto do principio que essa fragmentação é extremamente danosa á própria esquerda e a quem ela representa. Mas o que ela representa e o que ela reivindica? Depende, e muito, de qual parte da esquerda, pois está tão fragmentada que sua principal demanda muitas vezes é ser a esquerda legitima, sobre as outras esquerdas.

Nossa esquerda se fragmenta em mais pedaços que um copo de vidro que cai no chão. Desde cacos grandes como o PT até ligas comunistas frustradas com fanáticos que apóiam a guerra na líbia ao lado da OTAN, jurando que estão contribuindo para luta pela libertação do proletariado da dominação! Se você é como eu que só acredita vendo então fique à-vontade! (www.litci.org!).

Esses últimos são exemplo de um radicalismo que corrói a própria mobilização da esquerda. O fanatismo, o “marxismo vulgar” que faria o barbudo se revirar no túmulo. A busca por um “Marxismo real”, um santo graal que usa a ciência como muletas. A negação da verdade cientifica, o beneficio da duvida que qualquer deveria ter ao estudar sobre o marxismo, a sociedade e qualquer outro assunto, infelizmente não são singulares a esse grupo. Infelizmente existem muitos revolucionários de botequim e guris de apartamento que “sabem tudo” o que precisam saber de revolução!

Para uns está tudo perdido na esquerda tradicional, pois apóiam a chamada terceira via, outros ainda acreditam, são pessoas da esquerda conscientes de suas limitações que não compartilham das qualidades que citei acima, mas não tem sucesso em evitar essa fragmentação! Tendo isso posto, então, o que a esquerda deveria fazer para evitar essa fragmentação?

Não pretendo resumir a esquerda nesses apontamentos que fiz até agora, até por que esta é um grupo grande demais e que mereceria muitos livros para abordá-la satisfatoriamente. Mas a fragmentação da esquerda é uma tendência comum quando que esta alcança de alguma forma o poder, logo me refiro a esquerda mobilizada em partidos políticos. A época da revolução russa, os lideres revolucionários, temerosos de um novo “grande terror” tentaram evitar ao máximo uma fragmentação do “partidão”, colocando inclusive nos seus estatutos proibição de facções em seu meio. O que não evitou dissidências, que ao invés de um “racha” resultou em expurgos, mortes, e para os mais sortudos, deportações.

No Brasil também a esquerda sofreu com a fragmentação. Na época da ditadura os revolucionários do Brasil lutaram para ter direito de se expressar, de reinvidicar por uma participação na política que haviam perdido com o golpe. Para isso se uniram, mas apenas pontualmente, mantendo suas diferenças apesar das perseguições e eliminações dos grupos guerrilheiros. Se uniram também por que perderam a capacidade de se representar legalmente por um partido, é bom lembrar que nessa época o PCB já estava na ilegalidade. É bem lembrado no documentário “Hercules 56”, a entrevista de um antigo guerrilheiro quando era torturado por um militar, ele disse que enquanto o torturador sacudia sua cabeça e gritava em sua frente dizia que eles já haviam desbaratado mais de 30 pequenos grupos iguais ao dele e perguntava como seriam capazes de vencer desse modo. O entrevistado comentou o acontecido: “não é que o filho da mãe tem razão!”.

Temos ainda a declaração de Fernando Lugo, presidente deposto do Paraguai, ao afirmar que a Esquerda está mais unida que antes no país! Mas apenas depois do impeachment, que tem como condicionante para sua saída justamente a falta de apoio político das outras esquerdas no país!

Todos esses casos me remetem a uma pergunta! No que tange a participação partidária da esquerda, o que falta para a esquerda manter-se unida? Parece-me óbvio que situações extremas como a da ditadura no Brasil, com uma esquerda caçada e na ilegalidade, e no Impeachment paraguaio, onde a esquerda foi removida “legalmente”, são um gatilho forte para tecer alianças onde um alvo num inimigo em comum é facilmente, mas o que faz que antigos aliados sejam mais perigosos que os anteriores?

Encontrei um bom exemplo onde menos esperava. O site Mídia Sem Mascara de Olavo de Carvalho parece para muitos de nós da esquerda como motivo de chacota, para mim, de preocupação - e aproveito para deixar claro que esse “filósofo” é um ridículo e sou contra tudo que ele representa -, mas uma declaração na página inicial do seu site faz muito sentido e não deve ser desprezada por conta de sua ideologia:

“POLÊMICAS INTER-RELIGIOSAS, EM ESPECIAL ENTRE DIFERENTES DENOMINAÇÕES CRISTÃS, SÃO EXPRESSAMENTE PROIBIDAS NESTE SITE. COM TANTOS INIMIGOS RONDANDO, VAMOS FICAR TROCANDO TAPAS EM FAMÍLIA?”

Se bater a curiosidade, entre fique tão enjoado como eu fiquei (http://www.midiasemmascara.org/). Espero que tenha ficado óbvio o que quero dizer. Mas de fato não basta um grito de “proletários do mundo uni-vos”, o buraco é mais embaixo.

A fala do sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC ao falar sobre a militância na internet se encaixa perfeitamente ao dizer que “O difícil agora não é falar; é ser ouvido. É uma inversão brutal. Estamos em uma rede distribuída onde o problema não é construir um discurso; é fazer com que as pessoas estejam aptas a ouvi-lo.”

Para despreparar os ouvidos ninguém mais capacitado que a mídia tradicional brasileira (PiG para os íntimos!) onde se encontra com mais poder frente sua área de influência. Por ela as reivindicações passam por um filtro em que são jogadas no liquidificador e depois exibem apenas o que lhes convém. Devidamente diluído o que há de contestador temos o resultado: um telespectador despreparado para ouvir qualquer discurso da esquerda. Assim o telespectador brasileiro é um desavisado que simplesmente concorda, pois não necessita de reflexão, afinal a televisão já pensou por ele “político é corrupto e pronto!”, “comunista afasta emprego” entre outras pérolas. Isso sem falar na legitimidade que a mídia nacional deu ao processo paraguaio lembrando-se do impeachment de Collor, mas isso, já foi abordado aqui.

A mesma mídia que defende os interesses da direita de maneira disfarçada representa esses interesses que Olavo de Carvalho expõem de maneira mais franca em seu site. Ela exerce assim um papel fundamental nesse esvaziamento, reorientação das reinvidicações quando não as suprime do noticiário. Nesse quadro as esquerdas extremamente fracionadas, muitas vezes por conta do radicalismo que direcionam contra ela própria, não tem sido capazes de fazer diferença. Enquanto isso a disputa das esquerdas continua e a burguesia bate palmas!

Referências

GUARESCHI, Pedrinho. Mídia e democracia.

CARR. C.H. Revolução Russa: De Lênin a Stálin.

http://www.redebrasilatual.com.br/temas/internacional/2012/08/fernando-lugo-diz-que-golpe-mudou-sua-vida-e-que-esquerda-paraguaia-jamais-esteve-tao-unida

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15978

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18669

www.litci.org (guia líbia!)

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